Há algo de Sex, Lies, and Videotape (1989), a estreia fulgurante de Steven Soderbergh, a assombrar Possible Love, o novo trabalho do sul-coreano Lee Chang-dong. Não propriamente na trama, mas na maneira como o registo em vídeo se transforma num confessionário profano, capaz de sublimar o inaudito, o gemido, aquilo que o convívio social manda esconder. Soderbergh colocava uma câmara diante de mulheres para que o desejo encontrasse uma linguagem que a intimidade quotidiana lhes negava. Chang-dong inverte e expande essa equação: a câmara documental que deveria investigar o outro acaba por denunciar quem está atrás dela. Filmar passa a ser uma maneira de tocar, invadir, desejar, expor — e talvez mentir. Em ambos, o vídeo não documenta simplesmente uma verdade. Fabrica as condições para que uma verdade inconveniente possa aparecer.
Seria, aliás, no mínimo bizarro se Possible Love tivesse saído da 83.ª edição do Festival de Veneza de mãos vazias. Não saiu: recebeu o Leão de Prata — Grande Prémio do Júri e o Prémio FIPRESCI, consagração à altura de uma obra que pede para ser vista, revista e debatida. Ao longo de 164 minutos, Chang-dong regressa oito anos depois de Burning (2018) com um filme de combustão igualmente lenta, mas talvez ainda mais interessado nas zonas moralmente pantanosas que separam desejo, consciência de classe, culpa e representação. A Coreia do Sul escolheu-o ainda como seu representante na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional.
Mi-ok (Jeon Do-yeon) e Ho-seok (Sul Kyung-gu) formam um casal atravessado pela precariedade. Ele perdeu o emprego e foi brutalmente agredido pela polícia depois de uma greve. É essa experiência que desperta o interesse de Ye-ji (Cho Yeo-jeong), documentarista casada com Sang-woo (Zo In-sung), um empresário abastado. O encontro coloca frente a frente dois casais que ocupam extremos sociais e materiais, mas Chang-dong logo desmonta qualquer expectativa de uma geometria moral confortável. Não existem pobres automaticamente virtuosos nem ricos programados para a perversidade. Existem quatro pessoas que olham umas para as outras, medem-se, desejam-se, ressentem-se e, sobretudo, interpretam papéis. A própria premissa oficial resume essa colisão como o cruzamento entre dois casais de vidas opostas, provocado pela realização de um documentário e contaminado pelos seus desejos escondidos.
É aí que a sombra de Sex, Lies, and Videotape (1989) se torna mais estimulante. O documentário de Ye-ji deveria aproximá-la da realidade de Mi-ok e Ho-seok, mas a presença da câmara produz uma segunda realidade. Quem está a representar para quem? Existe genuinidade no interesse da realizadora? O seu afeto por Mi-ok é verdadeiro? Quando a chama de irmã, procura uma intimidade real ou uma intimidade funcional à obra que pretende realizar? Está interessada nos traumas produzidos por um Estado agressivo ou na possibilidade de converter esses traumas em capital artístico e moral?
Chang-dong não responde. Faz melhor: deixa essas perguntas contaminarem cada gesto posterior. Sang-woo, em determinado momento, observa que a mulher parece ter mergulhado numa espécie de method acting para conviver com pessoas tão diferentes do seu universo. A frase passa quase lateralmente, sem qualquer sublinhado dramático, mas abre uma fenda enorme. Se Ye-ji precisa de “interpretar” a proximidade para conseguir filmá-la, onde acaba a solidariedade e começa a performance de classe?
A mise-en-scène trabalha essas diferenças com uma precisão cruel. Quando Chang-dong abandona um grande plano para reunir as personagens num plano conjunto, o espaço entre os corpos torna-se informação. Uma roupa de marca, um olhar que dura um segundo a mais, uma frase aparentemente cordial ou um silêncio depois de uma pergunta banal vão corroendo a suposta harmonia. Kim Ji-yong fotografa esse desconforto sem transformar a desigualdade num diagrama sociológico: ela está nos tecidos, nas casas, nos corpos, nas maneiras distintas de ocupar um mesmo espaço.
Mas Possible Love também sabe que a diferença social pode produzir fascínio. O dinheiro, a precariedade, o poder, a vulnerabilidade e a possibilidade de atravessar por algumas horas a fronteira que separa uma vida da outra alimentam desejos que nenhuma personagem parece inteiramente preparada para admitir. O título começa então a revelar a sua ironia. Que amor é possível quando os corpos se encontram carregando consigo posições sociais tão diferentes? E quanto desse “amor possível” não passa pela fantasia de viver, ainda que provisoriamente, a vida do outro?
Essa arquitetura moral ajuda a compreender uma curiosidade na génese do projeto. Possible Love nasceu remotamente de uma iniciativa que pretendia transformar os dez episódios de Dekalog (1989), de Krzysztof Kieślowski, em longas-metragens. O projeto entrou numa zona indefinida quando a Netflix se associou ao filme, e Lee esclareceu que a obra final não adapta nenhum episódio do ciclo, embora conserve uma relação com um dos mandamentos. O primeiro esboço do argumento, coescrito com Oh Jung-mi, remonta a mais de uma década. A autonomia artística garantida ao cineasta ajuda a perceber por que motivo os 164 minutos nunca parecem submetidos à ansiedade contemporânea de acelerar uma narrativa.
Chang-dong usa todo o tempo do mundo porque precisa dele. Não há grandes catarses destinadas a organizar retrospetivamente o que vimos, mas acumulação. Cada sequência deposita uma nova camada sobre a anterior e obriga a reconsiderar julgamentos que pareciam sólidos. É cinema de entrelinhas, embora essas entrelinhas estejam carregadas de política, sexo, ressentimento e desejo. A banda sonora de Jung Jae-il participa dessa construção sem transformar a ambiguidade em instrução emocional.
O elenco compreende perfeitamente esse regime de contenção. Jeon Do-yeon, Zo In-sung e Cho Yeo-jeong são excelentes, mas Sul Kyung-gu alcança outra temperatura. Reencontrando Chang-dong depois de Peppermint Candy (1999) e Oasis (2002), constrói Ho-seok como um homem cujo corpo parece arquivar tudo aquilo que a boca se recusa a entregar. Há traumas, humilhações e medos acumulados na maneira como se senta, observa e reage. Chega a ser doloroso olhar para ele porque a interpretação parece fundada justamente na impossibilidade de descarregar a dor.
Talvez seja essa a ligação mais profunda entre Possible Love e Sex, Lies, and Videotape (1989). Há coisas que um corpo não consegue dizer diante de outro corpo, mas que acabam por escapar quando surge uma câmara. Soderbergh percebeu isso no final dos anos 1980 como sintoma sexual de uma geração. Chang-dong retoma o dispositivo quase quatro décadas depois e acrescenta-lhe classe, violência do Estado, criação artística e culpa. A câmara promete preservar aquilo que aconteceu, mas termina por registar algo muito mais instável: o momento em que uma pessoa já não consegue sustentar inteiramente a personagem que inventou para si própria.


















