É frustrante perceber que o (suposto) desfecho da saga “Missão: Impossível”, criada em 1996, deixe a desejar no ponto em que os seus antecessores mais recentes, de 2018 e 2023, mais e melhor brilharam: a excelência técnica e artística das sequências de ação. Levado a Cannes, em meio ao namoro do festival com Tom Cruise (que começou há três anos), “The Final Reckoning” não apenas carece de fluidez na lutas, nas perseguições e nas repetitivas correrias do protagonista, o mestre em disfarces Ethan Hunt, como parece não estar em sintonia com os rumos que o thriller tomou.
Sob a afiada guilhotina do politicamente correto, o cinema de ação reciclou-se – na forma – pelo advento de uma estética cinemática, de puro movimento, como se fosse um desenho do Papa-Léguas (Road Runner), com a franquia “John Wick”, coroando um ex-duplo, Chad Stahelski, como realizador autor. Existe ainda um outro veio, formalmente conservador, porém, enriquecido pelo melodrama, no qual o hoje septuagenário Liam Neeson encara o Mal enquanto externaliza os contratempos da maturidade, da finitude do corpo. Há uma terceira via, menos subtil que as outras duas, graficamente ousada na representação da violência, que se renova com (pérolas como) “Beekeeper – Rede de Vingança”, com Jason Statham como “muso”. Nela, o heroísmo lapidado no início da década de 1980, com “Rambo” e “Comando”, na ótica do Exército De Um Homem Só, ganha um novo verniz, pop e coagulado. É o “filme de ação gore”. O gore é um conceito inerente ao terror, tipo a franquia “Terrifier” (do palhaço Art), no qual sangue e tripas se espalham pela narrativa, das formas mais inusitadas e grotescas, beirando a pornografia de brutalidade. Em latitudes asiáticas, o filipino Richard Somes quebra com as pasmaceiras da moral em títulos como “Topakk”, lançado no Festival de Locarno em 2023.
As investigações de espaço e de tempo dos títulos acima não ecoam nada em “Mission: Impossible – Final Reckoning”. A linha adotada pela narrativa se delineia como um épico, sem sustentar essa grandeza.
Exuberante, “Mission: Impossible – Dead Reckoning Part One”, lançado em 2023, ganhou uma sobrevida ao ser nomeado a dois Oscars (Melhor Som e Melhores Efeitos Visuais), o que elevou um filme que impressionou a crítica, mas faturou menos do que o esperado. Coração da franquia, Tom Cruise, o produtor, chegou a adiar a parte dois, que estreia pós Cannes, por alegar que contratempos inerentes às graves dos sindicatos de atrizes/atores e de argumentistas prejudicou o cronograma. O facto é que os US$ 567 milhões arrecadados pela parte sete de uma saga iniciada há 29 anos ficaram aquém do esperado pelos exibidores. A colisão com “Barbenheimer” – o lançamento de “Barbie” e de “Oppenheimer” – esvaziou as salas onde Cruise esperava reinar soberano. Mas, o prestígio que ele alcançou com o regresso do agente Ethan Hunt é inexorável, e, com a chegada ao streaming, o filme fez o orçamento subir. Essa subida pode mascarar as fragilidades espalhadas por “The Final Reckoning”, seja em diálogos rasos, ditos de modo pomposo, seja na ausência de batalhas ou fugas que condigam com o nível de sequências vistas nas fitas anteriores, em especial “Mission: Impossible – Fallout“, de 2018.
Quando a franquia com Cruise começou, derivada de uma série da CBS, exibida de 1966 a 1973, encontrava-se nela uma brilhante revisão dos códigos das narrativas de espiões. Foi a Guerra Fria, entre os anos de 1950 e 1980, que transformou o ofício por vezes “oficioso” da espionagem em um género cinematográfico de viés pop, seja por trilhas de tons super-heroicos (caso de “007”) ou por caminhos existencialistas (o oscarizado “The Lives of Others” ou o vencedor da Palma de Ouro de 1974, “The Conversation”). Esta linha sempre explorou bem os feitos de pessoas invisíveis infiltradas em espaços onde chegam como parasitas. O parasitismo é uma sensação já há muito superada por Ethan Hunt, um mestre em disfarces encarnado por Tom Cruise há 29 anos. Ele só não supera o facto de não conseguir proteger as pessoas à sua volta como deveria e gostaria, no empenho de dar ao mundo a segurança adequada. Desde 2006, quando J.J. Abrams filmou o terceiro capítulo da franquia “Missão: Impossível” – título usado para designar a agência secreta da qual a personagem é o principal operativo -, Ethan sente o peso desse fardo, incapaz de sublimar a arte da perda.
Apoiado num orçamento colossal, “The Final Reckoning” não consegue explorar as camadas mais íntimas de um homem que salvou o mundo muitas vezes, sacrificando muito de si para isso. Isso ficou com o sétimo episódio, de 2023, filmado em meio à pandemia, ao custo de US$ 290 milhões Ele é o que mais se aproxima da elegância (e do humanismo) do primeiro filme, que teve um realizador-autor, Brian De Palma, como condutor.
Quem conduz as peripécias de Cruise (em atuação) agora é Christopher McQuarrie, um cineasta em formação, que, ao contrário do magistral De Palma, vem da palavra, da força da escrita, tendo conquistado o Oscar de Melhor Argumento por “The Usual Suspects”, há três décadas. Ele e a estrela trabalham juntos desde o subestimado “Valkyrie” (2008) e estiveram juntos no fenómeno popular “Top Gun: Maverick”, em 2022. Lá, McQuarrie foi produtor.
,
Filme a filme os dois travam uma parceria que, no grande ecrã, expressa-se a partir de uma investigação do mito do herói, pautada por uma expedição existencial ao que o arquétipo do “vigilante” ou do “guardião” tem de mais doído – e de mais particular -, em meio à força que os impele.
No argumento do novo “Missão”, prejudicado pelo excesso de inverossimilhança, há um resquício vivo (e perigoso) do passado de Ethan, o terrorista Gabriel (vivido pelo nova-iorquino de origem porto-riquenha Esai Morales), tentando domesticar uma forma de IA (inteligência artificial) capaz de influir nos sistemas de defesa do mundo. Gabriel parece se encaixar no pior tipo de braço armado do terror que há: aquele que não faz exigências. Anseia ter a IA para si e com ela, brincar de Demiurgo, a refazer o mundo a seu gosto, em meio a um caos nuclear. Conhecido por Hollywood desde “La Bamba” (1987), Morales consegue um holofote dos mais luminosos para desfilar uma vilania que nos assusta, mas traz consigo um grau de humanismo difícil de ser rotulado.
Aliás, rótulos dos mais diversos são desfolhados e descartados no trabalho de McQuarrie para colocar em em cena os riscos inerentes à autonomia intelectuais dos sistemas operacionais e para abrir um debate sobre quais são as “agências” reguladores do Mal que agem nas sombras da vida, no jogo da morte. Jogo no qual Ethan é um craque.
Formalmente, numa edição confusa, mal dilatada ao longo de duas horas e 49 minutos, o realizador falha em propor
desafios às leis da aerodinâmica. A sequência de Ethan em águas geladas a entrar num submarino arrasta uma âncara numa demora cansativa, a ocupar um tempo vasto da trama e desgastá-la. A sequência num avião, usada até no poster, tem o seu encanto, mas peca por um desfecho vexatório.
Cruise deificou Hunt e McQuarrie não soube despertá-lo da sanha messiânica em que afogou a personagem. Perdeu a hipótese de encerrar os feitos da agência Missão Impossível nas raias da eficácia.



















