Fotógrafo, pintor e realizador, o francês Quarxx (Alexandre Claudin) tem a provocação e o sentido de não fazer filmes consensuais na sua veia artística.
Amigo e fã de Gaspar Noé, o seu cinema entra por terrenos crípticos de forte cunho visual, nos quais embora se sinta a influência de vários ‘Davids’, como Lynch ou Cronenberg, existe uma busca pela identidade própria e um sentido visual apurado entre a pintura, a fotografia e o cinema, que o transformam num nome definitivamente a seguir no panorama do cinema de género gaulês.
No seu Tous les dieux du ciel (2018), uma versão da sua curta de 2015, Un ciel bleu presque parfait, o cineasta embarca numa história de dois irmãos adultos (interpretados por Jean-Luc Couchard e Melanie Gaydos) marcados por uma tragédia na infância. Culpa, trauma e paranóia servem como combustível para um exemplar de cinema fantástico transversal que merece um olhar crítico e atento.
A morte na génese
Como anteriormente dissemos, Tous les dieux du ciel (2018) é uma versão da sua curta de 2015, Un ciel bleu presque parfait, trabalho que teve como um embrião uma exposição de fotografia do próprio Quarxx cujo tema era a morte: “Tive acesso a uma morgue, pois conhecia um médico legista e é bastante difícil aceder a estes espaços, ainda mais tirar fotografias”, explicou o cineasta ao C7nema, acrescentando que foi essa a primeira vez que foi confrontado com cadáveres reais. “O segundo cadáver que vi era de uma jovem, com uns trinta anos. Perguntei ao médico que se tinha passado com ela, porque tinha morrido. Ele contou-me a história – que me pareceu incrível – que esta rapariga vivia com o irmão e este não aceitou a sua morte. Por tal, ele permaneceu com o cadáver dela durante três meses. Falava, dormia com ela. Dava-lhe banho, via TV e tomava as refeições com ela. Tinha uma ligação a ela tão profunda que recusava aceitar a sua morte. Essa história tocou-me muito, achei extraordinária e decidi reinventa-la.“
Um par de atores improváveis e uma cintilante estrela juvenil
A liderar esta obra de contornos mórbidos e fantásticos temos Jean-Luc Couchard e Melanie Gaydos, “um binómio inimaginável” explica-nos o cineasta, já que de um lado temos um ator belga habituado à comédia (Táxi 4; Babysitter 2; Nada a Declarar) e uma modelo nova-iorquina underground, habituada a trabalhar em videoclipes musicais para bandas como os Rammstein e os Die Antwoord: “São duas pessoas de dois mundos que nada têm a ver um com o outro“.
Quarxx reconhece que o casting para o papel feminino era essencial e complicado, pois necessitava de alguém com particularidades muito específicas na sua aparência, alguém que desse um tom real. “Não queria uma atriz (….) queria alguém que desde o primeiro momento apresentasse uma imagem miserabilista, quer fisicamente, quer emocionalmente“, confessou.
Já sobre a escolha de Jean-Luc Couchard, o realizador diz que nunca pensou nele quando escreveu o guião, mas que quando foi questionado sobre o eventual elenco pelo seu produtor, o nome saiu-lhe: “A minha boca disse o nome, mas nunca tinha pensado nele. Era um risco (…) Couchard estava habituado a participar em comédias populares, mas senti nele um potencial dramático muito grande“.
No meio destas duas personagens, surge outra que ganha maior brilho e enche o ecrã em cada cena que participa. Falamos da jovem Zelie Rixhon, que mais recentemente vimos no cinema em A Incrível História do Carteiro Cheval. “Fizemos o casting a 217 raparigas e a Zelie foi a número 217″, explicou entre risos o realizador: “Sabia que era um papel muito complicado para uma miúda de 8 ou 9 anos. É um papel de adulto. (…) ela veio no último dia do casting. Foi incrível, toda a equipa ficou espantada com a sua interpretação“.
Reconhecendo que tal como a personagem interpretada por Melanie Gaydos, a de Zelie era igualmente uma cativa, Quarxx destaca o magnetismo da jovem, uma espécie de aura que deslumbra e enche o ecrã em cada cena que entra. “Ela tem um talento inato, tem uma força verdadeiramente impressionante. Tem uma inteligência tremenda para uma rapariga de 9 anos. Ela às vezes até me dava conselhos nas filmagens (risos)… E não eram conselhos infantis ou parvos. Ela virou-se 2 ou 3 vezes para mim e disse-me: ‘Alex, isto não está bem porque uma menina de 9 anos não diria isto desta maneira’. E eu dei-lhe razão. Acho que neste caso realmente tive sorte (…) tanto a Melanie como a Zelie trouxeram algo para o filme gigantesco”.
As influências
Quarxx não esconde que nos seus trabalhos anteriores, nas curtas, cineastas como Lynch e Cronenberg estavam na sua mente, tal como várias obras asiáticas, mas explica que para esta obra em particular tentou manter-se longe de todos esses nomes. Falamos-lhe de Lars Von Trier e o seu Melancolia, mas o realizador – apesar de encarar isso como um elogio – afasta essa ideia como influência direta, pois até nem viu o filme: “Mal regresse a França vou ver esse filme (…) já me tinham falado disso“, confessou.
Explicando que mal começou a escrever o guião tentou afastar-se das suas referências cinematográficas, Quarxx conta que chegou mesmo a cortar uma cena que inconscientemente filmou exatamente da mesma maneira como surgia no filme Bernie, de Albert Dupontel. “Somos um produto de tudo o que vemos.“, explicou, adiantando que acima de tudo queria fazer um trabalho pessoal, mostrar o “seu universo“.
“Não sou um cineasta para consensos”
Numa das cenas chave de Un ciel bleu presque parfait, um homem é contratado para ter sexo com a dependente irmã do nosso protagonista, num daqueles momentos “choque” do filme, embora sem qualquer cena mais explícita graficamente.
Quarxx explicou que essa cena – particularmente complicada – não gerou qualquer tipo de problemas nas exibições norte-americanas, e disse mesmo que o maior problema que teve com o seu filme foi no famoso festival de Clermont-Ferrand: “É um filme que envio para festivais (…) não é para o grande público (…) mas já fui insultado duas ou três vezes (…) Clermont Ferrand é um festival extremamente generalista e o filme teve uma projeção numa sala enorme, creio que para 2000 ou 2100 pessoas (…) Foi um escândalo (…) Acontece a cena de abertura e… puff. Perco 25% da ocupação da sala (risos). Até pensas, nem é assim tanta gente, mas as pessoas começam a gritar ‘que escândalo’, ‘que merda de filme’, etc. Adoro (risos). Penso que é um daqueles filmes que ou amas ou detestas. Raramente encontro alguém que diga, ‘gostei mais ou menos'”. E no final da projeção, muitos adoraram e ovacionaram o filme, numa clara guerra com os que apupavam”.
Novos projetos
Após Un ciel bleu presque parfait, Quarxx promete filmar já uma curta ainda este ano, em novembro, sobre o bullying e a negação da morte; e uma longa-metragem com a produtora do último filme, que deverá ser filmada – se correr tudo bem – em 2020.

