“The Sealed Soil” (Khake Sar Beh Mohr/O Solo Selado), de 1977, é o segundo filme iraniano realizado por uma mulher, e a primeira e única longa-metragem de Marva Nabili (1941-). Ela também fez o argumento e a produção do filme. O primeiro filme realizado por uma mulher no Irão foi “Marjan“, 1956, de Shahla Riahi, igualmente não exibido neste país.
A ficção de Nabili é inspirada na realidade iraniana e reflete a situação das mulheres nos anos 1970, a partir de um caso específico. Nessa época havia muita repressão política, momento pré-revolução islâmica de 1979 liderada por Ayatollah Ruhollah Khomeini, revolução que derrubou a monarquia do xá Reza Pahlavi. Com a duração de 90 min, o filme traz uma discussão feminista muito à frente do seu tempo. Uma obra rara, nunca exibida no país de origem. Circulou apenas em festivais de cinema do ocidente. Foi finalizada e resistiu ao tempo, porque a realizadora mudou-se para os Estados Unidos da América para estudar cinema.
Falado em persa, rodado em 16mm, durante cerca de 6 dias, apesar da realizadora ter estado com a atriz não profissional, Flora Shabaviz, cerca de dois meses em 1975-76, na pequena aldeia rural Ghalleh Noo-Asgar, sudoeste do Irão, para ver e observar a situação em que vivia uma adolescente pressionada pela família e pela sociedade a casar-se, como relata Marva Nabili nesta conversa, aquando da exibição do seu filme, em 2017, no London Feminist Film Festival – no British Film Institute-BFI em Londres. “The Sealed Soil“ surge, portanto, a partir da história desta jovem. A narrativa conta com moradores locais como personagens e com Flora Shabaviz interpretando a mãe da personagem Roo-Belkheir, que no filme é pressionada pela tradição local a casar-se.
A câmara acompanha Roo-Belkheir na sua rotina diária, uma vida marcada pela repetição e repressão moral e social. Ela vive com a família (mãe, pai e irmã mais nova) numa casa muito simples na referida aldeia rural, mas estão prestes a se mudarem forçadamente para outra localidade. Um projeto de construção moderna controlado pelo Estado, que pouco importa se as pessoas do campo vão se adaptar à cidade.
No Irão pré-revolução, esta jovem é confrontada entre os valores tradicionais e conservadores do mundo rural e os seus anseios de independência e individualidade feminina. Numa estrutura social em que tudo é ordenado pelos homens, as mulheres não têm voz, nem vez. A recusa persistente de Roo-Belkheir diante das propostas de casamento dos homens locais, e a sua ousada coragem de tirar o véu islâmico do cabelo (véu nomeado hijab), faz com que a sua família, temerosa do julgamento da comunidade, procure ajuda de um exorcista, convencida de que ela está possuída por espíritos malignos. Vale a pena destacar que somente esta semana o Conselho de Segurança Nacional Iraniano suspendeu a Lei que obrigava as mulheres a usarem hijab. Uma importante vitória para as mulheres deste país, que eram severamente reprimidas se desobedecessem tal Lei.
“The Sealed Soil” mostra uma tentativa de empoderamento feminino no Irão, provando que as revoluções também podem ser internas e silenciosas. A realizadora expõe a condição da Mulher frente ao comportamento de uma sociedade de homens que reprimem e regulam o que as mulheres podem ou não fazer.
No filme, Nabili volta à atenção para o mundo interno de uma jovem mulher do campo que se rebela, à sua maneira, contra o patriarcado sufocante da sua aldeia. Nem a jovem, nem a sua mãe podem expressar os seus desejos e opiniões, e são sempre os homens a decidirem por elas. Mesmo sendo ainda muito jovem, ela vê-se pressionada a casar-se, contra a sua vontade, como se ser solteira fosse um peso social. Não é a individualidade que conta, mas as tradições masculinas machistas e patriarcais milenares do Irão. O filme mostra que a repressão e a falta de liberdade têm sido repetidas para diferentes gerações de mulheres. No tempo atual, as mulheres seguem tendo muitos dos seus direitos desrespeitados e são reprimidas por certas leis deste país.
Marva Nabili filma sem pressa, tentando capturar e mostrar a vida como ela é neste país do Médio Oriente, na temporalidade da vida real, optando por planos lentos e longos e enquadramentos pictóricos poéticos, revela a condição feminina dada a ver através da repetição das ações das personagens mulheres, cujas atividades quotidianas são meramente domésticas: costuram, cozinham, limpam a casa e lavam a loiça no rio, etc. As personagens homens da aldeia representam-se a si mesmos, interpretam papéis de controle sobre as mulheres no âmbito da realidade. Todas as personagens atuam, agem de modo natural, a realizadora constrói um modo de realizar a partir de situações reais, um modo não controlador e fluido. Mesmo sabendo bem o que desejava no argumento, previamente elaborado durante cerca de dois meses, desenhado a partir da pesquisa, vivência e visitas feitas à aldeia rural, onde filmou. Segundo ela, influenciada pelo estilo de Brecht e do cineasta Robert Bresson, cria uma estética minimalista, que privilegia a imagem, valoriza a expressão natural dos atores-pessoas e foca na essência da narrativa – nas situações da vida real que filma.
Tive o privilégio de assistir “The Sealed soil“, na Cinemateca Portuguesa dentro da programação do IndieLisboa 2025, no dia 9 maio. Após quase 50 anos, o filme regressa ao grande ecrã graças ao trabalho de restauro digital (a partir dos negativos originais de 16 mm) do UCLA Film and Television Archive. Se tiveres a oportunidade de ver o filme, veja-o, vale muito a pena!
P.A. Marva Nabili nasceu no Irão, onde estudou pintura na Universidade de Artes Decorativas de Teerão. Participou como personagem do filme “Siyavosh at Persepolis“(1967), de Fereydoon Rahnama, um marco da “Nova Vaga” no cinema iraniano. Esta experiência levou Nabili a Nova Iorque onde estudou cinema. Após muitos anos fora de casa, regressou temporariamente ao Irão para realizar a sua longa-metragem, “The Sealed Soil”. Também escreveu e realizou o episódio “Nightsongs” da série de TV American Playhouse (1982), que retrata o drama de uma família de imigrantes chineses, vista pelos olhos de uma parente chinesa/vietnamita durante a estadia com eles no bairro Chinatown, em Nova Iorque. Em “Women Make Film”, 2018, o realizador Mark Cousins cita Marva Nabili. Imperdível série de TV em que ele questiona como os filmes são feitos, filmados e montados; a história do cinema contada através da lente de algumas realizadoras do mundo.




















