Já com duas décadas de carreira, Ann Sirot e Raphaël Balboni têm construído uma identidade autoral onde o humor atravessa sempre a ternura e o absurdo em temáticas complexas e de forte carga emocional. A dupla belga começou a trabalhar em conjunto em curtas como Dernière Partie (2007), Fable Domestique (2010), Lucha Libre (2014) e Avec Thelma (2017), mostrando o seu foco nas relações humanas e familiares.

A estreia nas longas-metragens aconteceu com Une Vie Démente (2020), um filme particularmente feliz no modo como olha para o amor e para a doença, lançando um olhar terno para os sacrifícios impostos pela vida e como aceitá-los. Seguiu-se Le Syndrome des Amours Passées (2023), estreado em Cannes, um objeto de maior comicidade e piscar de olho ao absurdo, centrando a ação novamente num casal – que sofre de infertilidade, não por uma questão biológica, mas antes através de um dispositivo narrativo deliberadamente bizarro e que se materializa no insólito “Síndrome das Relações Passadas”, que exigia que ambos os membros do casal reencontrassem os antigos amantes e voltarem a ter relações sexuais com eles. 

Un détour par Diane, um novo capítulo de uma filmografia que continua a procurar formas pouco convencionais de falar sobre os afetos, prossegue a sua visitação por territórios da estranheza e de ruptura.

No filme, Ann e Raphaël põe os olhos em Diane (Ninon Borsei, numa forte atuação), uma jovem que deseja os homens tanto quanto os despreza e cuja relação com o sexo masculino ganha uma nova dimensão quando descobre que a mãe (Sandrine Blancke) foi vítima de uma violação aos 19 anos. Mesmo sabendo que o agressor já morreu, num insólito episódio meteorológico ocorrido numa pequena cidade, Diane está determinada em vingar a mãe e a confrontar o passado, mesmo que isso a coloque em rota de colisão com a progenitora. É que, ao contrário da filha, esta prefere deixar o trauma para trás e recuperar a vida que sente ter-lhe sido roubada, inscrevendo-se novamente na faculdade que abandonou após o tal evento traumático e reatando relações com amigas de outros tempos. Curiosamente, é nas contradições da própria Diane que o filme ganha mais vigor, pois convencida de que está a fazer justiça pela mãe, acaba por lhe impor a sua própria forma de lidar com um trauma que não viveu, transformando paradoxalmente um gesto de emancipação numa tentativa de controlar a história de outra mulher. 

É depois de vandalizar o túmulo do violador que Diane cruza o caminho de um ciclista (Lucas Meister), com quem inicia uma relação inevitavelmente atravessada por esse episódio do passado e pela sua própria dificuldade em fazer as pazes com o presente. 

Prolongando estilisticamente a gramática muito particular que Ann Sirot e Raphaël Balboni vêm a construir desde os primeiros filmes, onde se destacam a montagem fragmentada, onde predominam os cortes bruscos e os jump cuts, além dos diálogos de aparência espontânea, os cenários e figurinos com uma dimensão alegórica e os momentos coreografados que servem de ruptura deliberada com o naturalismo, a dupla invoca aqui os códigos do western para depois os estilhaçar através de contrastes que procuram escapar a qualquer ideia de binaridade. Por isso mesmo, Diane surge como uma espécie de cowgirl contemporânea na sua busca por duelos e vingança, na tradição do rape and revenge movies, de chapéu e botas de cowboy, conduzindo uma pick-up pela paisagem em busca de “justiça”. É essa sua forma de ser e estar que leva o ciclista, na primeira interação com ela, a usar o termo de “surpresa charmosa”, uma frase entendida como misógina por parte de Diane, que tem com ele uma primeira interação agressiva.

A verdade é que, tal como acontece com outras personagens da dupla, as figuras que surgem em cena existem muito mais numa escala de cinzentos — aqui, ironicamente, bastante coloridos — do que dentro das categorias rígidas de um universo a preto e branco. É precisamente dessa estranheza, construída à margem dos códigos habituais da binaridade de género, que o filme retira grande parte do seu humor e da sua singularidade, seja nos confrontos, seja na demonstração de afeto, desejo e carnalidade, onde, por exemplo, todas as cenas de sexo são afastados de lógicas convencionais de dominação ou submissão entre as partes envolvidas. 

Por isso mesmo, o filme aproxima-se mais do que os cineastas conseguiram em Une Vie Démente do que de Le Syndrome des Amours Passées, sobretudo pelo olhar doce que floresce no seu último terço, quando a ideia de vingança se afasta progressivamente da violência e o filme encontra na possibilidade de transformar uma herança nascida do mal em ternura, afeto e beleza a sua mais inesperada forma de reparação. E, ao conseguirem isso, Sirot e Balboni reencontram parte da sensibilidade que tornou Une Vie Démente tão especial, ainda que sem alcançarem plenamente a mesma força emocional e conexão do espectador com as suas personagens e dilemas.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
diane-in-the-loop-desmontar-a-vinganca-num-western-fora-da-normaO filme aproxima-se mais do que os cineastas conseguiram em Une Vie Démente do que de Le Syndrome des Amours Passées, sobretudo pelo olhar doce que floresce no seu último terço, quando a ideia de vingança se afasta progressivamente da violência e o filme encontra na possibilidade de transformar uma herança nascida do mal em ternura, afeto e beleza