No fabuloso documentário Israel Palestine on Swedish TV 1958-1989, de Göran Hugo Olsson, o cineasta embarcava numa jornada semelhante à de Black Power Mixtape para nos contar a história de um conflito, não como ele objetivamente foi, mas como a televisão sueca o reportou durante 31 anos.

Num dos seus momentos, é apresentado um vídeo de Israel Shahak, professor e membro de um grupo de defesa dos direitos humanos israelita, que usa a palavra “nazificação” para caracterizar aquilo em que a sociedade israelita se estava a tornar sob a liderança de Golda Meir. Não aos nazis da década de 1940, mas o seu pensamento nos anos 1920 e 1930.

Esta questão da “nazificação” tem vindo a ser usada atualmente por diversas figuras quando se fala do que Israel fez em Gaza logo após os ataques perpetrados pelo Hamas a 7 de outubro de 2023. E ela mesma é evocada pela dupla de cineastas Yuval Abraham e Rachel Szor quando, a certo momento de NAZA, a voz de um militar israelita chama à cena os nazis. O homem recorda uma viagem à Polónia, em jovem, aos campos de extermínio e aquilo que aprendera sobre o Holocausto. “Os nazis eram o mal, mas o que sou eu?”, pergunta ele perante as câmaras, confrontando o passado que lhe ensinaram a recordar com aquilo em que participou em Gaza.

Não é uma referência que apareça isolada. Quando a dupla chama à cena Shoah, de Claude Lanzmann, em exibição na Cinemateca de Telavive, paira sobre este documentário uma comparação histórica com o Holocausto, um terreno que será sempre minado, pois, ainda que não sejam acontecimentos historicamente equivalentes, trazem a lume a forma como a memória da Shoah é convocada na sociedade israelita atual.

Numa terceira evocação, lateral, ainda que seja o termo terrorismo, tão colado ao mundo árabe no pós-11 de Setembro, em evidência, os cineastas encontram em Benjamin Netanyahu uma espécie de curto-circuito da memória. Ele mesmo, em imagens com várias décadas, define o terrorismo como o ataque deliberado a civis para atingir objetivos políticos, deixando depois essa definição bater de frente com os vários testemunhos que acabámos de ouvir sobre os ataques a Gaza.

Entenda-se que NAZA não é apenas um termo equivalente a “danos colaterais”, mas a uma estimativa antecipada do número de civis que poderão morrer para que determinado alvo, de alta ou baixa patente do Hamas, seja atingido. É a partir dessa quantificação da morte que a dupla de cineastas chega a este filme, depois de No Other Land, o documentário que realizou com Basel Adra e Hamdan Ballal sobre a destruição das comunidades palestinianas de Masafer Yatta. Abraham traz na sua bagagem o trabalho de jornalista e as investigações sobre o poderio militar de Israel; Szor, que em No Other Land assinava também a fotografia, volta a fazer da imagem parte decisiva do dispositivo.

Em NAZA, porém, a dupla vira a câmara para dentro da própria máquina de guerra israelita, procurando perceber os mecanismos que transformam as pessoas em alvos, coordenadas e estimativas das eventuais vítimas civis. Dessa escolha nasce também uma ausência evidente, a dos palestinianos, pois o filme fala constantemente deles, mas são os israelitas que têm a palavra. É aqui que Lanzmann volta a ser convocado, agora não tanto pela memória da Shoah, mas pelo poder do testemunho. Tal como em Shoah, é através da palavra de quem esteve dentro dos acontecimentos, e dos pequenos detalhes que dela emergem, que Abraham e Szor procuram tornar visível aquilo que não está diretamente diante da câmara.

Recorrendo a entrevistas nos telhados de Telavive com múltiplas figuras ligadas ao aparelho militar israelita, todas elas alteradas digitalmente, no som e na imagem, por inteligência artificial para preservar o seu anonimato, Abraham e Szor moldam o seu filme a partir do atrito entre os testemunhos e o arquivo, num exercício de montagem de confronto. Os homens e mulheres surgem como figuras quase fantasmagóricas, sem rosto, nas sombras, tendo como pano de fundo uma Telavive ora calma, ora em tensão pelos alertas, enquanto do outro lado se fala de uma Gaza reduzida — até à cena final do filme — a coordenadas num ecrã, vigiada por drones e transformada num enorme sistema de informação geográfica com potenciais alvos.

Nos entrevistados, há militares que estiveram no terreno, enquanto outros estão fechados em escritórios, a manejar drones, sistemas de vigilância e ataques à distância; há oficiais de informações que recolhem e cruzam a intel, técnicos envolvidos nos sistemas de IA que propõem alvos e até quem trabalhou em unidades destinadas a investigar os podres de palestinianos que apresentavam denúncias de crimes de guerra em Haia, procurando material que pudesse desacreditá-los.

O filme vai assim percorrendo uma máquina que vai muito em linha com o que a dupla de cineastas palestinianos Tarzan e Arab Nasser dizia aquando de Once Upon a Time in Gaza: Gaza é uma enorme prisão, com dois milhões de pessoas fechadas lá dentro. Israel assume, nesta leitura, o papel de guarda prisional, observando do exterior os movimentos de quem lá vive e controlando as condições da prisão, qual Big Brother de 1984.

Ouvindo os testemunhos e seguindo as fricções, quando um desses homens nos diz que é apenas um técnico no meio daquilo tudo, é impossível não requisitar Hannah Arendt e a sua “banalidade do mal”. Se Arendt encontrou em Eichmann o burocrata, o funcionário administrativo que cumpria a sua função dentro de uma gigantesca máquina de extermínio, NAZA encontra o técnico. Um homem diante de um ecrã, integrado numa cadeia em que cada um executa apenas uma parte do processo. Pelo meio, uma nova ferramenta de IA que fornece estatísticas e alvos preferenciais, teoricamente desumanizando ainda mais tudo o que está a acontecer na região. E dizemos teoricamente porque aqui há um entrevistado que diz que se deve confiar mais nas estatísticas da IA do que na decisão humana, pois os homens estão consumidos pela raiva particularmente intensificada pelo 7 de outubro.

Nesse sentido, é aí que responsabilidade moral pelas mortes fragmenta-se e estas transformam-se num procedimento técnico quantificável numa estrutura maior. E é aí que o “sou apenas um técnico” começa a soar perigosamente próximo do “sou apenas um funcionário”, numa descrição de homens que encaram aquilo que fazem meramente como trabalho.

É precisamente nessa tentativa de transformar a guerra numa equação administrável, onde até a morte de civis pode ser prevista antes de o ataque acontecer, que NAZA encontra o momento em que uma vida deixa de ser uma vida e passa a ser um número que alguém decidiu que podia entrar na conta. E, nesse sentido, é absolutamente um filme notável.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
naza-gaza-vista-de-dentro-da-maquina-de-guerra-israelitaEm NAZA, Abraham e Szor viram a câmara para dentro da própria máquina de guerra israelita, procurando perceber os mecanismos que transformam as pessoas em alvos, coordenadas e estimativas das eventuais vítimas civis.