Exemplo de eficiência profissional na prisão onde trabalha, Eva pede para ser transferida para a ala de segurança máxima onde é uma funcionária modelo, sob a alegação (falsa) de estar a sofrer abuso moral por parte dos seus superiores. Percebe-se que ela se inquieta com a chegada de um novo preso, Mikkel, uma besta incontrolável. Ele dá muito trabalho até aos mais truculentos guardas, habituados a domar ímpetos ferozes. Numa trajetória de mudança, ela acaba transferida para o setor onde esse rapaz está detido e passa a cuidar pessoalmente dele, sem deixar que percebam a sua dedicação. Uma dedicação que se desenha como um ritual de tortura na qual ela o humilha, até escarrando na sua refeição. Antes, Eva era respeitada por um trabalho de assistência na cadeia, ensinando os presos e até engajando-os nas aulas de ioga e outras atividades físicas. Nessa ala de máxima segurança, ela é alvo do machismo e do etarismo dos colegas, que a hostilizam pela fragilidade aparente da sua silhueta cinquentona e por ser mulher. Ofensas e imposturas, contudo, não parecem surtir efeito na sua retidão, pois a guarda prisional parece obcecada com Mikkel à conta de um episódio renegado do seu passado. Episódio que evoca a natureza materna, que se nota logo no título internacional da saga de Eva, “Sons” (Filhos), um vigoroso misto de drama e thriller do realizador sueco Gustav Möller, que deu nas vistas em 2018 com The Guilty (O Culpado). A sua destreza na condução do suspense (mais uma vez) é notável.

Lançado na competição pelo Urso de Ouro de 2024, na Berlinale, Vogter(nome escandinavo de Filhos) traz a personagem mais complexa da atriz dinamarquesa Sidse Babett Knudsen até hoje. A sua interpretação é vertiginosa, notabilizada sobretudo pela habilidade em expressar angústia no silêncio. As palavras parecem elementos assessórios no argumento escrito por Möller com Emil Nygaard Albertsen, mas não são. No princípio, contam mais as suspeitas que criamos a partir das ações vacilantes de Eva, em olhares perdidos, e expressões de espanto e de desconforto. Cria-se, de caras, um senso (moralizante) acerca dela, num encaixe provisório no arquétipo de heroína. A seguir, a realização precisa de Möller vai esgarçando o enredo e consolidando uma dramaturgia dialética, que se verticaliza nos conflitos da protagonista de modo a fraturar as nossas certezas sobre ela, sobretudo as mais melodramáticas. Ao mesmo tempo, o cineasta consegue, nas brechas, fazer uma radiografia das contradições de uma sociedade encarada como um signo de plenitude civilizatória, ao expor barbáries disfarçadas sob uma aura de polidez, expondo no processo o sexismo institucionalizado.

Sebastian Bull, escolhido para interpretar Mikkel, é um parceiro de cena incandescente para uma estrela do porte de Sidse, uma vez que o seu modo balbuciante de articular sílabas, entre jorros de saliva e ranger dos dentes, demonstra uma fúria que alimenta a relação doentia de projeção e de sublimação dos ódios construídos entre ele e Eva. As sequências de ambos elevam à fervura máxima uma forma de narrar que parece uma panela de pressão prestes a explodir. A montagem frenética de Rasmus Stensgaard Madsen é fundamental para o ritmo exasperante da película, fotografada sempre numa palete de cor branda por Jasper Spanning.

Há uma dimensão de espetáculo com resquícios de cinema de género (o thriller de cárcere, vide Carandiru ou Clemency) no trabalho de Möller e existe a sua marca autoral na forma como a sua abordagem (recorrente) para ambientes claustrofóbicos se debruça sobre a sensação de culpa, de consciência pesada. A majestosa atuação de Sidse amarra, com vigor, extremos que se amalgamam.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/83kn
Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
filhos-uma-panela-de-pressao-no-cinema-carcerarioum vigoroso misto de drama e thriller do realizador sueco Gustav Möller, que deu nas vistas em 2018 com “The Guilty” (O Culpado). A sua destreza na condução do suspense (mais uma vez) é notável.