Há qualquer coisa de perversamente apropriado em que um filme sobre Alzheimer se interrogue acerca da forma como uma imagem sobrevive ao desaparecimento da memória. Tangles, primeira longa-metragem de Leah Nelson, parte de uma matéria-prima que tinha todas as condições para levar essa pergunta até territórios devastadores: Tangles: A Story About Alzheimer’s, My Mother and Me, o livro de memórias em banda desenhada no qual a canadiana Sarah Leavitt registou a doença da mãe, Midge, diagnosticada com Alzheimer aos 55 anos. O livro nasceu literalmente da urgência de não esquecer: Leavitt tomou notas e fez pequenos desenhos durante os anos de progressão da doença, convertendo depois esses vestígios numa BD autobiográfica. O problema desta adaptação é precisamente não saber libertar-se dessa origem. Nelson filma — ou melhor, anima — como se a fidelidade fosse uma virtude suficiente e como se respeitar a página significasse reproduzir a sua gramática. O resultado é um filme estranhamente obediente, ilustrativo, demasiado preocupado em parecer uma BD em movimento para descobrir aquilo que só o cinema poderia acrescentar-lhe.
Apresentado em Cannes, onde integrou as Sessões Especiais, Tangles acompanha Sarah quando o Alzheimer começa a apagar progressivamente a personalidade da mãe, obrigando-a a regressar à pequena cidade conservadora da família e a participar nos cuidados de Midge. É um material potencialmente dilacerante porque a memória aqui não desaparece de uma só vez: deteriora-se por parcelas, roubando palavras e gestos até atingir o reconhecimento e a autonomia. O próprio livro compreendia isso visualmente. Os desenhos minimalistas de Leavitt, a abundância de espaços vazios e as inversões entre preto e branco criavam metáforas para aquilo que a linguagem já não conseguia organizar.
Nelson herda esse vocabulário, mas raramente o reinventa. A animação a preto e branco conserva a secura do traço, porém transforma muitas vezes uma solução expressiva da página numa espécie de decoração de prestígio. É uma diferença essencial: na BD, a imobilidade obriga o leitor a preencher os intervalos entre imagens; no cinema, Tangles preenche-os por nós. Movimento, vozes, música, efeitos e duração vêm ocupar precisamente os vazios onde o original encontrava a sua violência. Quanto mais o filme tenta honrar a fonte, menos autonomia conquista.
Daí nasce a sua maior indecisão. Tangles nunca decide se quer mergulhar sem pudor no melodrama familiar ou assumir uma abordagem mais seca, quase clínica, sobre o funcionamento da memória e a brutalidade quotidiana de cuidar de alguém que começa a desaparecer diante dos nossos olhos. Há cenas que pedem silêncio e recebem sublinhado; outras aproximam-se de uma dor genuinamente áspera e logo procuram amortecê-la com humor ou ternura. A doença torna-se então um mecanismo narrativo de emoções programadas. Em vez de fazer da desorientação uma forma, o filme organiza-a.
É especialmente frustrante porque o elenco vocal possui matéria suficiente para algo menos domesticado. Abbi Jacobson encontra em Sarah uma hesitação convincente entre o amor e a culpa, enquanto Julia Louis-Dreyfus evita transformar Midge numa santa sacrificial e Bryan Cranston compreende a utilidade da contenção. O conjunto é numeroso — Beanie Feldstein, Samira Wiley, Pamela Adlon, Sarah Silverman, Bowen Yang e Wanda Sykes também participam — e, na maioria das vezes, percebe que a animação exige um trabalho de voz que não tente competir permanentemente com a imagem.
Seth Rogen parece ter recebido outro memorando. Como Zach, entra no filme trazendo consigo todos os maneirismos vocais que fizeram dele uma persona cómica instantaneamente reconhecível, mas aqui essa familiaridade funciona como sabotagem. Não ouvimos Zach: ouvimos Seth Rogen a fazer Seth Rogen. O timbre, a cadência e aquela elasticidade cómica tão eficaz noutros contextos parecem importados de outro filme. A sua Point Grey Pictures está entre as produtoras de Tangles, mas a presença vocal de Rogen constitui, paradoxalmente, um dos elementos que mais quebram a unidade tonal que Nelson tenta desesperadamente preservar.
Também a música de Dan Romer sofre do mesmo impulso de explicar. Quando a imagem deveria suportar sozinha o desconforto de uma lembrança que se dissolve, a partitura surge demasiadas vezes como autorização emocional: agora é permitido comover-se, agora deve sentir-se melancolia, agora há uma pequena janela de esperança. Num filme sobre a impossibilidade de controlar aquilo que fica e aquilo que desaparece, tamanho controlo sobre a resposta emocional do espetador é quase uma contradição conceptual. O Alzheimer não dispõe de banda sonora para avisar quando uma recordação está prestes a morrer.
É curioso que Tangles tenha reunido um elenco tão vistoso para contar uma história cuja potência reside justamente no desaparecimento. O livro de Leavitt entendia que a redução podia ser expressiva: um corpo, um gesto, uma sombra, uma página quase vazia. Nelson possui inteligência suficiente para reconhecer essa qualidade, mas não a irreverência necessária para traí-la. E adaptações realmente vivas precisam, em algum momento, de cometer uma infidelidade.
Tangles quer preservar a memória da mãe, a dor da filha e a estética da BD simultaneamente. Preserva tanto que acaba por embalsamar. Sobram boas intenções e um tema capaz de partir qualquer espetador ao meio. Falta cinema — aquele gesto de destruir a página para descobrir que imagens poderiam nascer dos seus pedaços.



















