Passada numa Gayláxia bem longínqua, a comédia sci-fi de animação “Lesbian Space Princess” tomou de assalto o Festival de Berlim e a sua secção Panorama, produzindo algumas das sessões mais divertidas da maratona cinéfila germânica.

Construída com pouquíssimos recursos e desenhada por pouquíssimas mãos ao longo de 50 semanas, o filme segue a introvertida Princesa Saira, filha das rainhas lésbicas do planeta Clitopolis, que após uma desilusão amorosa com a namorada, a caçadora de recompensas Kiki, que acha que a realeza é muito aborrecida, decide arriscar um pouco mais na vida e sair do seu planeta. A razão para isso é grave: Kiki foi sequestrada por um grupo autodenominado de Straight White Malions (paródia de Homens Brancos Heterossexuais), que só a libertam se Saira lhes oferecer o lábris real (machado de duas faces), que precisam utilizar como fonte de energia para um dispositivo (um imã gigante) que este grupo solitário comprou para atrair “chicks” (termo que podemos traduzir do calão como “gajas”, mas que também é usada para pintainhos). Com a ideia de reconquistar a namorada, Saira abandona assim a sua zona de conforto e parte para o resgate, contando para isso com uma nave espacial com um sistema operativo rezingão e formatado pela tradição patriarca.

Numa viagem intergaylática de planeta em planeta, onde não faltam atrações surreais, as cores do arco-íris, uma de cada vez, vão adornar uma direção de arte que vai assim também fazendo uma inflexão ao estado de espírito cada vez mais confiante da princesa que, pelo caminho, trava amizade (e algo mais) com uma cantora pop que conhece num planeta onde vai ter encontrar os cristais que servem de combustível à nave.

Um conjunto infindável de piadas, muitas delas recorrendo a um humor escusado de palavras, provocaram uma enxurrada de risos na sala. A própria graça em torno dos Straight White Malions (as únicas personagens de forma 2D e quase sem cor) é tão delirante e estereotipada que foge assim de qualquer modo de ofensa real. Na verdade, tudo é tão estapafúrdio nesta comédia queer elevada ao quadrado de elevada precisão que nada pode ser realmente levado a sério (veja-se a forma de pénis mecânico como a derradeira arma do inimigo para travar os intentos da princesa), nem mesmo os momentos “pirosos” de romance, que fizeram um grupo de jovens sentadas ao meu lado suspirar constantemente durante toda a sessão. A vertente musical do filme, também ela muito simples, não entorpece a viagem entre géneros, servindo mais para fazer escoar o romance e o humor.

No final, e embora o arranjo de animação seja muito simples, ainda que extremamente colorido e vívido, “Lesbian Space Princess” é demasiado divertido e feito com tal amor e dedicação que não podemos deixar de recomendar. E a recomendação vai além do público queer, que facilmente estava em maioria na sala onde foi projetado.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
lesbian-space-princess-animacao-intergaylatica-diverte-a-berlinaleNuma viagem intergaylática de planeta em planeta, onde não faltam atrações surreais, as cores do arco-íris, uma de cada vez, vão adornar uma direção de arte que vai assim também fazendo uma inflexão ao estado de espírito cada vez mais confiante da protagonista