Usando o documentário como um verdadeiro laboratório de arqueologia do imaginário popular, muito por força das suas obsessões cinéfilas, o suíço-americano Alexandre O. Philippe tem viajado por filmes, cineastas e imagens que continuam a assombrá-lo a ele e à cultura contemporânea.
Exemplo disso é The People vs. George Lucas (2010), dedicado à relação tumultuosa entre George Lucas e os fãs de Star Wars, 78/52 (2017), onde disseca a cena do duche de Psycho, ou Memory: The Origins of Alien (2019), sobre a génese mitológica e cultural de Alien. Com Leap of Faith: William Friedkin on The Exorcist (2020) e Lynch/Oz (2022), continuou a olhar para as suas obsessões, prosseguindo depois com You Can Call Me Bill (2023), em torno de William Shatner, e Chain Reactions (2024), onde analisa o impacto de The Texas Chain Saw Massacre no género.
Foi quando preparava mais um filme sobre Vertigo, em particular sobre a cena final, que lhe surgiu o convite, por parte da agente de Kim Novak, para fazer um filme em torno da atriz. “Claro que aceitei”, disse o cineasta perante a sala de cinema em Karlovy Vary.
Olhando para Kim Novak não para revisitar a sua vida amorosa ou os mitos de tabloide, mas para escutar a mulher por trás da imagem, Philippe assina Kim Novak’s Vertigo, onde, a partir do arquivo pessoal da atriz, das suas memórias e da relação íntima que ambos mantêm com Vertigo, nasce uma conversa sobre vulnerabilidade, obsessão, Hollywood, autonomia feminina e os fantasmas de Judy e Madeleine que Kim Novak ainda parece carregar.
Em entrevista ao C7nema, Alexandre O. Philippe fala-nos das suas obsessões, de Kim Novak’s Vertigo e dos projetos que tem em agenda.

A minha primeira pergunta tem a ver com a origem do projeto. Sabendo que foi a agente de Kim Novak quem lhe propôs fazer este filme, quão livre foi depois para o desenvolver?
Completamente livre. Tive muita sorte, porque, a partir do momento em que a Kim se comprometeu a fazer o filme, entrou nele por inteiro. Não havia limites, não havia assuntos tabu.
Concordámos os dois que não estávamos propriamente interessados em falar da sua vida amorosa, dos maridos, de Sammy Davis Jr., de todo esse material de tabloide. Queríamos realmente concentrar-nos nela enquanto pessoa. Mas, como se vê no filme, ela foi a lugares bastante sombrios. Lugares surpreendentemente sombrios, na verdade.
Como foi a experiência de ir ao sotão dela e encontrar todo aquele material empacotado com recordações? Para alguém como o Alexandre, deve ter sido muito especial.
Não consigo descrever. Foi como um sonho tornado realidade.
É curioso, porque, em criança, sempre adorei os sótãos. Tínhamos uma casa enorme no sul de França, que pertencia à madrinha da minha mãe, com um sótão gigantesco cheio de caixas. Íamos lá todos os verões e eu passava horas todos os dias a mexer nas caixas, à procura de tesouros. Era algo que gostava muito.
Ter a oportunidade de fazer isso na casa da Kim era algo absolutamente louco. A alegria de abrir aquelas caixas e saber que iam estar cheias de tesouros de Hollywood, mas sem saber exatamente que tesouros seriam…
Era como abrir presentes de Natal. (risos)
Sim. Cada momento era uma surpresa. Acho que nem sequer vi tudo, mas vimos a maior parte. Havia muito material.
Tinha algum tipo de guião no início? Uma ideia clara daquilo sobre o que queria falar?
Sim, precisamos ter. É preciso haver uma estrutura, de certa forma, mas essa estrutura normalmente muda. Depois das entrevistas, temos de descobrir o filme.
Neste caso em particular, como filmámos muito rapidamente, tudo mudou também muito depressa. O filme revelou-se rapidamente.
Esse processo, concentrado num mês, foi difícil para si?
Foi muito intenso. Conseguimos filmar a parte principal, mas acho que um elemento essencial do filme foram também as mensagens de voz que gravei com ela, porque se tornaram verdadeiros confessionários.
Às vezes ela enviava-me uma mensagem de voz por dia; outras vezes, várias no mesmo dia, quando tinha muita coisa sobre que queria falar. Eram conversas de todo o tipo. Às vezes eram apenas anedotas ou histórias, outras vezes algo alegre, e outras vezes ela ligava-me a chorar. Passava por toda uma gama de emoções, ou havia qualquer coisa que precisava mesmo de tirar do peito.
Como digo muitas vezes, é preciso muita coragem para ser vulnerável. Acho que ela teve a coragem de se tornar vulnerável e de confiar no processo. Graças a isso, graças a ela, acho que o filme é bastante poderoso.
O Alexandre também se coloca no filme e explica por que gosta tanto do Vertigo, a história com o seu pai, a experiência de ver o filme… Ou seja, também mostra alguma da sua intimidade…
Sim, absolutamente. É muito estranho, porque nunca tinha me colocado nos meus filmes até este. É a primeira vez que o faço.
Não sei exatamente o que me levou a isso. Tínhamos três câmaras, foi sempre uma rodagem com três câmaras, mas pedi aos diretores de fotografia que garantissem que havia sempre um plano a dois, com a Kim e comigo. Não sei por que fiz isso. Acho que foi uma intuição.
Se não o tivesse feito, não sei que filme teria tido, porque acabei por perceber rapidamente que eu me tornava uma espécie de porta de entrada para a vida dela. No fundo, a viagem é esta: um homem, eu, que era apaixonado por Vertigo desde muito novo, vai à casa dela para a ajudar a fechar um círculo.
De certo modo, é isso que o filme é. Sem mim, acho que a parte emocional, sobretudo o final, quando ela fala sobre estar tão grata por me ter conhecido, não teria existido da mesma forma. Há ali uma emoção que nunca teria acontecido se eu não estivesse diante da câmara.
Às vezes, os deuses do cinema são engraçados. Fazem-nos fazer coisas sem sabermos bem porquê, mas sentimos instintivamente que é o certo. E eu costumo seguir esse instinto quando ele aparece.

Ontem disse na apresentação do filme que é obcecado por uma cena do final de Vertigo e que está a tentar fazer um filme sobre essa cena. Como está esse projeto?
Está a correr muito bem. Temos um elenco extraordinário. Temos, claro, a Kim, mas também Guillermo del Toro, Park Chan-wook, Ari Aster, Guy Maddin, Penn & Teller… A lista continua. Há muitos nomes grandes.
Na verdade, agora são dois filmes. Vai ser um filme em duas partes, porque deverá ter três ou quatro horas. É sobre o final. Para mim, esse é o maior mistério hitchcockiano de todos. Como é que ela cai? Toda a gente tem uma teoria diferente sobre isso.
Fazer este documentário mudou a forma como vê Vertigo?
Constantemente. Vertigo é um filme que já vi bastante mais de cem vezes. Quanto mais vejo o filme, menos o compreendo. É um problema. Um problema maravilhoso. É por isso que gosto tanto dele.
E falar com Kim Novak também mudou a sua visão?
Sim, sem dúvida. E continuamos a ter conversas. Sempre que descubro alguma coisa, ligo-lhe. Ou, às vezes, ela descobre alguma coisa e liga-me. Ela também está muito envolvida nesse mistério.
É divertido poder fazer isto com ela, porque ela acredita no que estou a fazer e gosta disso. Poder dizer: “Tenho esta pergunta, o que aconteceu naquele dia?”, e pegar no telefone para falar com a Kim, é incrível.
É muito interessante porque ela também tinha curiosidade em saber por que gosta tanto de Vertigo. Para ela, inicialmente, o filme nem tinha um guião particularmente bom. Aceitou fazer o filme, mas só depois parece tê-lo integrado plenamente na própria vida.
Sim, ela integrou-o. Acho que há claramente ecos de Vertigo na vida dela.
A forma como ela acabou por conseguir aquele papel, embora inicialmente estivesse pensado para Vera Miles, é fascinante. Foi acaso? Foi destino? O acaso é a mesma coisa que o destino? Podemos dar voltas e voltas a essas perguntas.
Uma coisa é certa: se Vera Miles tivesse feito Vertigo, o filme seria muito diferente. A Kim era, e provavelmente ainda é de alguma forma, a Judy e a Madeleine. Ela fala disso. Ainda carrega essas personagens. Não conseguiu libertar-se delas completamente.
São pessoas muito diferentes, mas, quando vi o filme, não sabia que a Kim tinha uma paixão tão grande por animais. Isso lembrou-me outra estrela que também se afastou a determinado ponto, a Brigitte Bardot. Sente que a indústria do cinema consome estas pessoas e as muda para sempre?
Sim, sem dúvida. E acho que ela tinha muita consciência disso. Penso que foi essa a razão pela qual decidiu sair.
A questão com Kim é que, desde muito jovem, ela sabia quem era e quem queria ser. Era ferozmente independente e queria manter-se fiel a si própria. Lutou por isso durante toda a carreira. E estava disposta a afastar-se quando se tornou claro que já não podia ficar.
E foi isso que fez. Ela fala do cinema como um desvio em relação àquilo que era realmente a sua vida, uma vida de arte e pintura. Isso, em muitos aspetos, era mais importante para ela.

A forma como vemos Vertigo hoje também mudou por causa do #MeToo e da forma como observamos as mulheres e o olhar sobre elas?
Claro. Com qualquer filme, à medida que a sociedade evolui ou muda, começamos a colocar uma nova lente sobre ele.
Há uns anos, no auge da chamada cultura de cancelamento, pensei muito nisso. Não sou fã da cultura de cancelamento. Prefiro aquilo a que chamo cultura de contexto.
Não podemos simplesmente cancelar E Tudo o Vento Levou. Mas é importante olhar para E Tudo o Vento Levou e dizer: há aqui coisas problemáticas que podemos discutir no contexto de hoje. Não queremos alterar ou remontar E Tudo o Vento Levou, e muito menos torná-lo indisponível, porque continua a ser um grande filme, seja qual for o ângulo pelo qual olhamos para ele. E é também um filme importante.
Para mim, não se trata necessariamente de reavaliar os filmes, mas de olhar para eles através das lentes de hoje, reconhecendo que continuam a ser grandes obras de arte. Isso é muito importante.
O que mais o move é a obsessão. Fez filmes sobre William Friedkin, George Lucas, Massacre no Texas e agora este. Parece que se torna obcecado por um filme ou por uma figura e depois avança.
É completamente assim. Ou, às vezes, são os filmes que me encontram. É uma coisa estranha.
Sinto que nunca pensei realmente tornar-me cineasta. Muito menos pensei vir a fazer filmes sobre cinema. Mas fui obcecado por filmes desde muito novo, sobretudo por filmes que ressoam na cultura e no zeitgeist, que têm algo profundo a dizer sobre quem somos culturalmente.
Desde muito jovem via filmes com esse enquadramento mental. Portanto, tornou-se uma coisa natural. Mas o lado obsessivo é real, absolutamente real. Vertigo, por exemplo: podia fazer filmes sobre Vertigo para o resto da vida e nunca me aborreceria.
É muito crítico em relação ao seu próprio trabalho? Volta aos seus filmes e pensa que devia ter feito certas coisas de forma diferente?
Às vezes, sim. Sou definitivamente muito crítico em relação ao meu trabalho. Se olho para trás, para os meus filmes, há sempre qualquer coisa que me faz encolher. Penso: “Devia ter feito isto, devia ter feito aquilo.”
Mas o filme que fazemos é produto do seu tempo, de quem somos naquele momento e dos recursos que temos naquele momento. Por isso, também temos de deixar ir e seguir em frente.
Isso não quer dizer que, se tivesse oportunidade de fazer uma versão de 20.º aniversário de 78/52, não quisesse mudar algumas coisas. Provavelmente quereria. Mas também não quero ficar obcecado por isso.
Além de Vertigo, sobre o qual agora vai fazer dois filmes, tem outras obsessões que queira trabalhar?
Sempre. Sim, claro. Estou a trabalhar em dois filmes sobre Nosferatu. Também estou a trabalhar em dois filmes sobre George Romero. Bem, sobre George Romero e Tom Savini.
Estou agora a trabalhar nestes projetos duplos, o que é estranho. É como quando uma banda de rock está a trabalhar num álbum duplo.
É melhor ter muitos projetos do que não ter nenhum.
Sim, claro. E há outros. Há um filme sobre filmes de máfia em que estou a trabalhar com produtores europeus. E há outros projetos sobre os quais me abordaram. Mas não posso fazer tudo ao mesmo tempo. Tenho de ir por etapas.

Houve algum desafio específico neste filme, ou noutro que tenha feito, em que se sentiu bloqueado, perdido ou sem saber para onde ir?
Sim. Fiz um filme sobre William Shatner, que também é um retrato muito pessoal. Está organizado em capítulos, e cada capítulo é sobre um tema importante para ele, mas também se relaciona com a ideia de morte e mortalidade.
Estruturei as entrevistas assim: manhã, tarde, manhã, tarde, manhã, tarde. Cada sessão era sobre um tema específico. Um dia, um desses temas era a solidão.
Ele entrou na sala num bom estado de espírito, apesar de ter tido uma manhã difícil. Mas começou a ficar muito, muito sombrio. E não me deixava entrar. A minha memória imediata é a sensação de que estava a perder o filme. Senti que aquilo não estava a funcionar. Senti que ele estava a entrar numa espiral descendente e começava a questionar por que razão estava a fazer aquilo.
Tive de encontrar imediatamente uma forma de o colocar noutro caminho no dia seguinte. E consegui. Funcionou. Mas não dormi nessa noite. Foi um momento muito, muito stressante.
O curioso é que fiquei tão stressado com isso que, durante semanas, não quis olhar para as imagens daquele dia. Não queria vê-las.
Como um trauma…
Foi traumático. Pensei que seria terrível. Mas, quando finalmente me sentei para ver o material, pensei: “Raios, isto é incrível.” Era muito sombrio. Era um lado de Shatner que acho que ninguém tinha visto.
E o mais curioso é que agora é o meu capítulo favorito de todo o filme. Mas foi preciso passar por um trauma sério, pela dúvida e pela sensação de que talvez não tivesse filme para chegar lá.
Mas tinha.
Tinha, sim. De alguma forma, temos sempre. Mas fazer cinema não é fácil.

