Quando visitou o Brasil em 2017, para a FLUP, a Festa Literária das Periferias, no Rio de Janeiro, Laurent Cantet (1961-2024) tinha a missão de explicar como enquadrava a juventude pobre da França na sua obra. A Palma de Ouro que ganhou em 2008 com “Entre Les Murs” foi um parâmetro para a sua vida nas salas. “No dia a dia dos adolescentes, a ficção se contorce a partir de vetores da realidade, gerando choques com as convenções”, disse ele ao públic, curioso pelos hábitos das favelas do Rio de Janeiro e  pelos sonhos da garotagem. Essa curiosidade é o motor de “L’Apprenti”, o nome original do guião da sua autoria, mas que foi filmado pelo amigo e parceiro de escrita, Robin Campillo. O título apresentado na Quinzena de Cannes ficou “Enzo“, em respeito à personagem central, que é interpretada (sem brio) por Eloy Pohu.

A marca mais evidente de Campillo (que assina a realização) é a carga de homoerotismo na relação da personagem central com um colega de trabalho, um estrangeiro de origem eslava, essencial à sua educação afetiva. Não se encontra a visceralidade de “120 Batimentos Por Minuto” (Grande Prémio do Júri de Cannes, em 2017), nem a sua exuberância queer no intuito de relatar o desejo. Tudo gravita mais no espírito contido (até demais) de Cantet. Aliás, as suas obsessões – com o mercado profissional, com o amadurecimento e com piscinas – estão todas em cena, no enquadramento realista de colorido tímido de Jeanne Lapoirie. Na edição, nota-se também a tal “timidez”, ou seja, não há espaço para “show of”, para arroubos dramáticos ou folhetinescos. O conflito é ínfimo.

O que vemos é a luta de Enzo para se encontrar no mundo, numa recusa do abastado património familiar em prol de um investimento na vida de pedreiro. Ele luta com os colegas e com o mestre de obras, mas busca paz no afeto da jovem que deseja e em amizades nem sempre presentes. É no diálogo com o pai, papel em que Pierfrancesco Favino se agiganta (como de costume), que o miúdo mais cresce – e o filme também. É pena que Favino apareça bem menos do que o público deseja (e a narrativa insossa de Campillo necessita). Vale como reverência à estética de Cantet e a sua mirada sociológica.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
enzo-um-requiem-morno-para-lauent-cantetA marca mais evidente de Campillo (que assina a realização) é a carga de homoerotismo na relação da personagem central com um colega de trabalho, um estrangeiro de origem eslava, essencial à sua educação afetiva.