Existe uma conexão perturbadora entre Light as Feathers (2018), longa-metragem de estreia de Rosanne Pel, e Donkey Days, o seu mais recente projeto, em competição no Leopardo de Ouro do Festival de Locarno.
Em Light as Feathers, Eryk, um adolescente de 15 anos, é criado num ambiente feminino dominado por três gerações de mulheres — mãe, avó e bisavó — onde a figura materna, manipuladora e emocionalmente possessiva, abalroa em permanência a sua identidade. Por isso mesmo, Donkey Days revela um eco dessa dinâmica, mas, ao invés de termos um adolescente preso no mundo da mãe, são agora duas mulheres adultas, Anna e Charlotte, que regressam à casa da matriarca, descobrindo que, apesar de todo o tempo que passou, não saíram da teia da mãe, uma figura narcisista que sempre estimulou a competição entre as duas.
Embora pareça que estamos perante duas caras da mesma moeda, em Light as Feathers o foco está na formação destrutiva da identidade, de alguém que, pela educação, não consegue fazer distinção entre amor e domínio; enquanto em Donkey Days vemos as consequências duradouras desse relacionamento tóxico. Isto é algo que a cineasta holandesa leva até ao espectador com arrojo estético de cinema sensorial, refletindo — até à náusea — sobre o caos emocional instalado, seja via o terreno do real, onde as fricções transformam-se em confrontos, seja no espaço do onírico, quando somos levados com as irmãs a visitas à mãe quando mais jovem.
No centro de tudo está o regresso de Anna e Charlotte para celebrar o 85.º aniversário da mãe. O reencontro está longe de ser pacífico e, na verdade, desencadeia uma espiral crescente de tensões antigas e memórias reprimidas. É através da construção das personagens que Rosanne estabelece os ditames do conflito, apresentando Anna (Jil Krammer), a irmã mais nova, de forma mais vulnerável, enquanto Charlotte (Susanne Wolff) esconde na contenção muitas feridas psicológicas também por sarar.
No topo da pirâmide familiar está Ines (Hildegard Schmahl), uma figura dominante que alimentou a dependência emocional das filhas e impulsionou a competição entre si, até aos mais ínfimos detalhes, como um anel que deu a uma delas porque esta se abraçou a ela.
À medida que o fim de semana avança, o ambiente familiar deteriora-se, particularmente quando se descobrem alguns segredos caricatos, como a existência de um burro que vive numa quinta húngara que Ines financia há vários anos — perfazendo qualquer coisa como 12 mil euros em gastos.
Afastado de qualquer conforto cinematográfico e com uma tendência para repetir dinâmicas em busca da confrontação, Rosanne Pel prende o espectador numa experiência imersiva, fazendo-o sentir em primeira pessoa a ansiedade prolongada das irmãs. O filme consolida-a como uma realizadora profundamente focada nos laços familiares tóxicos e no abuso emocional. E nisso, há, certamente, uma dívida para com Ulrich Seidl — no olhar impiedoso sobre a família e no humor inquietante —, mas, na estética crua, repleta de grão, e nos movimentos bruscos de imagem e som, Pel tenta forjar o seu caminho, intenso e desassossegado, que espelha fielmente o labirinto de afetos e desafetos que se desenrola diante dos nossos olhos.
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