“Samp” leva irreverência e liberdade à Giornate degli Autori de Veneza

(Fotos: Divulgação)

Cúmplices na arte de subverter convenções narrativas desde o fim da década 1980, Flavia Mastrella e Antonio Rezza tomaram a Giornate degli Autori do 77º Festival de Veneza de assalto com uma experiência narrativa que brinca com a ideia do crime para celebrar a liberdade criativa: “Samp“.

O novo filme da dupla de “Milano, Via Padova” (2016) explora a geografia italiana em busca de reações dos habitantes locais a um personagem exótico, vivido pelo próprio Rezza. A sua trama acompanha as exóticas aventuras de um matador chamado Samp, que é chamado por um poderoso mafioso para exterminar pessoas comuns. O seu objetivo é a supressão da tradição e dos sentimentos humanos. Numa viagem pelo interior de uma Itália aferrada a antigos valores morais, ele cruza-se com figuras poéticas, apaixonando-se por várias mulheres em busca de sensações de empatia que parece ter perdido. Na entrevista a seguir, Flavia e Rezza falam ao C7nema do que buscaram na sua expedição aos limites da estranheza.

Qual é a ideia ou ideal de liberdade que guia “Samp”?

Flavia:
 Havia uma ideia de liberdade criativa e a história cresceu no tempo. O filme fala do momento atual por meio da justaposição de vários tipos de presente. A câmara vibra e respira como se fosse um animal assustado enfrentando a realidade.

Rezza: A personagem Samp é chata e obtusa. Ele não reconhece a liberdade. Ele não pode prever porque mata. A morte é mais rápida do que a sua capacidade de especular.

De que forma foram as performances eram recebidas pelas pessoas com as quais vocês cruzavam?

Flavia: Durante as filmagens, nós partíamos em direção ao desconhecido. De acordo com o humor do momento, escolhíamos a área que queríamos explorar. Nós chegávamos à aldeia escolhida e assim que saíamos do carro, diferentes moradores se aproximavam de nós. Então, de acordo com nossa preferência, nós escolhíamos uma pessoa ou mais. Nós pedíamos que encenassem sua própria morte para nós. Eles “atuavam” de acordo com o seu próprio arcabouço cultural pessoal. Eles imitavam pessoas moribundas que tinham visto nos filmes ou em videojogos.

Rezza: Os moradores de Apúlia ficaram maravilhados com a forma como nos movíamos e estavam dispostos a ser assassinados com uma facilidade surpreendente. Vimos pessoas que estavam a fazer as compras a atirarem-se para o chão para simularem a sua morte. Eles são ótimos para “morrer” cinematograficamente em Apúlia.

Que procedimentos do cinema documental e ficção foram misturados nas filmagem de “Samp”?

Flavia: Entre 1999 e 2000, criamos um formato de televisão chamado “Troppolitani“, ou seja, “entrevistas de corpo livre“, algo que foi transmitido na RAI 3. Nessas entrevistas, comoventes, documentamos a inadequação e a inocência dos romanos contemporâneos, espremidos em autocarros urbanos, embaraçados pela burocracia, mas sempre abertos ao humor, à imaginação. Para “Samp”, filmamos parcialmente em conexão com esse método e, em parte, derrubamos as regras que construímos em “Escoriandli”, um filme de 35mm filmado em 1996.

Rezza: Saímos de casa já vestidos como as personagens. Saíamos do carro assim que a paisagem nos impressionava e começávamos a filmar, como se fosse uma espécie de assalto à mão armada.

Que filmes guiaram vocês na concepção do guião?

Flávia: Não há filmes específicos que nos inspirem. Tenho sempre em mente as obras de Federico Fellini, Werner Herzog, Tarkovski, Franco Maresco.

Rezza: Quando filmamos, obtemos inspiração de nós mesmos e nos perdemos no cansaço físico que os sets infligem a qualquer autor. Gostamos de nos cansar para perseguir a ideia.

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