Uma “desfeita” — ou seja, uma indelicadeza — em especial chateia personagens em A Professora de Francês, thriller enervante de Ricardo Alves Jr. que transforma o quotidiano de Belo Horizonte num território de ameaça. A tal desfeita é a demora em fazer uma refeição na casa que serve de epicentro ao enredo. Se alguém é próximo de quem ali mora, é bom não ficar demasiado tempo sem aparecer para almoçar ou jantar. Caso contrário, a demora provoca angústia… a angústia gera desconfiança… a desconfiança provoca vigília… e a vigília é argamassa de controlo. Há algo de profundamente perturbador na maneira como o filme, elegantemente taquicárdico, faz o banal — uma visita familiar, uma refeição que não acontece, uma aula ou uma conversa — adquirir progressivamente a textura de um pesadelo.

Graça, interpretada pelo reator nuclear Grace Passô, é uma professora que domina com precisão a gramática da língua de Balzac e vive numa cidade onde preconceitos encontraram formas assombrosamente persistentes de sobrevivência. Envolvida afetivamente com uma francesa ali radicada, interpretada por Jehnny Beth, reluta em aceitar o convite de uma parente pouco desejada, vivida pela poeta, encenadora e performer Elisa Lucinda. Quando finalmente cede, o encontro familiar torna-se mais uma das zonas de desconforto em que o argumento, um ensaio sobre paranoias de Germano Melo, se especializa.

Há também o pai, vivido pelo músico Rodger Rogério, cuja fragilidade física começa a tornar-se evidente. A velhice bate à porta, a memória vacila e, com ela, emergem inquietações que parecem pertencer não apenas à personagem, mas à própria cidade. Em A Professora de Francês, a deterioração da memória individual convive com algo semelhante a uma memória coletiva contaminada por preconceitos que insistem em permanecer.

Estranheza é, talvez, a palavra-chave para compreender o filme. Ricardo Alves Jr., produtor e cineasta, mobiliza diferentes tradições do cinema de terror para construir uma geografia do desconforto. Há giallo, Wes Craven, Rosemary’s Baby (1968), Hammer e terror queer, filtrados por uma sensibilidade que transforma a paisagem quotidiana em território de ameaça. O resultado é menos uma colagem de referências do que uma depuração das convenções do género pela experiência brasileira. O que emerge é um exercício de terror genuíno… e pertinente.

Logo que Graça começa a dar aulas a um grupo de estudantes, surgem piadas, algumas em francês, relacionadas com a sua orientação sexual. O principal agente dessas provocações é um bad boy vivido por Pedro Goifman, cuja aparência apolínea contrasta com aquilo que a personagem progressivamente revela. Ele funciona como uma espécie de estandarte do mal: a beleza exterior como máscara para uma podridão que não é apenas individual.

É nesse ponto que o terror de Ricardo Alves Jr. encontra uma dimensão política sem abandonar o terreno da alegoria. A violência quotidiana contra aquilo que escapa à norma é associada pelo filme a um ambiente social onde discursos conservadores ganham espaço. A Professora de Francês transforma essa tensão em matéria de suspense sem precisar de a converter num discurso ilustrativo.

Na cuidadosa produção de Thiago Macêdo Correia, pela Filmes de Plástico, ao lado da Entrefilmes, A Professora de Francês encontra na montagem de Mathilde Van de Moortel e Luisa Homem uma ferramenta decisiva para fazer crescer o perigo. O filme sabe retardar a informação e prolongar o silêncio até que o espetador perceba a ameaça antes de ela adquirir uma forma concreta.

Numa realização equilibrada, Ricardo conjuga os verbos de ação do terror europeu, sobretudo aqueles associados a Dario Argento, com a esmerada fotografia de Vasco Viana. Belo Horizonte deixa de ser apenas uma localização e passa a funcionar como uma espécie de paisagem mental. A cidade poderia ser outra grande metrópole e, ainda assim, preservar aquele incómodo — inclusive San Sebastián, onde a longa concorre em Horizontes Latinos.

A namorada de Graça é interpretada por Jehnny Beth, numa relação que amplia a dimensão íntima do conflito. Afinal, Ricardo é um cineasta que gravita justamente na fronteira entre documentário e ficção, tendo realizado anteriormente o thriller de atmosfera lynchiana Elon Não Acredita na Morte (2016). O seu cinema dialoga com estruturas e tropos da fantasia para encontrar no suspense uma analogia possível com o Brasil contemporâneo.

É uma estratégia particularmente interessante porque A Professora de Francês não precisa de transformar as suas personagens em porta-vozes de uma tese. O medo nasce da convivência e infiltra-se nos espaços mais próximos. O terror está menos naquilo que chega de fora do que naquilo que já estava instalado dentro de casa.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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