O italiano Paolo Strippoli apresentou em Veneza, fora de competição, La valle dei sorrisi (Holly Boy), mais uma incursão no cinema de terror de um cineasta que, no passado, já nos entregou filmes como A Classic Horror Story (Uma Clássica História de Terror, 2021) e Piove (2022).

Explorando a fórmula coming-of-age não tanto como um ato de conquista da maturidade, mas peça-chave para a perda da inocência, e assumindo publicamente influências de obras como The Wicker Man (1973, Robin Hardy), clássico do folk horror britânico; Let the Right One In (Deixa-me Entrar, 2008, Tomas Alfredson), filme sueco que cruza vampirismo e adolescência; Thelma (2017, Joachim Trier), drama fantástico que alia identidade queer a poderes sobrenaturais; e Carrie (1976, Brian De Palma), marco do terror psicológico, Strippoli leva-nos agora até Remis, uma aldeia isolada onde todos parecem felizes. Daí surge o título O Vale dos Sorrisos (que bem podia ser uma Cidade dos Malditos à Carpenter), mas por trás dessa felicidade esconde-se um ritual perturbador em torno de um jovem “santificado”, Matteo (Giulio Feltri), que, uma vez por semana, abraça os habitantes e absorve a dor de todos.

Quando Sergio Rossetti (Michele Riondino), antiga estrela do judo transformado em professor de educação física, chega à aldeia com um passado doloroso por revelar, é integrado no culto. Contudo, a sua tentativa de devolver a Matteo uma vida mais próxima da normalidade para um adolescente acaba por despertar o lado mais obscuro do chamado Anjo de Remis.

Movendo-se em torno de temas caros ao cinema contemporâneo — identidade, pertença e libertação das amarras e das expectativas sociais — La valle dei sorrisi constrói-se dentro da linhagem do terror gótico com raízes no folk horror, como um coming-of-age duplo: o filme segue tanto o percurso do rapaz de 15 anos apelidado de “santo”, como o de Sergio, um homem que perdeu tudo e apenas parece tentar sobreviver mais um dia num caminho tortuoso de autodestruição. A incorporação destes elementos numa atmosfera que pretende ser simultaneamente atemorizante e alegórica, com ramificações sociais e políticas, nem sempre resulta em pleno, sobretudo porque, bem espremido, este é um filme que apear de entregar algumas surpresas, sustos e reflexões ao longo do seu percurso, tem muito de derivativo, sem acrescentar nada de verdadeiramente novo e potente ao género.

Filmado nas Dolomitas friulanas, sobretudo em Sappada, o filme carrega na paisagem as contradições que também explora no terreno emocional: se essa paisagem é de grande beleza, é também opressiva e claustrofóbica, isolando todos num microcosmo que tende a criar as suas próprias regras e cultos. Essa geografia ultrapassa o plano físico e ganha dimensão existencial através do duplo confronto com a dor que os atormenta por parte de Matteo e Sergio, expandindo-se depois ao coletivo — a restante população da aldeia.

O certo é que, apesar de não ser um filme brilhante ou totalmente original, La valle dei sorrisi tem a sua força e charme dentro de um cinema italiano de género que lança apenas uma ou duas obras de cariz fantástico por ano – mas que tenta ainda assim revitalizar-se após décadas e décadas de filmes marcantes deixados por Mario e Lamberto Bava, Dario Argento ou Lucio Fulci. La valle dei sorrisi insere-se nessa genética cinematográfica, demonstrando preocupações e questões que são tanto fruto do seu tempo, como intemporais.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
paolo-strippoli-leva-la-valle-dei-sorrisi-a-veneza-horror-e-coming-of-age-sombrioO certo é que, apesar de não ser um filme brilhante ou totalmente original, La valle dei sorrisi tem a sua força e charme dentro de um cinema italiano de género que lança apenas uma ou duas obras de cariz fantástico por ano