Os créditos iniciais de “Amrum” apresentam uma simbólica passagem de “Um Filme Hark Bohm realizado por Fatih Akin“. Com oitenta anos, Bohm é um autor, argumentista e realizador de cinema alemão que serviu de professor de Akin, que na abertura da secção Première do Festival de Cannes fez questão de homenagear o seu mestre que, devido à idade avançada, não conseguiu seguir até à Croisette.

Há muitos pontos de interesse no filme de Bohm e Akin, a começar pelo facto de abordar o que aconteceu à Alemanha e aos alemães depois da morte de Hitler, da queda do III Reich e da entrada de americanos e soviéticos no país. A verdade é que, apesar de existirem vários filmes sobre a 2ª Guerra Mundial, não são assim tantos que exploram o caminho alemão após a derrota. E ainda existem menos (ou nenhuns) sobre o destino da população de Amrum, uma ilha do arquipélago da Frísia Setentrional, na Alemanha, ao largo da costa do Mar do Norte,. Com uma área de 20 km² e escassos habitantes que falam um dialeto particular, esta ilha serve de palco para a história de um rapaz, irmãos, da mãe (Laura Tonke) e da tia, que viajam para ilha nos momentos finais da guerra e com a ameaça da chegada dos soviéticos.

Visto como um estrangeiro, vindo do continente, para um local onde agricultura e pesca são as atividades primordiais, Nanning (Jasper Billerbeck) tem imediatamente dificuldades de integração, sendo mal recebido na escola e fazendo apenas amizade com um outro rapaz. Alguns polacos presentes no local também são vistos com desconfiança e Nanning, que pertence à juventude hitlariana e veste mesmo os seus trajes, também os vê como um “outro” inferior, não se escusando a fazer pirraça à sua proveniência. Já a mãe do rapaz, grávida, desespera com qualquer referência a uma eventual derrota alemã, apelidando de traidores todos os que mencionam isso e afirmando que qualquer choro ou fraqueza não é digna para a pátria. 

Com filmes no reportório como “A Esposa Turca”, “A Bar Luva Dourada” e “In The Fade”, “Amrum” pode representar um novo caminho cinematográfico para Akin, ou então é uma pequena de bolsa de ar de toada coming-of-age em tempos de guerra, inserida num conjunto de obra que frequentemente faz o espectador chocar de frente com o grotesco e ficar com sequelas. E se existe uma certa ligeireza do filme, perante o habitual trabalho de Akin, onde muitas vezes violência e vingança se casam com brutalidade, isso não significa que este projeto seja de alguma forma um crowd pleaser acessível sem qualquer nuances de agressividade. Não é assim e, ao invés, temos acesso a tudo pela perspetiva (muitas vezes inocente e ingénua) de um pequeno rapaz exposto a realidades incómodas e que quer agradar a mãe. Fazendo todo o tipo de negociatas para conseguir ter um papel importante no local e na família, isto é, ser o “homem de família” que conscientemente o obrigam a ser, Nanning irá descobrir duras realidades, seja via um corpo que dá á costa, seja pelas conversas sobre uns eventuais campos de concentração que existem, ou seja pelo destino trágico que um tio dele encontrou após o sucumbir do Fuhrer.

Uma nota final para a presença de uma musa de Akin no elenco de “Amrum“: Diane Krueger. A atriz tem um pequeníssimo papel no projeto, deixando Jasper Billerbeck e, principalmente, Laura Tonke os maiores momentos para brilhar com a sua firmeza e nazismo.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
amrum-uma-infancia-alemaSe existe uma certa ligeireza do filme, perante o habitual trabalho de Akin, onde muitas vezes violência e vingança se casam com brutalidade, isso não significa que este projeto seja de alguma forma um crowd pleaser acessível sem qualquer nuances de agressividade.