Poder, domínio e opressão parecem controlar a atmosfera de “Alpha”, seja na natureza familiar da relação de Rein (Reinout Scholten van Aschat) com o pai Gijs (Gijs Scholten van Aschat), seja na natureza geográfica em que ambas as personagens se incluem, nos Alpes, que com a sua majestosa composição reduz estes dois seres e quem os acompanha, numa jornada de luto, a pontos insignificantes perdidos na imensidão do branco da neve que cobre as montanhas.
Jan-Willem van Ewijk, que coloca as suas personagens principais num complexo novelo de tensão de masculinidade fragilizada em avaliação, captura a grandiosidade da paisagem em sequências magistrais, ainda que frequentemente, tal com a figura de Rein, escolha planos que revelam a enorme alienação de Rein, que recebe a primeira visita do pai após a morte da mãe.
Desde o primeiro momento do filme, em que somos convidados a entrar num estado meditativo e hipnótico, não diferente ao que Lars Von Trier fazia no seu soberbo “Europa”, que somos confrontados com o distanciamento entre filho e pai sob as tensas labaredas dormentes da sua relação, com conversas circunstanciais e lutas de força bruta numa casa de banho a servirem de panela de pressão para mostrar que esta é uma relação prestes a implodir.
As coisas ganham maior apreensão e inquietação quando a nova namorada de Rein, Laura (Pia Amofa), entra em cena, acentuando a iminente crise familiar. É como se um sistema vulcânico estivesse reativado, exibindo sinais de atividade elevada e estivesse pronto para passar para o estado de erupção em curso.
No último terço, entramos no chamado filme de sobrevivência, mas a angústia de Rein, sentida facilmente pelo espectador e pelo pai, nunca abandona o seu lugar no ecrã e a construção atmosférica do filme. As imagens e principalmente o arranjo sonoro transmitem – num filme profundamente sensorial que merece mesmo o grande ecrã – ainda mais o sentimento de ansiedade ao espectador, que tem consciência que tudo tem altas probabilidades de acabar muito mal.
Com estas temáticas em jogo e com a imensidão da neve a não conseguir controlar um fogo opressivo que “arde sem se ver”, é impossível não nos lembrarmos de filmes como “Força Maior”, mas dado o confronto entre a natureza criadora e o seu legado, pai e filho, “Alpha” leva-nos na mesma viagem, mas por outra direção e a um novo destino.




















