Depois de uma incursão exemplar pelo drama com The Glass Castle (2017) e Just Mercy (2019), o havaiano Destin Daniel Cretton foi escolhido para integrar o grupo de cineastas da Marvel ao filmar uma versão esquecida — e esquecível — do herói conhecido, na década de 1970, como Mestre do Kung-Fu, hoje chamado Shang-Chi. Nem a presença de Tony Leung deu sobrevida a uma aventura em modo wuxia que desperdiçava as credenciais da personagem na banda desenhada, da mesma forma que o realizador agora desarruma por completo a mitologia do Homem-Aranha no filme mais aguardado da temporada de verão norte-americana de 2026. Apesar de divertido… e com eixos bastante comoventes… perde-se por completo perante a grandeza de algumas longas-metragens anteriores do herói, em especial a fase de Sam Raimi e No Way Home, de 2021. Não é um “produto” descartável. Tem vida… e ela pulsa-lhe nas veias. Mas as suas fragilidades, tanto técnicas como dramatúrgicas, berram. É uma escolha errada de realizador. É um descuido com a tradição da saga, iniciada em 2002 e atualizada várias vezes.

Cretton realiza mal as sequências de ação, é incapaz de manter a tensão nas perseguições e aposta numa fotografia demasiado bruxuleante — por vezes, extremamente escura —, num desacerto ótico de Brett Pawlak. Pouco aproveita também da matriz gráfica das revistas do vigilante na direção de arte, o que gera um distanciamento — até ao nível plástico — do legado da Marvel, ou seja, da banda desenhada que deu origem a tudo. A referência estética é a linha narrativa adotada pelo cinema a partir de Winter Soldier (2014), dos irmãos Russo. Pouco se ousa. Já o próprio Homem-Aranha, Tom Holland, abre-se a ousadias numa trama sobre o amadurecimento forçado pelas perdas. A sua interpretação é irrepreensível. O problema de Holland é ter Jon Bernthal ao seu lado, precisamente como Punisher, uma força bruta capaz de evocar a força do cinema popular da década de 1980, como Lethal Weapon e Die Hard.

Mistura de Bruce Willis e Mel Gibson, atravessada por inquietações da geração de Easy Rider, Bernthal apodera-se de um espetáculo que se preocupa menos com a ação do que com a busca do tempo perdido de Parker em relação aos seus amores… sobretudo Mary Jane Watson, que Zendaya constrói com sagacidade.

Idealizado para estrear na sequência do lançamento do n.º 1000 da revista mensal Spider-Man nos Estados Unidos, Brand New Day evoca o ambiente das bandas desenhadas do Homem-Aranha da década de 1960, apostando num argumento palavroso, que coloca vários vilões em cena — como o Scorpion e The Hand — para apostar num inimigo secreto, sem sal, e construir a intriga com a presença de uma heroína famosa de um supergrupo da Marvel. É melhor não revelar quem, para preservar o mínimo de suspense de uma narrativa morna. Só aquece quando o Punisher dispara.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
critica-a-spider-man-brand-new-day-preso-numa-teia-mornaCretton realiza mal as sequências de ação, é incapaz de manter a tensão nas perseguições e aposta numa fotografia demasiado bruxuleante — por vezes, extremamente escura —, num desacerto ótico de Brett Pawlak.