Já a preparar uma terceira colaboração com Jessica Chastain depois de “Memory” e “Dreams”, Michael Franco trouxe ao Festival de Karlovy a sua história de amor com forte comentário social sobre uma filantropa norte-americana (Jessica Chastain), filha de um grande empresário, que se envolve emocionalmente com um dançarino mexicano (Isaac Hernández). Com Trump no poder e a sua agenda de deportação em massa em marcha, “Dreams” ganhou nova relevância depois da sua estreia na Berlinale, não apenas na forma como aborda as diferenças de poder entre os norte-americanos e os mexicanos, mas igualmente pela forma como mostra que um migrante, ou seja, um “eles”, nunca será visto como um “nós” no país que transformou em seu.
“A minha primeira conversa com a Jessica Chastai foi suficiente para perceber que estava sentado com uma pessoa e uma atriz que queria desafiar-se e ser desafiada, não sendo apenas a estrela de cinema que é”, disse Michel Franco ao C7nema, na cidade da República Checa. “Senti imediatamente que ela seria uma boa parceira de trabalho e confesso que nunca me desiludiu. Trato sempre as pessoas de forma respeitosa, confio nelas, e elas em mim. É como um contrato de decência. E quando ambos temos o mesmo filme na cabeça, após conversarmos e falarmos das coisas, até existe espaço para discordâncias”.
Assumindo que o primeiro mandato de Donald Trump e o risco de ele voltar ao poder (que aconteceu) certamente tiveram influência no avanço mais rápido do projeto por parte dele e da própria Jessica Chastain, que também o produz, Franco não relaciona, contudo, a ideia original à chegada do atual presidente dos EUA à cena política. “A verdade é que a relação entre EUA e México tem sido sempre a mesma”, diz-nos, acrescentando: “Os sul e centro americanos têm apoiado muito a economia dos EUA, fazendo trabalhos que os norte-americanos já não querem fazer. Eles nunca tiveram uma verdadeira retribuição em troca pelo seu trabalho, acabando muitas vezes perseguidos. Ou seja, é a mesma história desde sempre, ainda que agora [com Trump] as coisas sejam feitas com uma maior perversidade.”

Admitindo que nos filmes que vê e filma gosta “sempre de testar as personagens com desafios do quotidiano“, Franco explica que a personagem de Chastain teve certamente uma vida mais facilitada que a maioria da classe média trabalhadora, mas está claramente menos equipada “para resolver problemas que o dinheiro não compra”: “Quando ela é despida desse poder, ela mostra e descobre o que realmente é. Creio que ambas as personagens descobrem neles coisas que não sabiam que podiam fazer. Provavelmente coisas que os fazem nem sequer gostarem deles próprios. Aprecio muito filmes que despem as suas personagens e mostram o que está por trás do que demonstram ser.”
Já sobre as cenas carregadas de erotismo que vemos no filme, Michael Franco evoca Fassbinder e Pasolini, dois dos cineastas que mais aprecia, como inspiração, nomeando “Ali: Fear Eats the Soul” como uma das suas obras preferidas: “O sexo revela muito sobre nós e o Fassbinder explora isso nos filmes, sem pudores e timidez. O Pasolini também fez isso. Esses são dois dos meus cineastas preferidos. Isso também aconteceu no ‘Nova Ordem’, e de uma outra forma no “After Lucia”. Para ser sincero, sempre que escrevo um filme tento esquecer o que fiz antes e quem sou. Por isso gosto de trabalhar rapidamente. Se demorasse 7 anos agarrado a um projeto, a pessoa que era no início não seria a mesma que encerra o filme (…) O mais difícil em fazer filmes é mantê-los como uma forma de expressão pessoal”.
Isaac Hernández

