Esteve em destaque na Festa do Cinema Francês e vai brevemente chegar aos cinemas. Blanche Comme Neige (Branca como a Neve) é uma comédia erótica negra inspirada no conto dos irmãos Grimm da Branca de Neve.
Assinado por Anne Fontaine, conhecida por filmes provocantes como Coco Avant Chanel (2009), Agnus Dei – As Inocentes (2016) e Marvin (2017), o filme segue Claire (Lou de Laâge), uma bela jovem que desperta os ciúmes da sua madrasta, Maud (Isabelle Huppert). Maud decide livrar-se de Claire, a qual encontra abrigo num local onde tem permissão para libertar-se da sua educação rigorosa. Um, dois, três, logo sete homens cairão sob o seu feitiço, cada um pronto para ajudá-la. Para Claire, é o começo de uma emancipação, tanto carnal quanto sentimental. Mas Maud vai perceber que Claire ainda é uma ameaça.
De passagem por Portugal, a realizadora Anne Fontaine falou ao c7nema sobre este projeto, aquilo que a move em terrenos entre a comédia, suspense e erotismo, bem como os seus novos projetos: a adaptação do livro Police de Hugo Boris e um biopic em torno de Maurice Ravel.
Trabalha pela segunda vez com a Lou de Laâge, novamente com a Isabelle Huppert e pela terceira vez com o Pascal Bonitzer. Era uma grande família este filme?
A Lou de Laâge escolhi porque ela representa aquela mulher bela e pura, com bastante frescura para o grande ecrã. Já tinha trabalhado com ela em Agnus Dei – A Inocência. Já a Isabelle Huppert, quando pensamos nela para uma personagem perversa, complexa e com inúmeras dimensões – A Rainha, neste caso – ela é extraordinária. Já o Pascal Bonitzer, é a terceira vez que trabalhamos juntos, depois do Agnus Dei e o Gemma Bovary. São filmes muito diferentes e ele tem uma grande ironia para trabalhar em projetos em que os homens são um pouco depressivos, frágeis.
Era importante fazer um filme destes hoje em dia, em que se vivem tempos de um novo puritanismo?
Era importante contar a história erótica de uma mulher, com várias hipóteses amorosas em aberto, sem ser chamada de “puta”. E queria principalmente fazer uma personagem que se emancipava e que fazia isso sem estratégia, cálculo ou manipulação. Foi aí que tive a ideia de ela se envolver com 7 homens, inspirados nos 7 anões do conto original. Foi assim que fiz um casamento lúdico com ironia entre os dois conceitos. E foi bastante engraçado, nada naturalista e bem estilizado, como se fosse de outro mundo. Mas ao mesmo tempo falo da sexualidade no feminino, da liberdade, de não estar no mundo para se casar, ter filhos, etc.
Era importante nestes tempos que se fala tanto de “male gaze” um filmes destes com um olhar feminino?
O que era importante era contar a história de uma mulher, uma história feminista, sem o fazer de forma didática. E é um filme que ama também os homens, que não tem qualquer punição para eles, muito longe do moralismo, mas também do conformismo.
E também escolheu para o elenco mais um ator com quem já trabalhou o Vincent Macaigne?
Sim, como um violoncelista cujo erotismo advém do violoncelo. Gosto muito do Macaigne porque ele é engraçado. É um ator diferente, poético e agora tornou-se um habitué nos filmes franceses. No início ele tinha aquele ar desleixado, cabelo despenteado. Damos-lhe um pouco de glamour, não foi fácil (risos). Ele também surgiu no Agnes Dei, como judeu, e gostei muito da sua fragilidade. É um homem que transmite um sentido trágico, uma solidão…
Ama a ambiguidade das suas personagens? Até a própria Maude (Huppert) não é apenas uma vilã, mas igualmente uma vítima…
Essa é a condição humana, não unidimensional. Ela é uma vítima, alguém que não consegue amar. É doloroso. E claro, há o seu lado Hitchcockiano, repleto de códigos do seu cinema, mas simultaneamente existe uma verdade da condição humana na personagem: a de não poder ter o amor na sua vida, de não poder regressar à juventude. E a Isabelle Huppert é extraordinária a transmitir isso. Ela é uma espécie de “monstro” com bastante humanidade.
Presentemente está a trabalhar em Police, uma adaptação da obra literária de 2016 assinada por Hugo Boris. Pode falar um pouco sobre o filme?
Podemos falar só um pouco dele. É a história de três polícias que num período de 24 horas que têm de escoltar um homem que vai ser deportado (…) É um filme Bergmaniano junto da polícia. (…) É um filme político mas acima de tudo metafísico, pois aborda o desafiar e desobedecer [a ordens] (…)
E como está o seu projeto em torno de Maurice Ravel, chamado Bolero?
Precisa de financiamento, mas começamos a trabalhar nele e tenho o guião. Vai acompanhar de perto duas facetas da sua vida: a conhecida – do homem extraordinário do mundo da música – mas também o seu menos conhecido, como o seu lado de “príncipe” da época, uma espécie de Michael Jackson desses tempos.

