Apesar da enorme distância histórica e afetiva, Club Kid trava um diálogo, através do tempo, com Cruising (1980), de William Friedkin (1935-2023), no olhar sobre a relação entre o hedonismo, as drogas e o universo dos clubes queer das grandes metrópoles norte-americanas, em particular Nova Iorque. A diferença é que Jordan Firstman, ator e personalidade da cultura digital que se estreia na realização de longas-metragens em 2026, deixa o moralismo de lado. Friedkin evocava um sentimento de culpa inerente ao prazer, como se a vida gay estivesse inevitavelmente condenada ao perigo. Firstman troca esse fatalismo por recomeços e reinvenções, sem os carregar de um olhar moralista e excludente. O seu dilema é outro: como encontrar um equilíbrio entre o dionisíaco e o apolíneo numa cidade que parece viver permanentemente em alta voltagem.

Firstman conhece bem esse território. Nascido em Long Island, em 1991, construiu uma carreira que atravessa a comédia, a interpretação, a escrita e a produção antes de se lançar como cineasta pela montra prestigiada da secção Un Certain Regard de Cannes. Realizou curtas como Call Your Father (2016) e Men Don’t Whisper (2017), esta última exibida em Sundance e no SXSW, e escreveu para séries como Search Party. Durante a pandemia, tornou-se particularmente conhecido pelos vídeos de humor que publicava nas redes sociais. No cinema, interpretou uma versão de si próprio em Rotting in the Sun (2023), de Sebastián Silva, e apareceu ainda na série I Love LA. Com Club Kid, entretanto apresentado na secção Perlak de San Sebastián e escolhido para a Gala de Encerramento Internacional do Festival do Rio, alcança até agora o ponto mais ambicioso do seu percurso artístico. E sobe essa fasquia com uma destreza notável. É uma narrativa comovente.

Firstman escreve, realiza e interpreta Peter, um promotor de festas de Nova Iorque cuja existência está inteiramente organizada em torno da noite, das drogas e da cultura clubber. O filme começa mergulhado nesse universo hedonista para depois introduzir uma rutura radical: Peter descobre que tem um filho de dez anos, Arlo (Reggie Absolom), cuja existência desconhecia. A chegada do miúdo desloca a personagem de uma vida regida pela procura permanente de diversão e entorpecimento para uma experiência inesperada de responsabilidade e vínculo afetivo. A determinada altura, Peter admite ter uma autoestima baixa. Arlo obriga-o a olhar para si próprio de outra maneira.

A relação de Club Kid com a dance music pode ser entendida dentro de uma tradição particularmente nova-iorquina: a noite enquanto espaço de invenção de identidades, sexualidades e comunidades. A cultura disco nasceu e desenvolveu-se fortemente nas pistas de dança, sobretudo a partir dos anos 1970, ligada às comunidades negras, latinas e LGBTQ+, antes de transformar Nova Iorque num dos grandes centros mundiais da música de dança. O universo de Peter, porém, já não é exatamente o da disco dos anos 70: o filme recupera essa herança cultural e transporta-a para a cena queer dos clubes nova-iorquinos de 2016. A pista deixa de ser apenas um lugar para dançar e passa a funcionar como território de pertença, excesso e representação social.

Há, portanto, uma linha interessante entre a liberdade corporal da disco e a cultura queer contemporânea retratada por Firstman: aquilo que começou como uma forma de celebração e resistência cultural nas pistas de Nova Iorque transforma-se, décadas mais tarde, num universo de festas incessantes no qual Peter parece ter encontrado uma família substituta. Club Kid pode ser lido, nesse sentido, como um filme sobre o momento em que essa vida noturna — historicamente associada à liberdade, ao desejo e à invenção de si — já não basta à personagem, obrigando-a a descobrir uma outra forma de pertença.

A delicadeza com que Firstman lida com Cara Delevingne prepara o terreno para que Sophie, a sócia de Peter, seja mais do que um mero satélite do protagonista e consiga alterar o rumo da narrativa num dos momentos de maior abertura emocional do filme. Igualmente forte é Oscar (Diego Calva), o assistente social que ajuda Arlo a integrar-se naquele mundo e contribui para que Peter consiga, finalmente, encontrar algum equilíbrio.

A montagem de Taylor Levy e Sofía Subercaseaux é impecável na conciliação dos diferentes tons de Club Kid, fazendo o filme gravitar entre o desvario sem limites e uma crescente necessidade de aconchego. O trabalho de montagem é decisivo para a harmonia alcançada nos minutos finais, preservando o pulso contagiante daquilo que Firstman nos conta sem sacrificar a delicadeza conquistada pelo caminho.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
club-kid-tem-a-batida-do-aconchegoHá uma linha interessante entre a liberdade corporal da disco e a cultura queer contemporânea retratada por Firstman: aquilo que começou como uma forma de celebração e resistência cultural nas pistas de Nova Iorque transforma-se, décadas mais tarde, num universo de festas incessantes no qual Peter parece ter encontrado uma família substituta.