Já com várias curtas-metragens lançadas, onde se destaca “Nha Mila” de 2020, a cineasta portuguesa de origem cabo verdiana Denise Fernandes apresentou no Festival de Locarno a sua primeira incursão nas longas-metragens, voltando a tocar em temas como a identidade e migrações, recorrendo muitas vezes a simples gestos e olhares que valem mais que muitas palavras, numa história, mais uma vez, centrada em gerações diferentes de mulheres.
“Hanami”, com uma inesperada conexão entre Cabo Verde e o Japão, onde até não falta a presença de um tal de Mizoguchi, num misto de intuição e método, acompanha de perto, bem perto, o crescimento de Nana, uma menina, da barriga da mãe à adolescência, na Ilha do Fogo, local de onde muitos partem, como aconteceu com a sua mãe.
De uma beleza visual fulminante e assaz vezes poética, “Hanami” mantém longínqua a imagem cartão postal exótico, muito com a ajuda da diretora de fotografia Alana Mejía González (que trabalhou na maravilhosa “Criatura” de Elena Martín). Começando com uma abordagem narrativa próxima do realismo mágico, até que numa “segunda parte” se entregar ao naturalismo, Denise Fernandes revela tanta maturidade como ternura na abordagem às complexidades das suas personagens, sejam aqueles que decidem partir da ilha à procura de uma vida melhor, como muitos amigos e familiares de Nana fazem devido a diversos condicionantes geomorfológicos, geológicos, climáticos e económicos, seja aos que decidem ficar, como é o caso de Nana. E esta é também uma história de diferentes gerações de mulheres (avó, mãe e neta), num permanente jogo entre o tempo, espaço e formas de ver o mundo e lidar com as barreiras e emoções, reproduzindo múltiplos olhares sobre os dilemas que vão surgindo e cimentando a personalidade de Nana.
Dito isto, com “Hanami” Denise Fernandes não apenas confirmou o talento que já se sentia em “Nha Mila”, mas elevou a fasquia na capacidade de lidar e refletir com múltiplas questões intrincadas, deixando o epíteto de mera promessa. O triunfo em Locarno, como Realizadora Emergente, mostra isso mesmo: que é uma certeza no panorama do cinema nacional e um caso sério a seguir no futuro.




















