Taquicárdico desde a sua aparição no cenário dos grandes festivais independentes dos anos 1990, com Shallow Grave (1994), Danny Boyle é um realizador que parece incapaz de pisar o travão. Mantém-se em plena aceleração mesmo quando dialoga com linguagens que escapam ao cinema europeu, como aconteceu com as influências bollywoodianas de Quem Quer Ser Bilionário? (2008), que lhe valeu o Óscar de Melhor Realização. Depois da consagração em Hollywood, Boyle viveu um período de inspiração irregular, marcado por lampejos sazonais de criatividade, como Yesterday (2019), atração do Tribeca Film Festival e hoje repetido à exaustão nas programações vespertinas da televisão. O Boyle mais analítico, de 127 Horas (2010) e do transcendental Trainspotting (1996), parece ter dado lugar, cada vez mais, a exercícios de estilo.
É o que se vê agora em Ink, longa-metragem de abertura do 83.º Festival de Veneza e uma das atrações-surpresa incorporadas à última hora na programação de San Sebastián. A capacidade de surpreender, entretanto, é das coisas mais raras neste filme, limitando-se, em boa medida, ao desempenho sagaz de Guy Pearce, um ator que atravessa uma fase de maturidade particularmente fértil.
Baseado na peça teatral homónima de James Graham, o filme acompanha a transformação do The Sun numa máquina de mobilização de leitores e de disputa por influência pública, a partir da chegada de Rupert Murdoch e da ascensão de Larry Lamb ao comando editorial. A premissa oferecia a Boyle uma oportunidade preciosa para investigar as engrenagens de um jornalismo disposto a transformar informação em espetáculo, discutir a manipulação da notícia e tensionar as fronteiras entre verdade e fabricação mediática.
Mas Ink perde-se por completo no delírio formal do seu realizador, mais preocupado com invenções de linguagem do que com o estudo das personagens e, sobretudo, com as feridas políticas abertas por aquele modelo de jornalismo. O debate sobre a manipulação da notícia e a fabricação de verdades nos meios de comunicação acaba relegado para segundo plano por um enredo que parece mais interessado em explorar a vaidade de Larry Lamb, o editor empenhado em transformar o The Sun num fenómeno de vendas.
Jack O’Connell entrega uma interpretação histérica, sem encontrar nas oscilações de Lamb uma dimensão humana capaz de ultrapassar a caricatura. Guy Pearce, por outro lado, como Rupert Murdoch, sai-se muito melhor. O seu magnata australiano aparece como um homem do novo capitalismo que tenta, através do dinheiro e da aventura jornalística, conquistar espaço e influência numa Europa ainda marcada pelas transformações do pós-guerra.
Pearce tem vindo a desbravar novos terrenos na carreira desde The Brutalist (2024), que lhe valeu uma nomeação ao Óscar de Melhor Ator Secundário. Pode repetir a dose agora? Há material para isso. Como Murdoch, é o único intérprete capaz de complexificar o arquétipo do empresário que fareja bons negócios onde todos os demais veem apenas terra devastada.
Boyle conta com uma fotografia ajustada à sua pulsação nervosa, assinada por Alwin H. Küchler, e encontra ainda mais afinação na montagem de Fin Oates, bastante adequada ao seu estilo apressado e picotado, digno de um videoclipe. A forma corre, salta, acelera, fragmenta-se — enquanto o conteúdo permanece curiosamente estacionado.
O Ink que Boyle entregou a Veneza e agora leva a Donostia é apenas uma pálida sombra daquele realizador agigantado da década de 1990 e dos primeiros anos do século XXI, o mesmo que nos deu A Praia (2000) e tantos outros exercícios de energia cinematográfica que pareciam esconder, sob a superfície febril, um cineasta interessado em algo maior do que a própria febre. Saudades daquele artista, daquele Boyle.

















