É difícil pensar em algo mais kafkiano no cinema brasileiro recente do que este estudo sobre o adoecimento moral de um país em analogia funcionalista ao corpo humano, tendo a literatura de Murilo Rubião (1916-1991) como argamassa. O escritor, imortalizado nas Letras da língua portuguesa com “O Pirotécnico Zacarias”, de 1974, foi a base para este thriller psicológico intimista, com ecos de “O Inquilino” (1974), assinado por Helvécio Ratton. Aos 71 anos, esse cineasta costuma ser historicamente associado à representação da infância e da adolescência, por mérito do olhar: “A Dança dos Bonecos”, lançado por ele em 1986, talvez seja a mais lúdica encarnação do universo infantil da sua pátria. E, nesse terreno das crianças, ele ainda executou “Menino Maluquinho: O Filme” (1995), “Pequenas Histórias” (2007) e “O Segredo dos Diamantes” (2014). Mas Ratton também aportou a sua inquietação em temas adultos como a ditadura (em “Batismo de Sangue”) e a exclusão social (“Uma Onda No Ar”). Agora, ele aborda um universo que a crítica cinematográfica vem chamando de “extra-ordinário”. Esse é o termo que começa a se difundir hoje na indústria das imagens em movimento para traduzir narrativas em que a Natureza reage aos desacertos do ser humano pelas vias do mistério. É esse o caso que se passa com Manfredo, o protagonista da história narrada por Ratton, apoiado num roteiro de L. G. Bayão, hoje um dos mais disputados argumentistas das Américas.

Vivido por Eduardo Moreira, do Grupo Galpão (prestigiada trupe teatral mineira), Manfredo é um homem de números, elementos que, como Machado de Assis definia, não comportam metáforas. Abraçado à exatidão da aritmética e da inspeção de seguros, ele vê a sua paz ser devassada por uma crescente depressão. Eis que decide procurar um psicanalista e psiquiatra, o Dr. Pink, uma exótica personagem que o ator Renato Parara compõe com ares de cientista louco, típico dos vilões eternizados pelo ator Vincent Price. Após uma primeira consulta, Pink torna Manfredo um refém da sua vontade, obrigando-o a engatar um trabalho de análise, o que gera um clima de paranóia sufocante. Essa sensação paranóica acentua-se quando feridas começam a brotar do corpo de Manfredo, vertendo um líquido escuro, de odor fétido. É um signo das mazelas do Brasil, sobre as quais Ratton fala ao C7nema na entrevista a seguir.
De que maneira o seu histórico de narrativas pautadas pelo Real se adapta ao fantástico… ou melhor… ao que é extra-ordinário em ‘O Lodo’? Qual é a dimensão de realismo que você busca ali, ao resvalar no fabular?
O fantástico não é algo novo no meu cinema. Na minha primeira longa, “A Dança dos Bonecos”, há muita magia e encantamento, com personagens mitológicos como a Iara e outros seres fantásticos. E, no centro da narrativa, estão três bonecos encantados que se mexem sozinhos, sem que ninguém se espante muito com isso. Em outro filme, “Pequenas Histórias”, volto a usar elementos do fantástico, como uma procissão das almas e novamente a personagem da Iara. Sempre tive muita atração pelo fantástico. E a oportunidade de trabalhar nessa dimensão se deu, num primeiro momento, nos meus filmes para o público infanto-juvenil. “O Lodo” foi a minha porta de entrada no fantástico com outra chave, agora para o público adulto e numa atmosfera mais sombria. Em comum com os meus filmes infanto-juvenis, em “O Lodo”, o absurdo surge com naturalidade na narrativa e isso foi o que mais me atraiu quando li o conto. O fantástico de Murilo Rubião, de quem adaptei “O Lodo”, tem mais a ver com Kafka do que com Gabriel García Márquez.
Como foi a construção da luz, da cor e mesmo do chiaroscuro na fotografia do Lauro Escorel, um dos ases da imagem no Brasil?
Em conjunto com o Lauro, o realizador de arte Adrian Cooper e eu definimos que a paleta do filme teria poucas cores, seria mais próxima do preto e branco. É uma paleta coerente com a vida fosca e sem graça de Manfredo, o protagonista. E o Lauro traçou um arco dramático com a luz que acompanha toda a narrativa. A luz se torna mais sombria e escura à medida em que Manfredo mergulha no inferno em que sua vida se transforma. Penso que foi uma opção acertada, que incorporou a luz de forma orgânica à dramaturgia do filme e deu uma densidade ainda maior à história, fazendo o espectador penetrar, sem se dar conta, no próprio inconsciente de Manfredo.
De que maneira as doenças morais do nosso país engrossam o caldo espesso que escorre de Manfredo? O quanto desse lodaçal afoga o Belo Horizonte de hoje?
Acho que o lodo de Manfredo tem muito a ver com o lodo que escorre hoje por todos os lados do Brasil. Lodo que purga do abuso sexual, da violência contra as mulheres, do dinheiro nas nádegas, da crueldade em relação à pandemia, da destruição do meio ambiente, do mar de lama em Minas Gerais… Todo esse lodo que estamos absorvendo hoje, em doses cavalares, é o mesmo que escorre em Belo Horizonte e se acumula dentro de nós. Ele se soma ao lodo pessoal que cada um carrega dentro de si. E por algum lugar esse lodo acaba saindo um dia, como no caso de Manfredo.
Como você avalia a atual situação do cinema das Gerais e o quanto evolui a tradição a que você se filia, ali, no correr da filmografia do estado?
Minas vive um ótimo momento no cinema e acho que isso tem a ver com a diversidade da produção atual, com os diferentes olhares que novos cineastas trouxeram. Estão surgindo filmes muito interessantes, que se alimentam de outras fontes e vertentes, diferentes da minha, com mais liberdade na maneira de filmar e narrar. Essa renovação da linguagem cinematográfica acaba por contagiar todas as correntes e provoca nos cineastas daqui o desejo de fazer algo novo, diferente, de não ficar preso a nenhuma cartilha. Creio que esses novos ares estão fazendo bem ao cinema feito em Minas, pois são um sopro de renovação e ousadia. Há também novos filmes de animação sendo produzidos, com ótimas propostas, sendo muito bem realizados. Mas todo esse potencial do cinema de Minas corre o risco de se perder nessa guerra ideológica do governo contra o audiovisual.
Você é um estandarte do lirismo no cinema infantojuvenil do Brasil. Em que estado esse setor da produção nacional se encontra? Que novos filmes para crianças você tem pela frente?
Tenho visto poucos filmes brasileiros para o público infantojuvenil. A produção é sempre pequena, porque há muitas dificuldades para colocá-los no mercado. O último que vi foi “Laços”, que achei muito bem realizado. É uma adaptação feliz dos quadrinhos [banda desenhada] do Mauricio de Souza. Recentemente, fui convidado para dirigir uma nova série de “O Sítio do Picapau Amarelo”, de Monteiro Lobato. Este é um livro que marcou muito minha infância e a minha imaginação, mas carrega traços de racismo e preconceitos, muitos, que teriam de ser revistos. Tenho sentimentos ambíguos em relação ao projeto. O próximo filme que tenho em mente tem como protagonista uma criança, mas não é um filme para crianças. “Só Não Posso Dizer o Nome”: este é o título, baseado em uma novela gráfica chilena criada por uma jovem que foi abusada pelo padrasto dos 8 aos 12 anos. A menina processou-o na Justiça e depois contou tudo numa história em quadrinhos. Compramos os direitos de adaptação e estamos avançando aos poucos o projeto, que tem a parceria da Globo Filmes. Mas na situação que estamos vivendo hoje no Brasil, com a paralisação da Ancine, estamos todos muito inseguros sobre o que nos espera nos próximos anos.
Num balanço da sua obra, de 1979 para cá, que Brasil ou que Brasis você acredita ter mapeado?
Acho que fui dos porões da loucura de “Em Nome da Razão” – a primeira vez que uma câmara de cinema entrou em um hospício brasileiro – aos porões da tortura da ditadura militar – nunca vistos antes como em “Batismo de Sangue”. Tratei do racismo e exclusão com que negros e pobres são tratados aqui no filme “Uma Onda no Ar”. Em “O Mineiro e o Queijo”, mostrei a violência do estado brasileiro ao proibir a circulação, com base em falsas razões sanitárias, de um produto artesanal feito há mais de trezentos anos, e que identifica um povo e um lugar. Os meus filmes infantojuvenis estão repletos de elementos do imaginário brasileiro e também de tesouros escondidos da nossa História. Filmei em pequenos lugares esquecidos no tempo, entre as montanhas, e mostrei a infância que antes brincava nas ruas de nossas cidades. Meus filmes atravessam muitos e diferentes Brasis.

