A soma de três fatores de “Joker” (2019) – a) a conquista do Leão de Ouro de Veneza; b) dois Oscars; e sobretudo c) uma faturação estimada em mil milhões – levou (ou seria melhor dizer, “forçou”) Todd Phillips a gestar e parir uma continuação do thriller psicológico que ergueu a partir da mitologia do inimigo nº 1 do Batman. Embora tenha desrespeitados as cronologias, algumas características de perfil e dados biográficos do bandido criado nas BDs por Jerry Robinson (1922-2011) em 25 de abril de 1940, o realizador namorou com a matriz dos comics e procurou resquícios de graphic novels como “The Killing Joke” (1988).
Apesar de trocado o nome do criminoso de aspecto circense (na banda desenhada é Jack; no cinema é Arthur Fleck) e de tê-lo libertado do arquétipo clássico da vilania, a longa-metragem reciclou enredos já lidos na banda desenhada e manteve a citação ao clã Wayne, de onde vem Bruce, o Homem-Morcego. Fora isso, ao ambientar o enredo em 1981, citando “Blow Out” (de Brian De Palma) num plano da fachada de uma sala de exibição, Phillips evocava referências estéticas da Nova Hollywood, de modo a construir um visual que evocasse a crónica urbana de filmes de culto como “Mean Streets” (1973).
Só que nada disso foi preservado na continuação, que chegaaos cinemas depois de ter concorrido ao felino dourado de Veneza e de ter sido projetado no desfecho do Festival de San Sebastián. A sensação de se tratar de uma “parte dois” desnecessária, forçada, é inevitável, em especial pela incapacidade da realização em fazer Fleck / Joker evoluir dramaturgicamente – ou revelar novas facetas.
O tão anunciado twist musical de “Folie À Deux” parece assessório à trama, a servir mais como um alívio (para aspereza retratada nos momentos realistas) do que como componente essencial à narrativa. As sequências cantadas entram em cena como uma jukebox, sem relação direta com o que é falado ou vivido, apenas a revisitar standards da canção americana. Todas têm uma inegável elegância na sua direção de arte, realçada pela fotografia de Lawrence Sher (parceiro recorrente de Phillips), que repete o mesmo padrão de luzes do filme original, com novos efeitos de chiaroscuro. Embora Joaquin Phoenix (intérprete de Fleck) cante várias vezes (e bem), esta porção musicada do novo “Joker” parece existir mais em função da presença de Lady Gaga no elenco. O ponto mais grave dessa produção é que o papel dela, Harleen Lee, soa supérfluo por nunca ser devidamente explorada, relegando a atriz e cantora a uma condição periférica. Quem esperava ver surgir a Harley Quinn (identidade secreta de Harleen, a namorada de Joker nas revistas em quadrinhos) vai sair frustrado. Aliás, passa-se a léguas de distância da femme fatale da franquia “Suicide Squad” (2016-2021), vivida por Margot Robbie. A atuação de Gaga é circunspecta – menos quando solta a voz.
Antes de Harleen aparecer, há uma espécie de introito animado, formalmente decalcado dos desenhos dos “Looney Tunes”, da Warner Bros. Trata-se de um prólogo em animação no qual Fleck é retratado com o mesmo jeito desengonçado de Bugs Bunny. É uma introdução que celebra o legado indústria da Warner Bros., mas não passa disso, sem nada a acrescentar que não seja um exercício de estilo.

Havia no “Joker” de 2019 uma sinestésica atmosfera de panela de pressão a ferver sempre em temperatura máxima, prestes a explodir, não apenas através de ondas de violência, como também de debates sociológicos. Esse clima de forte pressurização desaparece em “Folie à Deux” e dá lugar a uma estrutura palavrosa (ora melódica) de drama judicial (arrastado) que se alterna com uma veia de drama carcerário. Ora, Joker (Coringa no Brasil) está a sofrer nas mãos dos guardas do Asilo Arkham, ora está no tribunal, depondo ou criando tropelias que irritam o juiz. Harleen aparece pontualmente como o seu interesse romântico, mas amplia a sua persona (levemente) quando confessa ver nele uma inspiração para o seu desejo de aloprar e se vingar das fraturas emotivas familiares.
Reside aí outro senão de “Folie à Deux”, na comparação com a película da qual deriva: a vontade de Harleen em incendiar o mundo – neste caso, em Gotham – leva Fleck, cena após cena, a cair em si, a perceber a sua barbárie e a recusá-la. O que poderia ser um processo de humanização acaba por fluir por um caminho moralista, que nega a linha anarquista que Joker parecia ter. O espírito libertário de Phillips parece ter se rendido ao capitalismo, de modo a enquadrar o protagonista – e o seu cinema virulento, vide “The Hangover” – numa norma.
Existem várias personagens satélites em “Folie à Deux” que não encontram qualquer lugar para si no argumento, soanda também a descartáveis. Um deles é o guarda Sullivan, interpretado por um desperdiçado Brendan Gleeson. O outro é o repórter com desejos de abutre, faminto por carnificina, vivido por Steve Coogan, completamente subaproveitado. Nem Harvey Dent, um promotor da justiça que, nas BDs (e na trilogia “Batman” de Cristopher Nolan), era o assassino Duas-Caras (Two Face), consegue de destacar, na insossa interpretação de Larry Lawtey. São figuras que em nada fazem o “Joker” de 2024 ir adiante.
Fora isso, a ausência de qualquer referência a Wayne dói no coração de quem lê comics. Aquele espetáculo vibrante que era o velho “Joker” deu lugar a um fruto seco.




















