Se nos anos 1970 e 1980, quando foram lançados, filmes como A Boy and His Dog (1975), Mad Max (saga, 1979–2015) e Escape from New York (1981) eram facilmente classificados como distópicos e pós-apocalípticos, nos dias políticos imbecis em que vivemos – com a testosterona verborreica em alta e o cérebro em baixa – poderíamos antes vê-los como alegorias à realidade. Talvez pensando nisso (ou talvez não), mas inspirando-se na fórmula do domínio patriarcal pela força bruta e pelo armamento, a grega Evi Kalogiropoulou recria a sua cidade natal, Eleusina, como uma cidade-estado industrial decadente, dominada pelo poder violento de homens que ditam as leis, convocando ainda a mitologia local para transformar o feminino em oferenda.

A ditar as regras desta história visualmente estilizada – com recurso a cores flamejantes e saturadas, que contrastam com o cinzento da degradação industrial, numa viagem entre o exploitation e o neo-western – surge uma mulher que ousa violar o espaço do patriarcado, vingando-se pelo caminho, tal qual a lenda de Medusa que a inspira e remete ao título.

Revisitando os géneros de ação e vingança, Kalogiropoulou constrói, com poucos recursos de produção mas com alguma criatividade e estilo, um microcosmo de dominação tirânica onde subverte estereótipos e explora a força feminina face à opressão machista. Essa lógica materializa-se logo nos primeiros instantes, quando Eleni (Aurora Marion), uma jovem de longos cabelos, chega como troféu num riacho e é entregue a Nikos (Christos Loulis) e aos seus homens, responsáveis pela refinaria de uma cidade onde o petróleo é moeda. Troca feita: uma rapariga por um bidão de gasolina.

Nikos tem uma doença terminal e começa a preparar a sucessão. Aos homens hipermasculinizados, que lutam e treinam intensamente todos os dias, Nikos inclui a sua protegida, Maria (Melissanthi Mahut), que apesar do bullying tóxico começa a desenvolver desejo carnal por Eleni, mulher que fascina todos com os seus espetáculos. Pouco a pouco, Eleni vai lidando e corroendo a corja de homens que a rodeia. A revolta, rija e estilizada, é inicialmente silenciosa, mas sempre violenta.

Ao realismo cru dos contextos industriais, sociais e políticos da Grécia contemporânea, Kalogiropoulou adiciona elementos míticos e visuais de forte carga simbólica, tratando os corpos como narrativa da experiência feminina e transformando desejo, fúria e resistência em força estética e política. Sexo, violência e morte caminham juntos num filme que estreou mundialmente na Semana Internacional da Crítica em Veneza. Não deslumbra, mas anuncia um futuro promissor para uma cineasta que, entre influências de Robert Rodriguez, George Miller e, sobretudo, Doris Wishman, entrega um espetáculo singular, bem enraizado no seu país e na sua mitologia.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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