Existe em Denis Podalydès e na sua construção fílmica uma figura persistente na cultura francesa: a melancolia do homme désabusé — o homem desiludido, desencantado — que, de Flaubert a Truffaut, passando por Tati e chegando a Emmanuel Mouret, percorre as nuances da desilusão — ora ideológica, ora amorosa, ora existencial, ora todas elas.
Em Le Répondeur, exibido na Festa do Cinema Francês, o ator encarna novamente essa figura nos seus vários desdobramentos: um escritor de sucesso cansado de gastar mais tempo em chamadas e mensagens intermináveis — com agentes, tradutores, editores, familiares e pequenas paixões — e que, por isso mesmo, tem cada vez menos tempo para fazer o que realmente deseja: escrever.
O que, nas mãos de outro realizador, poderia transformar-se numa comédia de excessos burlescos — na linha de tantos clichés que atores como Christian Clavier ou Didier Bourdon converteram em paródias ligeiras sobre alienação burguesa — ganha aqui contornos mais melancólicos e existenciais. Em Le Répondeur, uma adaptação do romance homónimo de Luc Blanvillain, a viragem dá-se quando a personagem de Podalydès, Pierre, contrata um especialista em imitações, Baptiste, para o substituir no atendimento de chamadas e mensagens, fazendo-se passar por ele.
Cabe a Salif Cissé (À l’abordage) encarnar essa figura que, da imitação, passa à interiorização — num exercício quase de method acting, como se estivéssemos num jogo teatral dentro do filme — conseguido. Numa comédia espampanante, tudo ficaria pelo jogo caricatural de dois mundos opostos — o escritor branco, já na casa dos 60, e o trintão negro que trabalha num call center, mas mantém ambições artísticas —, mas o argumento e a realização de Tristan Séguéla, somados à presença de Podalydès, que carrega consigo o peso da sua filmografia, conduzem o filme noutra direção.
O resultado é um objeto de doppelgängers existenciais que parte da voz para questionar a própria identidade: o que somos quando alguém nos representa melhor do que nós próprios? O que somos quando outro resolve melhor as situações em que tantas vezes tropeçamos? Baptiste não se limita a imitar a voz de Pierre — entra no centro do seu être, intromete-se na sua vida e círculo de amizades, chegando, aos poucos, a transformar-se numa espécie de guia da própria filha do escritor, como se ocupasse o espaço emocional que o pai deixara momentaneamente vazio.
A essa melancolia e desilusão de Podalydès, Cissé responde com uma energia sempre controlada, vinda do seu próprio interior e da sua experiência de vida, que se funde progressivamente com a do escritor.
Esteticamente, o filme segue a mesma toada: uma mise-en-scène de controlo milimétrico que se move entre o espaço saturado do quotidiano burguês — o escritório, o apartamento, o estúdio de arte, o café e o telemóvel que vibra incessantemente — e a forma que a voz adquire como identidade. O jogo sonoro é, por isso, essencial, enquanto a câmara de Séguéla raramente é intrusiva, mantendo-se à distância, como se recusasse o dramatismo ou a exploração paródica das situações. Essa contenção visual só é abalada pelo uso da cor, em que os tons neutros, a luz difusa e os interiores elegantes, mas frios, de um universo domesticado, ganham nova vida no calor das cenas em que Baptiste (Salif Cissé) assume o lugar do outro.
Jogando com espelhos e inversões — onde o imitador passa a existir verdadeiramente quando o escritor se apaga da imagem —, a mise-en-scène aprofunda as camadas que a narrativa propõe ao espectador. E, nisso, a dupla de atores confere ao filme uma elegância introspectiva e uma lucidez atravessada por um humor subtil.



















