Reduto de pintores, escultores e videoartistas que desafiam as convenções morais da indústria cultural das Américas, o Museu do Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) serve de lar para alguns dos maiores tesouros da produção audiovisual do século XX na sua Cinemateca, que já formou gerações de espectadores, de professores e de artesões autorais da imagem.
Repleta de eventos dedicados ao melhor de Bollywood, ao legado de Bertolt Brecht nas telas e em fóruns sobre a representação do feminino, a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) celebrará os seus 65 anos na semana que vem, numa série de atividades online. Com a Covid-19, o espaço vai ter que operar, ainda que momentaneamente, na internet, sem abrir mão da sua vocação de formar público. Sob a curadoria do crítico Ricardo Cota, o espaço sopra as velas do seu 65º aniversário na próxima terça-feira, com um par de mostras na web.
No dia 7 de julho de 1955 foi celebrada a sua fundação. Consta do seu património a maior referência brasileira em preservação de filmes: o pesquisador Hernani Hefner, que já salvou muitas películas condenadas ao desaparicimento. No próximo dia 10, começam as comemorações, com transmissões gratuitas em www.vimeo.com/mamrio, incluindo a projeção do .doc “Tudo por amor ao cinema”, de Aurélio Michiles. O filme fala sobre um dos pilares da própria Cinemateca: o curador Cosme Alves Neto (1937-1996).
Serão realizados lá uma série de exibições especiais dedicadas à memória. A primeira é a Mostra Petrobras de Filmes para Crianças que vai apresentar um conjunto de 26 produções brasileiras voltadas para a primeira infância, selecionadas com a colaboração do Dia Internacional da Animação e do CINEAD da Faculdade de Educação da UFRJ.
A segunda vai mobilizar os ecrãs do MAM no dia 17, com “Humberto Mauro”, de André di Mauro. O documentário sobre o pioneiro da brasilidade no cinema nacional representou o país em Veneza, em 2018. Em quatro programas, serão exibidos três longas e cinco curtas-metragens. No cardápio está “Até onde pode chegar um filme de família”, no qual Rodolfo Junqueira Fonseca parte do filme brasileiro mais antigo preservado, o já citado “Reminiscências”, para falar da história da sua família e do pioneiro do cinema Aristides Junqueira.
Por último, entra na web um programa concebido pela Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) que reúne cinco obras conservadas por diferentes instituições de memória que simbolizam um pouco do trabalho desenvolvido por elas e sublinham a importância de uma ação coletiva na proteção e valorização do património audiovisual. Nesta sessão serão apresentados “Gafieira”, de Gerson Tavares; “Creche-Lar”, de Maria Luiza Aboim; “Carnaval de Rua – Porto Alegre”, produzido pela Wilkens Filmes; “Pantera Negra”, de Jô Oliveira; e “Eclipse”, de Antônio Moreno.
Cota promete ainda a criação de um centro de documentação e mais uma leva de mostras organizadas pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Nos últimos dois anos, a Cinemateca contou diversas vezes com o engajamento dos integrantes da ACCRJ, que fizeram tributos a Ingmar Bergman, ao legado de representações LGBTQ na telas e ao ator Warren Beatty. Estão previstas mais conexões entre as duas instituições para os próximos anos, com homenagens já acertadas à diva Marilyn Monroe, ao ator Steven McQueen, ao diretor Wes Craven e ao mago da TV Rod Serling, criador de “Além da Imaginação”.
Na entrevista a seguir, Cota faz um balanço dos novos passos do MAM para o C7nema.
Quais são os planos para comemorar o aniversário da Cinemateca e o quanto a pandemia prejudicou a rotina local?
Ricardo Cota: A pandemia prejudicou uma rotina que já se afirmara na programação cultural do Rio. Tivemos, em 2020, a melhor abertura de temporada. Em menos de três meses, já havíamos comemorado os 20 anos do Festival do Rio, exibido uma mostra de filmes alemães e dinamarqueses contemporâneos, homenageado os 70 anos de Silvio Tendler e estávamos no meio de uma retrospectiva dedicada ao ator e cineasta Paul Newman. Mas, com a pandemia, fomos obrigados a reinventar todas as ações. Mesmo assim, faremos uma bela ação nos 65 anos. Iremos inaugurar uma programação online, com filmes voltados para a memória do cinema brasileiro, e realizaremos a Mostra Petrobras de Filmes Infantis, além do Festival Dobra, de filmes experimentais. Em breve, iremos inaugurar o centro de documentação José Carlos Avellar na Rua do Senado.
Como você avalia a atual crise da Cinemateca Brasileira, localizada em São Paulo?
O diretor e pensador do cinema Gustavo Dahl dizia que os filmes morrem sem gemer. Por isso a sociedade precisa gritar, e muito, para que a Cinemateca Brasileira não feche as suas portas e enterre um património inestimável da nossa história
O que esperar do centro de documentação que vocês estão criando?
O centro de documentação vai se chamar José Carlos Avellar, em homenagem a um dos maiores críticos do país, e será um espaço que irá proporcionar mais conforto aos pesquisadores. Ali, poderemos oferecer um espaço mais organizado e disciplinado para a concentração dos que desejam ampliar seu conhecimento sobre o cinema, sobretudo o brasileiro. A Sala Cosme Alves Netto, dentro do complexo do MAM, no entanto, continuará com sua função de promover sessões, estimular debates, organizar seminários e realizar workshops para profissionais de toda a linha de montagem do cinema e do audiovisual.
O quanto essa cultura de streaming, que se fortalece hoje, altera a cultura da cinefilia e altera a relevância da memória que um espaço como a Cinemateca do MAM representa?
A cultura de streaming muda muito a cultura da cinefilia. Até os anos 1980, quando surge o VHS e a primeira possibilidade de portabilidade de um filme para o espaço doméstico, o cinéfilo passou a ser um pouco curador de si mesmo. Ou seja, ele podia escolher os seus filmes na locadora [videoclube] e fazer a sua própria programação. De lá para cá, essa curadoria atomizada proliferou-se exponencialmente. Hoje, nem sair de casa o cinéfilo precisa mais. O que por um lado é bom, em termos de conforto e acessibilidade, por outro gera um consumo indisciplinado, sem formação prévia. Isso era impensável em termos de cinefilia, há 30 anos. Por isso, instituições como a Cinemateca do MAM hoje são tão importantes, porque, nelas, o espectador tem a oportunidade de usufruir de curadorias especializadas, voltadas para a formação de público e a memória do cinema.

