Embora filmes como “Despues de Lucía” (Prix Un Certain Regard 2012) e “Chronic” (Melhor Argumento em Cannes, em 2015) sejam regados de empatia, sob uma ótica e sob uma ética bastante particulares, o mexicano Michel Franco, realizador de ambos, não é o tipo de cineasta de quem se espere uma história de amor. Menos ainda uma história de amor rasgado lúdica. Talvez por isso, “Memory” pareça tão inusitado para alguém com o nível de descrédito na esperança retratado no thriller “Nuevo Orden” (Grande Prêmio do Júri de Veneza em 2020).
A sua nova longa-metragem é repleta de dor, a julgar pelas cicatrizes da suas personagens centrais, mas a sua taxa de açúcar supera o fel. Ganhou no Lido a Copa Volpi de Melhor Interpretação Masculina, dada a um sublime Peter Sarsgaard.
Ao lado dele está uma Jessica Chastain luminosa, bem diferente de tudo o que lhe deu notoriedade até aqui. É o seu trabalho de maior transcendência desde “The Tree of Life” (2011), embora não namore com os códigos messiânicos deste filme que deu a Palma de Ouro a Terrence Malick. Franco vai por caminhos nada divinos, trafegando por terreno telúrico, sob uma delicada fotografia de Yves Cape. No plano-sequência, a delicadeza de Cape com os enquadramentos é ainda maior. Parece um filme de David Lean, um “Brief Encounter” mais fofo – e prospetivo.
Jessica é Sylvia, uma assistente social cheia de fraturas por conta do alcoolismo e chagas do passado. Ao visitar antigos colegas de escola, ela esbarra com um homem, vivido por Sarsgaard, que acredita ter sido um antigo parceiro de liceu que abusou dela. Mas não é. Sarsgaard é um viúvo acossado pela demência. É um homem rico, fino e cortez que só parece com o tal monstro que assombrou Sylvia no passado. A mãe dela, vivida por uma furiosa Jessica Harper, insiste que ela confunde o real e a fantasia. Já Saul não faz isso. Ele não consegue se recordar de muita coisa. Por isso, não há fabulações nem mentiras nos seus gestos. Só há paixão. Uma paixão embalada a Procol Harum. Uma paixão que derruba qualquer coração ferido.





















