Depois de quase um ano a gravitar por festivais brasileiros e internacionais, Papaya, poema animado de Priscilla Kellen, chega finalmente ao circuito comercial do Brasil nesta quinta-feira. Sem diálogos ao longo dos seus 74 minutos, a longa-metragem acompanha uma pequena semente de mamão apaixonada pela ideia de voar e determinada a permanecer em movimento para não criar raízes. A viagem acaba por inverter essa lógica: a sua protagonista descobre nas raízes não uma prisão, mas uma força capaz de ligar vidas, atravessar a terra e desencadear uma pequena revolução.
O percurso começou em setembro de 2025, no Festival de Brasília, onde Papaya integrou o Festivalzinho, e passou ainda pela Première Brasil do Festival do Rio, pela 24.ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis e pela 2.ª Mostrinha da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Houve também uma exibição especial durante a COP30, em Belém, antes de novas escalas na Mostra de Cinema de Tiradentes, no CineOP e, em junho deste ano, no Olhar de Cinema de Curitiba.

Fora do Brasil, o voo ganhou proporções ainda maiores. Papaya tornou-se a primeira longa-metragem brasileira de animação selecionada para a competição Generation Kplus da Berlinale e já passou por mais de dez festivais internacionais, entre eles o New York International Children’s Film Festival, o Anima, na Bélgica, o Festival de Xangai e o BAFICI, em Buenos Aires. Outros 15 festivais, distribuídos por quatro continentes, já integram o seu calendário de 2026. Representado internacionalmente pela Best Friend Forever, o filme garantiu distribuição comercial em 11 países, entre os quais Alemanha, Portugal, México, Líbano e França. Neste último mercado, chega pelas mãos da Gebeka Films, distribuidora associada a títulos como Kirikou et la Sorcière (1998), de Michel Ocelot, My Neighbor Totoro (1988), de Hayao Miyazaki, e Ma Vie de Courgette (2016), de Claude Barras.
Há uma explicação estética para tamanha circulação. Kellen mistura formas bidimensionais e colagens atravessadas por grafismos latino-americanos, com ecos dos paper cut-outs de Henri Matisse, numa combinação que passou a definir, durante o processo, como “tropicalismo pós-apocalíptico”. Só que o verdadeiro radicalismo de Papaya talvez esteja menos na explosão cromática do que naquilo que a realizadora decide retirar: a palavra.
A dramaturgia sem diálogos exigiu uma pesquisa específica sobre o vazio e a duração. “Estudei um pouco o conceito de Ma, que é muito utilizado nos filmes do Studio Ghibli e, de uma maneira mais ampla, aparece bastante na dramaturgia oriental, especialmente na japonesa, pelo que conheço. É essa ideia de também usar o espaço, o intervalo, o silêncio, para dar ao espectador tempo para refletir, contemplar e completar os próprios raciocínios. É como se ele também se tornasse parte do desenvolvimento da trama, porque nem tudo precisa de ser entregue pronto. E os silêncios também me ajudavam muito nesse sentido”, explica Kellen.
“Eu sentia que, por estarmos a tratar de transformações físicas e emocionais que exigem tempo, o próprio filme precisava de respeitar esse tempo. Porque as transformações estão a acontecer constantemente connosco e com a natureza, mas têm uma duração. Uma semente não se transforma numa árvore imediatamente, uma pessoa não atravessa uma transformação emocional de uma hora para a outra.”
Segundo a cineasta, se existe um intervalo, existe um processo. “Então, em vez de recorrer constantemente a elipses para simplesmente dizer que o tempo passou, quis deixar que esses intervalos existissem também dentro do filme. Os silêncios criavam esse espaço para que o tempo pudesse ser sentido, e não apenas contado. Acho que, nesse sentido, o silêncio também se tornou uma forma de falar sobre a transformação”, explica a animadora.
É nessa recusa da pressa que Papaya encontra a sua veia existencialista e ecológica. Kellen não trata a natureza como cenário nem como tema pedagógico enxertado numa aventura infantil. Germinar e criar raízes tornam-se acontecimentos simultaneamente biológicos e emocionais. O percurso da protagonista transforma assim uma questão botânica numa pergunta bastante humana: até que ponto é preciso partir para descobrir aquilo a que pertencemos?
A ausência de diálogos aumenta ainda a importância da construção sonora, território onde aparece Tulipa Ruiz. A cantora empresta a voz à mãe de Papaya e participa num dos elementos mais afetivos da longa-metragem.
“A Tulipa Ruiz era um sonho para o filme. Como não tínhamos diálogos, mas a banda sonora já estava em desenvolvimento desde o animatic, em alguns momentos aquilo que despertava a atenção de Papaya para a mãe era justamente a voz dela a ecoar pela natureza”, diz Kellen. “Eu sentia que precisava de ser uma voz potente, mas com muita personalidade. Sendo grande fã da Tulipa Ruiz, sabia que ela tem essa conexão maravilhosa com a natureza. Convidámo-la para fazer a voz da mãe e cantar a música que ressoa pela natureza e reverbera dentro do útero-mamão. Afinal, Papaya está a ouvir uma canção de embalar que vem de fora, que é a mãe a cantarolar.”
Quando Tulipa chegou para gravar a voz da mãe, acabou por contribuir muito mais para o filme. “Um pouco antes de ir para o estúdio, assim que assistiu ao filme, lembrou-se de uma canção de embalar do pai, que a mãe cantava para ela e para o irmão quando eram crianças.”
Fazia pouco tempo que o pai de Tulipa e do irmão tinha morrido. “Recentemente, ele tinha até gravado ali no estúdio Submarino Fantástico. Então foi uma coincidência muito bonita, essa energia da música do Luiz Chagas, que estava nessa egrégora do ambiente do Submarino Fantástico e em volta da história do filme. Era a Canção da Borboleta. Depois, quando a Tulipa me apresentou a música, pedi-lhe que a trouxéssemos para o filme, porque sentia que aquilo dava um fechamento poético também a essa dinâmica da ancestralidade. Essa foi uma contribuição da Tulipa. A nossa troca foi por aí. Foi muito prazeroso trabalhar com ela, muito enriquecedor.”
O Submarino Fantástico assumiu também um papel decisivo na construção sonora. “Foi um estúdio que veio fazer a gravação das vozes, com a Melissa Garcia, diretora de voz, a trabalhar com os atores. A Melissa estava em Portugal e os atores no Brasil, a gravar no estúdio Submarino Fantástico. Foi também lá que Ingo André fez a edição de som, a partir da banda sonora de Talita Del Collado, que já contemplava alguns sons da natureza dentro do universo sonoro criado para o filme, que não era literal. O Ingo André seguiu esse fio, construindo novos sons a partir daí e combinando-os com as vozes dos outros atores e das personagens.”
Essa combinação entre a imagem e a música, articuladas com a paisagem sonora, ajuda a explicar por que razão um filme aparentemente construído para os mais pequenos encontrou interlocutores em geografias tão distintas. Papaya oferece à infância uma aventura suficientemente simples para ser acompanhada sem palavras, mas deixa sob a superfície questões sobre ancestralidade, deslocação, pertencimento e transformação. As raízes não anulam o voo; dão-lhe outro sentido.
Depois de passar praticamente um ano a acompanhar essa semente pelo mundo, Kellen começa agora a pensar no que poderá germinar a seguir. “Tenho alguns projetos em estágios embrionários de desenvolvimento. Uma das ideias é um animadoc mais voltado para o público adulto. Outra é uma série bem infantil, para bebés. Tenho ainda uma ideia de longa para a mesma faixa etária de Papaya. Enquanto estas ideias germinam, sinto que preciso desse espaço para criar sem tanta pressão e tenho preferido colaborar em projetos de terceiros em etapas mais avançadas de pré-produção.”
É uma imagem adequada para uma cineasta cujo primeiro grande voo internacional nasceu justamente de uma semente que tinha medo de parar. Nesta quinta-feira, depois de uma longa peregrinação pelo Brasil e pelo mundo, Papaya finalmente cria raízes onde começou.

