Eryk Rocha entre miragens de sol e intervalos documentais

(Fotos: Divulgação)


Vencedor da Palma de Ouro do cinema documental em Cannes, o L’Oeil d’Or, conquistado em 2016 com “Cinema Novo“, Eryk Rocha vai promover uma cartografia de si mesmo, nas suas sinapses com a não ficção, numa conversa de duas horas e meia de sobriedade, saudade, sonho e sucessos, no seminário online Na Real_Virtual, nesta sexta-feira, às 19h (no Brasil, 22h em Portugal). A mediação é feita por um dos decanos da crítica brasileira, Carlos Alberto Mattos, em parceria na curadoria com um dos mais prolíficos documentaristas hoje na atividade, Bebeto Abrantes. A conversa decorre neste URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.

Filho do cineasta Glauber Rocha (1939-1981), Eryk construiu para si um legado próprio, consagrado desde o início dos anos 2004 quando concorreu à Palma de curtas da Croisette com “Quimera“, feito em parceria com o artista plástico Tunga (1952-2016). Antes, já despontara aos olhos da crítica com “Rocha Que Voa” (2002), inventário do exílio do seu pai em Cuba, nos anos 1970, que brilhou em Locarno e em Roterdão.

Destacou-se pela seara documental ainda com “Intervalo Clandestino” (2005); “Pachamama” (2008), longa-metragem a ancorar o debate desta sexta-feira 13 no simpósio de Mattos e Abrantes; “Jards“, pelo qual recebeu o troféu Redentor de melhor direção no Festival do Rio em 2012; e “Campo de Jogo” (2014). Nas imediações das narrativas ficcionais, Eryk brilhou com “Transeunte“, de 2010, e com “Breve Miragem de Sol”, que arrancou aplausos calorosos no BFI London Film Festival no ano passado e integra, hoje, o streaming da Globoplay.

Eryk Rocha, tem a inovação cinematográfica na veia“, elogia Bebeto Abrantes, um dos curadores do Na Real_Virtual. “Desde a sua primeira longa-metragem, ‘Rocha Que Voa‘, o tratamento que ele dispensa às imagens e ao som dos seus filmes, tem um quê de barroco muito pessoal, próprio e intransferível. Fusões, imagens em fuga, uma edição de som com muitas e simultâneas camadas, um verdadeiro vozerio“.

Existe uma conexão única de Eryk com as narrativas do cinema hispano-americano e essa é uma das veias que Carlos Alberto Mattos destaca na obra do realizador, que este ano esteve na Berlinale como produtor de “Luz nos Trópicos” – cuja produção-executiva é assinada por Vitor Grazie -, pilotado pela sua mãe, a realizadora e artista plástica Paula Gaitán. “O que nos fez trazer Eryk ao NA REAL_VIRTUAL foi, sobretudo, sua identificação, desde o berço, com a latinidade“, diz Mattos. “Poucos realizadores brasileiros têm circulado com tal desenvoltura pela paisagem latino-americana e refletido sobre a realidade do continente nos seus filmes“.

Na entrevista a seguir, Eryk compartilha suas inquietações com o C7nema, às vésperas das eleições municipais no seu Rio de Janeiro.

Qual é a dimensão poética que um documentário pode alcançar nas suas lutas políticas neste Brasil de hoje e qual seria o espaço que o formato alcançou publicamente como espetáculo e como lugar de reflexão? 


A dimensão poética está entrelaçada com a dimensão política. A estética é uma política. O Brasil de Bolsonaro tem uma estética que é um projeto político ao qual me oponho radicalmente. Num país dilacerado e em convulsão social como o nosso, e num mundo onde a publicidade e as linguagens hegemónicas cada vez mais padronizam e orientam um certo tipo de comunicação e imaginário, sinto-me mais livre para buscar outros caminhos, e creio que o documentário (por sua leveza estrutural e de orçamento) irá testemunhar esse Brasil complexo em chamas do século XXI, que agora está começando para valer. Num país como o nosso, onde estamos a perder tanta coisa e tudo está desmoronando nas nossas cabeças, já nos resta pouco a perder, precisamos nos relançar com coragem no coração do nosso tempo e reativar o risco, repensar o espaço social e como o cinema pode estar inserido aí. 

O seu cinema documental tem, desde “Rocha Que Voa” (2002), uma inquietação na forma, uma inquietude plástica. De que maneira essa articulação formal, da tessitura da imagem, é operada na sua relação com a montagem e com a fotografia? 

O meu trabalho no cinema é muito artesanal e eu me envolvo organicamente em todas as etapas do processo de realização. Sempre me fascinou a relação corpórea e inventiva com a câmara, com a montagem e o som. A partir daí surge minha vontade de dirigir filmes. Do mesmo modo, as escolhas de produção determinam o que se revela na tela. É dessa confluência de forças expressivas que emerge a gramática do cinema. Novamente retornamos a primeira questão sobre estética e política. O desejo só se realiza em uma forma. 

Quais são as suas percepções políticas do Rio de Janeiro neste período de eleições e de que maneira o cinema carioca tem resistido às crises atuais da cidade?  

O Rio de janeiro é uma cidade com muitas potências, nas periferias, nas favelas… tem muitos coletivos e pessoas fazendo um trabalho muito inventivo e aguerrido tanto no audiovisual como em outras áreas. Por outro lado, a cidade vive sob os signos da brutalidade da desigualdade histórica e da violência em vários níveis. O assassinato do Cadu Barcellos, cineasta muito talentoso da comunidade da Maré, é mais uma prova da nossa tragédia. Isso é responsabilidade do poder público e de uma elite ignorante que nunca pensou no seu povo. De 2003 a 2010, fui um dos curadores, junto com Paula Gaitán e Juan Posada, de um evento chamado “Cinema Que Pensa“. Fizemos esse evento anualmente em alguns lugares do Brasil e América Latina. Hoje me parece que este mesmo evento só faria sentido se fosse realizado nas periferias de uma cidade como Rio de Janeiro, de onde emergem os pensamentos que mais me interessam em termos de linguagem expressiva. Quando falamos em “cinema carioca”, ou em “cidade”, é preciso visualizar o que estamos dizendo e ampliar a geopolítica da cidade, e de que modo este espaço está sendo representado. Embora não seja um cineasta periférico, toda a minha obra é perpassada por esse espaço, seja dentro dos filmes ou no circuito de exibição e debate. E entendo que é preciso aprofundar essas relações. Por isso, aproveito para deixar aqui essa reflexão de realizar um “Cinema Que Pensa” junto com os coletivos como Subúrbio em Transe, Mate com Angu, Cinema de Guerrilha da Baixada, PontoCine e tantos outros.  

Quais são seus próximos projetos, documentais e ficcionais, e o que temos de série para vir por aí?

Atualmente, estou finalizando um novo filme chamado “EDNA“. Ao mesmo tempo estamos preparando “A Queda do Céu“, em codireção com a Gabriela Carneiro da Cunha. Esse filme é inspirado no livro do xamã Davi Kopenawa Yanomami e do antropólogo Bruce Albert. É um dos livros mais potentes já escritos e recomendo fortemente a sua leitura. Esses dois projetos são fascinantes e desafiadores e apontam um deslocamento de um cinema de rua para um cinema da mata.

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