Winter River, cidade assombrada por Beetlejuice (e outros espectros), tem algo em comum com Gotham City, não a das BDs, mas aquela retratada num par de sucessos de Tim(othy Walter) Burton, em 1989 e 1992. Espelho fictício de Nova Iorque nos comics, o lar do Batman deveria ser uma metrópole, vide a sua densidade populacional, a sua poluição e a sua alta criminalidade. Apesar disso, na imersão feita por Burton naquela geografia, nota-se no local um espírito provinciano, nada cosmopolita, que contrasta com a opulência arquitetónica das suas construções. No olhar do cineasta, aquele universo de betão armado e tecnologia, embalado pelo barulho dos motores do Batmobile, esconde comportamentos moralistas, atentos à intimidade alheia, de explícita intolerância. É o que se vê, por exemplo, nos pais do Pinguim, que o abandonaram ainda bebé (por conta do seu aspecto animalesco). É o que se vê também nos passos de Bruce Wayne e na sua rotina misteriosa. Não é uma atitude diferente da que se nota na vizinhança onde Edward Scissorhands, um androide com feições de arlequim, vai provar dos prazeres e dos dissabores de ser humano. Nota-se um perfil similar nos arredores da escola retratada em “Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children” (2016).
Essa recorrência transborda uma das obsessões (temáticas) que caracterizam a estética burtoniana como autoral: o interesse em explorar uma América de espírito suburbano, habituada a espiar a privacidade do próximo. O seu cinema retrata sempre uma porção dos Estados Unidos que, na sua intolerância, é capaz de criar monstros mais aterradores do que o verme da areia enfrentado por Winona Ryder e Jenna Ortega em “Beetlejuice Beetlejuice”. Espaços como Winter River são capazes até de (re)eleger Donald Trump. As bestas saem desses territórios que Burton retrata.
Sob as vestes lúdicas da fantasia, a obra constrói um tratado político, que se esgueira por uma atmosfera pecaminosa próxima da Baltimore de John Waters (“Pink Flamingos”), embora menos atenta à luxúria. O sexo até já passou com certa volúpia pelas suas lentes, como visto em “Dark Shadows” (2012), uma iguaria pouco valorizada, e como se vê em certas imposturas cometidas por Beetlejuice, o espírito galhofeiro imortalizado por Michael Keaton em 1988, que volta ao ecrã em 2024, ainda repleto de picardias. A maturidade do seu intérprete (nomeado ao Oscar por “Birdman”) amplia o jeito debochado com que a sua personagem olha para o mundo dos vivos – leia-se “a sociedade americana” – no seu retorno aos cinemas, em 2024. Retorno esse que se deu com a missão de abrir o Festival de Veneza, em 28 de agosto, quando elogios ao elenco e, sobretudo, à banda sonora de Danny Elfman estenderam uma passadeira de luxo para o início da carreira comercial da produção. Com ela, um dos realizadores de mais forte identidade visual do cinema americano reforça a sua assinatura plástica, mas rebusca ainda mais sua marca sociológica ao expor entranhas apodrecidas sob a mira do moralismo.

Embora siga um ar mais sombrio, até mais horrorífico em algumas sequências, “Beetlejuice Beetlejuice” preservou a tónica de crónica de costumes da longa-metragem original e arranca risos – principalmente quando Keaton está em cena – ao expor a incapacidade dos moradores de Winter River em lidar com o inusitado, com o que é diferente. Astrid, adolescente vivida por Jenna (da série “Wanda”), sofre na escola por ser filha de uma especialista em fenómenos sobrenaturais, Lydia (Winona), e não acredita em manifestações espectrais, ao contrário da mãe. A avó, a artista plástica Delia (uma serelepe Catherine O’Hara), é alvo de maledicências também, pelo seu vanguardismo. No ambiente por onde as duas circulam, a maldade maior é a indiferença e a segregação, males que não existem no Limbo onde vive o diabrete interpretado por Keaton. A política nos quintos do Limbo não é praticada com base em dissimulações e sim com sangue e tripas à mostra. Há ainda outros ardis, como o dom de sugar almas e atomizar ectoplasmas, um poder demonstrado por Delores, a personagem mais intrigante da nova película de Burton, que extrai de Monica Bellucci uma languidez mórbida.
É difícil olhar para ela sem pensar na protagonista de “Corpse Bride” (2005), adaptação filmada pelo próprio Tim B., com Mike Johnson, em 2005. Delores lembra Elsa Lanchester em “The Bride of Frankenstein” (1935), sendo toda costurada como ela, capaz de provocar paixões com a sua altivez. Um dia, ela encantou Beetlejuice, e quer tê-lo de volta. O coração dele, no entanto, bate por Lydia e pela mortalidade que a companhia dela pode lhe oferecer. Há muito os dois não se encontravam, mas quando Astrid corre perigo, a vidente interpretada por Winona vai chamar o nome dele três vezes, invocando-o das catacumbas. De volta à Terra, o chamado “bioexorcista” vai espalhar desordem e vai desvelar para o público de Burton as cicatrizes de uma realidade oprimida pelo impulso do controle e pela lei das aparências.
Amparado numa direção de arte a um só tempo lúdica e sinistra, o mestre das fábulas tenebrosas volta a usar o faz de conta como ferramenta para desvelar a opacidade que esconde o provincianismo e curar o nosso daltonismo em relação ao colorido do viver. É pena que o excesso de secundários, entre eles o policia vaidoso vivido por Willem Dafoe, consumam desnecessariamente um tempo de trama que poderia ser melhor investido no humor de Keaton. De toda forma, no período que está em cena, o ator dá show, cercado por efeitos visuais que fogem da atual trivialidade de Hollywood, realçando a fotografia dionisíaca de Haris Zambarloukos.



















