A cantora brasileira Elza Soares na música A CARNE denuncia a violência sofrida pelo povo negro no Brasil, como podemos ver neste excerto:
“A carne mais barata do mercado é a carne negra. Tá ligado que não é fácil, né, mano? Se liga aí! A carne mais barata do mercado é a carne negra, só cego não vê. Que vai de graça pro presídio e para debaixo do plástico. E vai de graça pro subemprego (…) A carne mais barata do mercado é a carne negra, que fez e faz história segurando esse país no braço (…) e ainda guarda o direito de algum antepassado da cor brigar sutilmente por respeito, brigar bravamente por respeito, brigar por justiça”.
A missão da polícia na maioria dos países é proteger o cidadão. Contudo, no Brasil, parte dela, aterroriza, ataca, encarcera, violenta e mata pessoas inocentes ou supostamente consideradas perigosas pelas forças de segurança pública, e fazem isto com o apoio da elite brasileira. Pessoas em sua maioria negras e pobres, confundidas por ladrões, bandidos, assaltantes, etc.
Conforme os dados do Atlas da Violência, os negros são 77% das vítimas de homicídios no Brasil com uma taxa de 29,2 por 100 mil habitantes. Além disso, o risco de um negro ser assassinado é 2.6 superior ao de uma pessoa não negra. Entre os anos de 2009 e 2019, 623.439 pessoas foram vítimas de homicídio no Brasil, números que mostram que o país parece viver em constante guerra civil.
E este é o tema que envolve a história que Camila de Moraes reconstrói e dirige no documentário “O caso do homem é errado” (2017), a execução do homem negro, Júlio César. No filme, ela traz distintos pontos de vista de jornalistas que na época cobriram a trágica morte do operário gaúcho, assim como falas de familiares, de defensores dos direitos humanos e de outras pessoas em defesa da vítima e do povo negro. A documentarista, estreante em longas-metragens, se inspira na estética do cinéma verité de Jean Rouch, e fez da sétima arte um espaço militância contra o racismo. Ela é a segunda mulher negra a ter uma longa-metragem nas salas de cinema do circuito comercial no Brasil; a primeira foi Adélia Sampaio, nos anos 1980, com o filme “Amor maldito“. Camila é uma mulher negra de 33 anos, do Sul do país, radicada há cerca de 11 anos na Bahia, em Salvador; aprendeu desde cedo, e em casa, a se engajar em lutas contra o racismo.
O seu filme mostra, exemplifica a intervenção/execução policial e o genocídio negro, algo que, infelizmente, segue ocorrendo em terras brasileiras em plena luz do dia, algo naturalizado pela segurança pública e por uma sociedade excludente e racista, que tem ódio de negros e pobres. Diga-se de passagem, uma violência herdada dos governos ditatoriais e dos tempos da escravidão e que perdura na formação e estrutura da polícia brasileira; violência que tem se aprofundado no governo atual. Na visão do sociólogo brasileiro Jessé de Souza, “com a escravidão, o Brasil aprendeu a naturalizar a miséria e o sofrimento alheio, manteve sua sub-humanidade até os dias de hoje”; além disso, “Reproduzimos sob máscaras modernas os mesmos ódio e desprezo às classes populares que antes eram devotados ao escravo”.
No documentário feito por Camila, ela parte de um facto que aconteceu em 1987, um assalto e tiroteio que ocorreu num supermercado da capital gaúcha, Porto Alegre – Rio Grande do Sul (uma região, aliás, muito racista), momento em que Júlio César estava presente, sofreu uma crise epiléptica, foi confundido pela polícia como um dos assaltantes e acabou sendo executado. Caso que levou a um demorado julgamento, mas não a uma investigação e punição devida, como relatam alguns dos depoimentos do filme. Segundo eles, Júlio César era um cidadão de bem, um jovem, trabalhador, recém-casado. As imagens a seguir são de Júlio César quando se casou, e da sua esposa, que ficou viúva e ainda hoje clama por justiça.


Com relação a violência policial no Brasil, outro filme que aborda a temática, é “Pastor Cláudio” (2018) de Beth Formaggini. O protagonista, Claudio Guerra, um torturador confesso da época da ditadura, declara que neste histórico período o público alvo das forças de segurança pública eram os opositores de esquerda que lutavam e resistiam contra o Estado de exceção, e nos dias atuais é o povo negro e pobre, principalmente jovens. De acordo com ele, há um sistema seletivo que perpetua dentro das delegacias e prisões brasileiras. Uma polícia que não respeita os direitos cidadãos, que discrimina e massacra, como relata um dos depoentes do filme: “não há consciência de classe e origem, o que vale é a ideologia da corporação, que é de discriminação e dominação”. Sabemos que não é, ou não deveria ser, papel da polícia assassinar pessoas. No Brasil, inclusive, temos temor da polícia, não temos confiança nela.
Outro filme que retratou esta questão é “Ressurreição” (1988) de Arthur Omar. Na curta-metragem ele utiliza imagens de arquivos de jornais, dos editoriais de polícia, expondo a hostilidade policial dos anos 80 nas grandes capitais brasileiras. Imagens que revelam e questionam a banalização da morte causando uma forte sensação de desconforto no espectador. Arthur Omar traz a realidade à ficção, imagens de pessoas pobres e negras assassinadas pela polícia. Um tempo imortalizado pela fotografia, imagens que chamam a atenção para vidas de pessoas violadas e que não podem ser ressuscitadas, exceto pelo cinema e com o intuito de criticar e por em discussão tal crueldade. Uma polícia que agride, comete crimes e permanece impune. É urgente que haja uma mudança na formação policial no Brasil e que também haja punição para os crimes por eles cometidos.
Voltando a “O caso do homem errado“, destaco que é um documentário militante feito por uma diretora negra, que não dá voz a quem ataca inocentes, a quem monta supostas verdades e detém o poder. Urge que temáticas como esta, ocupem cada vez mais as telas do cinema e sejam pautas das discussões relativas a segurança pública, aos direitos humanos, as políticas sociais e raciais brasileiras. Encarceramentos, chacinas e matanças do povo negro e pobre não podem ser ignorados, eles não suportam mais serem vítimas de ações agressivas por parte de agentes do Estado e isto não pode ser legitimado pela sociedade.
Conforme as vozes do filme, Júlio César foi condenado/executado por ser negro. Além do desrespeito e brutalidade policial contra pessoas pobres e de pele preta, outra questão que o filme traz e é gritante no Brasil é o racismo, o preconceito contra pessoas negras. No nosso país, “O pobre é visto como marginal, e o pobre negro como criminoso”, como diz uma das vozes do filme “O caso do homem errado“.
Muitos jovens negros e pobres brasileiros são vítimas, são marginalizados, excluídos, presos e exterminados quotidianamente. As mães, os pais, os familiares vivem em constante temor e risco de perderem os seus filhos, medo de mais um negro ser apagado pela polícia, como declara uma mãe no filme de Camila.
Outro entrevistado relata que não há reparação do Estado pelas vidas retiradas do povo negro através das mãos da polícia, não há reparação nem mesmo financeira; embora saibamos que dinheiro não repõe a vida de ninguém e não é isto de facto que interessa as famílias que diariamente perdem seus filhos, principalmente, nas periferias das capitais brasileiras.
O povo negro merece respeito e humanidade, e como diz Elza Soares na letra da música citada no início desse texto: um povo que “ainda guarda o direito de algum antepassado da cor brigar subtilmente por respeito, brigar bravamente por respeito, brigar por justiça”.




















