Matias Mariani alça voo para a consagração nas asas de «Cidade Pássaro»

(Fotos: Divulgação)

Dia a dia, na programação (cada vez mais quente) do 70º Festival de Berlim, um dos 19 filmes brasileiros escalados para diferentes secções ganha notoriedade, começando, na sexta-feira, com a consagradora projeção de Cidade Pássaro.

Centrada numa jornada de desterro em prol da fraternidade, a longa-metragem, que só faz crescer no “boca em boca” associado à mostra Panorama da Berlinale 2020, é dirigida pelo produtor Matias Mariani (Trinta). Fala-se muito (e bem) da retidão na sua construção de quadros ao contar o périplo de um músico nigeriano, Amadi (O.C. Ukeje), para encontrar o seu irmão na maior cidade do Brasil: São Paulo. Na entrevista a seguir, Mariani (realizador, com Maíra Bühler, do documentário A Vida Privada dos Hipopótamos, de 2014) fala sobre a sua jornada de amor fraterno da Nigéria à polifonia paulista.

A fraternidade se impõe, até agora, como um dos assuntos centrais desta Berlinale. Qual é a fronteira entre o amor fraterno e o rearranjo familiar na diáspora africana que você tangencia ao narrar a experiência de Amadi em São Paulo?

Eu diria que este é o aspeto mais pessoal do filme para mim. Entre todas as relações possíveis dentro de uma família, a relação entre irmãos e irmãs é aquela que é mais idealizada como uma fórmula para o convívio em sociedade: daí vem o sentido que damos a fraternidade há muitos séculos. Porém, em termos práticos, os sentimentos entre irmãos são múltiplos, de inveja, de amor, de rivalidade, de emulação. E, não só na sociedade Igbo mas em todas as outras também, há um desequilíbrio essencial em como as forças de expectativa e desapontamento incidem em cada irmão ou irmã, e isso cria novas assimetrias. Acho então que, quanto mais usarmos uma aceção mais rica e complexa de “fraternidade” para povoar as nossas descrições do que almejamos da vida em sociedade, mais nos aproximaremos de um entendimento maior do que nos aproxima e que nos afasta um dos outros. Eu acho que o meu filme é atravessado por uma reflexão sobre esse tema, mesmo que não chegue propriamente a nenhuma resposta.

Que microcosmos de São Paulo representa no filme, em relação às diferentes nacionalidades que a atravessam?

Há uma intencionalidade no filme, e especificamente na direção de arte e fotografia, que é não utilizar São Paulo como símbolo para nada, mas sim de tentar capturar o que há de mais específico na cidade, de mais particular; de se afastar da “trope” da distopia cosmopolita, que vemos tanto em filmes de ficção científica, e tratar a cidade propriamente como uma personagem, quase como uma pessoa. Dito isso, a cidade invariavelmente está ali também como espaço, e como espaço ela representa um desafio para o Amadi, tendo uma geografia em geral opaca e um tanto selvagem. E o modo que ele é transversal a este espaço físico vai construindo um paralelo de como ele atravessa o espaço emocional que o separa do seu irmão, e eu queria que isso fosse parte da narrativa do filme. Queria mostrar o modo como todos nós traçamos trajetórias de encontro dentro das nossas cabeça que, ao mesmo tempo, percorremos no mundo real, sangrando o limite entre esses espaços internos e externos. E acho que a expressividade de São Paulo serviu muito bem para explodir essa distinção entre o que acontece dentro e fora do Amadi.

Como foi a construção da fotografia na parceria com Leonardo Bittencourt na medida do equilíbrio entre uma luz que preservasse ficção e documentário em harmonia na relação com o real?

O Leo é um fotógrafo extremamente estudioso e, mais importante, criativo em como se abordar uma história, um filme. Eu gosto muito do facto dele não tomar nada como certo e contesta as premissas mais básicas de cada projeto. Com o Cidade Pássaro não foi diferente, e as provocações que ele trouxe desde o começo – como o formato 4×3 e o excesso de teto nos enquadramentos em close-up – foram moldando como a história se expressava, imbuindo de expressividade o espaço urbano de uma forma que, originalmente, não estava no guião. Acho que isso foi essencial para a forma final do filme, e considero-me uma pessoa de sorte de ter tido a oportunidade de trabalhar com ele.

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