Terceiro filme da ‘trilogia animal’ dos irmãos Ramon e Silvan Zurcher, depois de “The Strange Little Cat” e “The Girl And The Spider”, “The Sparrow In The Chimney” mostra mais uma vez a união (ou falta dela) dentro das famílias, assemelhando-se na análise ao peso do legado e nas implicações nos descendentes das práticas e histórias do passado familiar a um dos objetos mais aclamados este ano na Berlinale, “Sterben”.
Mais ambicioso que os dois filmes anteriores da dupla, “The Sparrow In The Chimney” parte de um princípio que desde sempre sabemos que pode “correr mal no cinema “dar merda”: a junção de vários elementos de uma família para uma celebração. Já avisados deste princípio, que se as famílias se juntam ou sai dali uma comédia selvagem ou um drama violento (décadas depois, ainda não ultrapassámos bem a “Festa” de Thomas Vinterberg), o espectador vai assistindo à chegada de cada um dos elementos da família que se reúnem na casa de Karen (Maren Eggert), cujo rosto de tensão nos primeiros momentos é logo um “teaser” que um ou mais “conflitos são iminentes. E esse conflito pode bem ser com o seu marido, Markus (Andreas Dohler), ou com o seu filho Leon (Ilja Bultmann), ou ainda com Johanna (Lea Zoë Voss), filha, mas que preferia não o ser. A caminho, está ainda a filha mais velha de Karen, Christina (Paula Schindler), mais um caso difícil de geir. A este núcleo profundamente disfuncional junta-se a irmã de Karen, Julie (Britta Hammelstein), o seu marido Jurek (Milian Zerzawy), os seus filhos, e mais um grande grupo de convidados que se amontoa e circula por uma casa que também ela é uma personagem. É que se agora o espaço é aquilo que Karen chama lar, antes pertencia à mãe e ao pai dela, um casal que deixou nos seus descendentes profundas marcas psicológicas.
Mestres no movimento de personagens em espaços confinados, como vimos em “The Girl And The Spider”, onde o trabalho de mudanças da protagonista era o motor para a ação, os irmãos Zurcher, mais polidos e impactantes que nunca, especialmente a nível visual, fazem deste “The Sparrow In The Chimney” uma descida aos infernos de uma família com muito para conversar e ainda mais por resolver. Palavras nunca antes ditas, tensões sexuais vibrantes, rebeldias psicóticas e segredos por revelar vão fervendo um filme em profundo crescendo, como um rio de angústias que deságua frequentemente num mar de imprevisibilidades e ações dolorosas – a que os animais que passam ou vivem no espaço (cão, gato, rato, galinhas) não são igualmente imunes.
No final, os Zurcher encerram a trilogia com pujança, apurado sentido visual e uma anarquia controlada que permite tanto o fechar de portas como a abertura de outras, como se fosse possível recomeçar uma história. E essa história não é individual, mas como um todo, uma família.
Um bom regresso de Ramon e Silvan Zurcher, e um dos melhores filmes na Competição Internacional do Festival de Locarno.





















