Centro de Detenção de Otay Mesa, na fronteira entre os EUA e o México. Enquanto os migrantes se amontoam num espaço precário sob a vigilância de agentes da lei e tropas, um grupo revolucionário autodenominado The French 75 inicia um ataque de libertação dos detidos, que serve também como declaração de guerra ao governo dos EUA. Iniciam-se assim ações de guerrilha que envolvem ataques a instituições governamentais, escritórios de políticos pró-vida e todos os tentáculos do conservadorismo norte-americano.

Duas das figuras centrais desse grupo são Pat (Leonardo DiCaprio), que, juntamente com a alma carismática dessa rebelião, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), formam um casal que comanda diversas ações no terreno. No ataque inicial, Perfidia ridiculariza a masculinidade do oficial Steven J. Lockjaw (Sean Penn), um coronel com ideias supremacistas brancas, mas que encontra na militante negra um fetiche sexual de dominação que o torna obcecado por ela. A sede de travar os French 75 é tão acentuada como a de reencontrar e dominar (e ser dominado por) Perfidia, transformando Lockjaw numa besta de perseguição que só descansará quando cumprir a sua dupla missão.

Teyana Taylor e Sean Penn

Após algumas reviravoltas espetaculares, passamos 16 anos para a frente na história, com o espectador a ser levado agora para Baktan Cross, uma pequena cidade pacata fronteiriça (não real), onde Pat é agora conhecido como Bob, e a sua filha adolescente, Charlene, é tratada como Willa (Chase Infiniti). Esta jovem – que cresceu entre as “paranoias” do pai, regadas a álcool e drogas, e que estuda e pratica karaté – pouco sabe do passado dos seus pais, mas está alertada que, se um dia alguém chegar ao pé de si com palavras em código, sabe que tem de confiar a sua vida a essa pessoa.

Fiel à sua missão de derrubar todos os inimigos que o governo considera irem contra o American way of life, ou ponham em causa o Make America Great Again (vê-se isso nas entrelinhas, sem ser preciso nomear), Lockjaw, com ambições de ser convocado para membro de um tenebroso grupo de supremacistas brancos da classe empresarial e política, descobre que uma ação do passado pode destruir as suas ambições, partindo assim no encalço da dupla Bob & Willa para fechar as pontas soltas do passado e continuar a lutar contra os movimentos radicais.

Partindo livremente do livro Vineland, de Thomas Pynchon – de quem Paul Thomas Anderson (PTA) já tinha adaptado Inherent Vice (2014) – o realizador, que se estreou com Hard Eight (1996) e nos ofereceu Boogie Nights (1997) e Magnolia (1999), ainda no século passado, partiu de um retrato de ex-revolucionários e militantes dos anos 1960 a lidar com o reaganismo, a televisão e a “guerra às drogas” nos anos 80, para dar contemporaneidade e fazer de One Battle After Another (Batalha Atrás de Batalha, 2025) aquele que é facilmente o seu filme mais comercial, mas não de todo para as massas. É um filme notável, diga-se com todas as letras.

Leonardo DiCaprio e Benicio Del Toro

Vulcão de adrenalina que faz as suas 2h40 de duração passarem sem se sentir, para isso, muito contribui a montagem vibrante e vertiginosa de Andy Jurgensen, que não dá tempo para respirar, com as alternâncias entre duas (ou mais) ações diferentes que acontecem ao mesmo tempo, em lugares distintos (crosscuts), conduzindo-nos para dentro da ação e para a atmosfera de nervosismo de forma imediata, a que os cortes rápidos se casam com alguns planos mais longos, que quase parecem ameaçar planos-sequência. A banda sonora trepidante de Jonny Greenwood funciona como esteroide emocional para esse ambiente frenético da montagem, com recurso a piano, guitarra, baixo, percussão e ondes Martenot — instrumento que o membro dos Radiohead já usara em There Will Be Blood (2007) e Phantom Thread (2017), além de Kid A, — para entregar ao espectador um estado de tensão latente e uma experiência profundamente sensorial. A dupla serve assim de forma brilhante a direção visceral e meticulosa de Paul Thomas Anderson, que confere ao filme uma densidade rara, camada após camada, batalha após batalha, equilibrando momentos de ação fulminante com uma dimensão política que invade o íntimo das personagens, deambulando estas frequentemente por introspeções existenciais — seja na descoberta de quem são (Charlene/Willa), seja no recrudescer de um passado (Pat/Bob) pronto para lhes voltar a morder os calcanhares.

E, nessa direção de PTA, ficam na retina diversos momentos: desde o caos na pequena localidade invadida pelas autoridades, com o sensei interpretado por Benicio Del Toro (sempre brilhante) a responder com um mirabolante plano de evacuação, até a um espaço gerido por freiras no deserto, e uma perseguição final hipnótica que nos leva ao deserto de Anza-Borrego e Borrego Springs, na Califórnia.

O “rio de colinas” da estrada na área de Anza-Borrego e Borrego Springs proporciona uma das melhores sequências de perseguição do cinema moderno

Ali, a arquitetura da estrada — minuciosamente estudada em termos de curvas, inclinações e luz natural para coreografar cada manobra — transforma uma via com descidas e subidas abruptas, apelidada pela equipa de “rio de colinas”, no palco para uma das melhores sequências de perseguição a sair de Hollywood nos últimos anos. Os cortes rápidos e o crosscutting mantêm o ritmo frenético sem perder clareza espacial das subidas/descidas sem visibilidade, enquanto a espessura caótica da psique dos intervenientes é explorada a partir de construções apuradas por parte dos seus intérpretes.

Nesse aspeto, Sean Penn entrega mais um desempenho essencial para a sua filmografia, ainda que muitos possam acusá-lo de uma prestação over the top pela forma como dá vida a uma personagem maior que a própria vida. Já DiCaprio volta a mostrar uma enorme versatilidade, num papel de alguém preso entre a revolução e as obrigações paternais, onde a opção é a segunda, à qual se soma uma alienação psicotrópica. Depois da sua prestação numa série de filmes de Martin Scorsese, onde se destaca Shutter Island (2010), The Wolf of Wall Street (2013) e principalmente em Killers of the Flower Moon (2023), onde existe uma mudança matura de registo, se dúvidas ainda subsistiam quanto às suas capacidades dramáticas, One Battle After Another (2025) dissipa-as. Ele é mesmo um dos atores mais relevantes e arrojados (nas escolhas de quem interpreta) da atualidade, bem longe do “menino bonito” que caracterizou o início da sua carreira (Romeu e Julieta (1996); Titanic (1997); A Praia (2000)). Teyana Taylor (The Book of Clarence) é um poço de charme e carisma, enquanto a jovem Chase Infiniti cresce em cena entre dois mundos que tenta compreender.

O resultado disto tudo é uma “bomba” cinematográfica de construção industrial e de estúdio (a Warner), mas espírito artesanal: um filme que combina ação explosiva, suspense intenso e drama com profundidade política e pessoal – sempre de olhos postos no mundo contemporâneo e na desilusão que o acompanha há várias décadas. E nessa viagem, como o surreal tornou-se real, e a utopia gerou a distopia, a ironia e o humor fazem também parte do cardápio, não fosse Bob um homem a lutar com os custos da alienação a que se acomodou, já com as marcas da velhice e do esquecimento bem vincadas.

E nisso, Paul Thomas Anderson entrega mais um filme imperdível – que se junta a outros numa carreira marcada por filmes de exceção como Boogie Nights (1997), o mosaico coral Magnolia (1999), a obra-prima There Will Be Blood (2007) e o deveras subvalorizado The Master (2011).

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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