Laís Bodanzky: a resiliência diante do bicho de sete cabeças da crise brasileira

Foto por António Brasiliano

(Fotos: Divulgação)

Num empenho constante para ajudar politicamente o cinema brasileiro a seguir para o alto e avante, para o infinito e além, nesta pandemia, no cargo de presidente da Spcine, Laís Bodanzky, premiada realizadora de “Chega de Saudade” (2007) e , tem ainda um filme novo para terminar: “A Viagem de Pedro”, com Cauã Reymond como D. Pedro I. O projeto não sai da lista dos títulos brasileiros mais esperados do momento, não só pelo carisma de Cauã, não apenas pela curiosidade acerca dos dilemas existenciais do regente que deflagrou a independência do Brasil, mas (sobretudo) por todo o prestígio que Laís alcançou desde “Como Nossos Pais“, lançado na Berlinale de 2017.

É grande a responsabilidade dela na presidência da iniciativa lançada em 2015, pela Prefeitura de São Paulo, por meio de sua Secretaria Municipal de Cultura, materializada como uma empresa de audiovisual responsável pelo desenvolvimento, financiamento e implementação de programas e políticas para filmes, TV, videogames e novas médias.

E também é grande a peleja dela para esculpir uma história de Pedro com a exuberância (existencial) característica da sua obra. Obra essa que será celebrada com uma distinção honrosa no 48º Festival de Gramado, agendado de 18 a 26 de setembro, online e na televisão, no Canal Brasil. Ao receber de Gramado o Troféu Honorário Eduardo Abelin, a cineasta vai estar, de quebra, comemorando os 20 anos da longa que lançou seu nome, mundialmente, como um sinónimo de excelência do audiovisual latino-americano, no estudo do quotidiano: “Bicho de Sete Cabeças” (2000). Indicada ao Leopardo de Ouro de Locarno, a produção (que, em sua génese, contou com o apoio de Marco Mueller, ex-diretor de Roterdão, de Locarno e Veneza) partiu da literatura confessional de Austregésilo Carrano, no livro “Canto dos Malditos”. A sua trama revê (e revela) o sistema manicomial em seu país ao narrar a devastação da vida de um jovem internado à força pelo pai, em uma instituição de saúde mental, por fumar maconha (Cannabis). Coroado com 45 prémios, o filme comprovou para a indústria cinematográfica brasileira o talento de Rodrigo Santoro, à época aspirante a estrela na TV.

Nesta entrevista ao C7nema, Laís revisita cada passo da feitura de “Bicho…”, dá as atuais diretrizes do seu filme com Cauã e conjuga o verbo “resistir” na primeira (e resiliente) pessoa do plural da sua nação, que luta para manter seu cinema vívo.

Bicho de Sete Cabeças” vai comemorar duas décadas em novembro. O que a experiência daquele filme mais te ensinou sobre a arte de filmar?

Eu não tinha me apercebido que o “Bicho” completa 20 anos agora em novembro. A sensação que dá é de que foi ontem. Ao mesmo tempo, olho e vejo quantas coisas aconteceram na minha carreira, os outros filmes que fiz, e o quanto, de fato, o “Bicho” é o fundador de uma assinatura e de uma forma de ver e fazer cinema. Mesmo nos outros filmes – acredito que com temáticas e conteúdos distintos-, ele está dentro. De alguma forma, ele aparece. Fico muito feliz de lembrar dessa experiência, que era a primeira longa. Não só meu, mas da maior parte da equipa. Eles estavam ali vivendo a primeira experiência de uma longa. O próprio Rodrigo Santoro, também. Ele estava ali vivendo um protagonista num filme pela primeira vez. A lembrança que tenho das filmagens, apesar de ser um filme ardido, é muito gostosa e prazerosa. Todo mundo fez com garra e era um prazer estar ali e narrar essa história. Sabiamos que era uma história importante, mas ninguém tinha ideia dos desdobramentos desse filme. Ele foi feito com carinho e acho que isso imprimiu na tela. Dessa experiência do “Bicho”, o que carrego comigo para sempre é o respeito para com a história que vai ser contada. Sempre soube que faria poucos filmes na minha vida. Não que fosse trabalhar pouco, mas filmes com assinatura, eu já sabia desde sempre que, na vida, não dá para se fazer tantos. Aprendi, sobre a arte filmar, principalmente, a olhar para o personagem. Acho que, no “Bicho”, ficou claro para mim o quanto o meu cinema é pautado no universo interior das personagens. Por mais que eu tenha uma jornada do herói, e tenha viradas, o que mais, de facto, sinto que salta da minha cinematografia é o respeito pelas complexidades das personagens. De eles não serem planos, de serem errados também. Na natureza não existe uma linha reta. Respeitar isso é importante e, em cada filme, venho lapidando isso, que percebi no “Bicho”. É isso que comove o público muitas vezes.

Que lição sobre contar histórias veio dali?

A experiência de filmar o “Bicho” fez-me compreender que a escolha da história é fundamental. Preciso ter a certeza absoluta da história a ser contada. Se não souber que quero contar essa história de qualquer maneira, porque ela me comove por algum motivo, não vou conseguir cumprir aquela maratona inteira da realização de um filme. Cumprir no plano emocional, no financeiro, na complexidade, nas questões, nos problemas que surgem, porque sempre surgem, é natural. Não existe um projeto em que você não tenha problemas. Aliás, acho que o filme melhora, justamente, quando você enfrenta os problemas de frente. Eles vão vir, é natural e é bom que venham. Às vezes, um filme com mil peripécias, na hora diverte-te, mas, no dia seguinte, você não acorda com ele ou ele não te modifica de alguma forma. Isso não é uma regra, mas o cinema que me comove é, na maior parte das vezes, aquele no qual me sensibilizo com a personagem. Aqueles filmes nos quais vejo uma pessoa de verdade na minha frente e tenho a chance de compartilhar com ela seus sentimentos, duvidas, inseguranças, medos e conquistas. Foi no “Bicho”, também, que entendi que, quando decido fazer um filme com assinatura, tenho que respeitar essa assinatura. Respeitar no sentido de que a referência para fazer o projeto é a minha própria história, a minha trajetória, o meu olhar para o mundo, o meu ponto de vista. É importante assumir um discurso ou uma fala correndo riscos, mas assumindo-os. O “Bicho” é uma coprodução com Itália. Na época, o Marco Mueller, que leu o roteiro, chamou-me para um café da manhã, para fazer o convite de ele ser uma coprodução com a Itália e fazer toda a finalização lá. Foi muito emocionante, naquele momento, uma pessoa do porte do Marco fazer esse convite para uma realizadora estreante. Criou uma expectativa em mim de querer corresponder a expectativa dele. Lembro de chegar para ele, já com o projeto andando, e dizer: “Vou usar como referência isso, isso e isso”. Eu enchia o Marco de referências e ele falou: “Laís, tudo bem essas referências, mas acho que a melhor referência para esse filme é o seu próprio filme de curta-metragem, ‘O Cartão Vermelho’. Eu assisti, é muito bom e é você. Você deve usar o seu curta como referência para fazer o seu longa, no sentido da linguagem e do fazer cinema”. Ele estava querendo dizer: “Seja você mesma”. Não precisa ficar se comprovando através de outras cinematografias qual é a sua.

E o que o “Bicho” te ensinou sobre a representação da juventude?

Foi no “Bicho” – a história de um jovem – que entendi um pouco mais do universo da adolescência. Um universo ao qual voltei várias vezes em muitos projetos, tanto no teatro, quanto no cinema. No teatro, em “Essa Nossa Juventude”, e no cinema, com “As Melhores Coisas do Mundo”. Sempre gosto de dizer que o “Chega de Saudade” é um filme de adolescentes com cabelos brancos. Entender as fases da vida, o que as caracteriza e quais são suas questões, é algo que me instiga. Mesmo em “Como Nossos Pais”, o meu conhecimento sobre o universo da adolescência foi fundamental. Acho que, a cada filme que passo, entendo um pouco mais isso. E o “Bicho de Sete Cabeças” foi a introdução deste tema. Apesar de que, o Marco Mueller disse que esse meu interesse começou no “Cartão Vermelho”: história de uma adolescente também.

Que tabus do cinema brasileiro o “Bicho” revelou?

Não sei dizer quais são os tabus do nosso cinema. Naquele momento do “Bicho”, tinhamos uma insegurança se iria conseguir os recursos. Não tinhamos essa trajetória dos 20 anos que temos hoje, não havia uma Agência Nacional de Cinema, nem um fundo setorial. Na época, não havia muita porta para se abrir. Foi muito difícil levantar o dinheiro para o “Bicho de Sete Cabeças”. Mas essa coprodução com a Itália foi fundamental. Tinha um preconceito grande com o tema (a cena manicomial a partir da vivência de um jovem internado à força pelo pai depois de fumar maconha) e as empresas não queriam investir através da Lei do Audiovisual, porque achavam que iriam associar o nome delas a um assunto difícil. Tinha essa visão antiga do que é fazer um investimento em uma obra cinematográfica. Acho que hoje, isso mudou. Está mais claro que a nossa sociedade é audiovisual e que todas as histórias precisam ser contadas.

Que Brasil podemos encontrar em seu “Pedro” e o quanto ele dialoga com a sua perceção do Brasil atual?

O filme agora está com o título de “A Viagem de Pedro”. Ele é um recorte. A história passa-se numa viagem de barco, da volta do D. Pedro I para a Europa. Ele sai praticamente expulso do Brasil, durante uma grande crise política e pessoal. A viagem passa-se nesse barco, mergulhando nesse universo interior dele. É um filme de personagem, que fala muito mais do Pedro do que exatamente do D. Pedro I. Por isso, o título. Na hora que você pega uma personagem e coloca numa época e em uma situação X, você está falando dessa época e dessa situação X. Estou, sim, fazendo isso, pois não tem como você não mostrar o Brasil daquele momento. Que barco é esse em que ele vai? Ele vai num barco inglês. Precisa mudar para a Europa, indo embora e deixando a história dele, no Brasil, para trás. O que ele leva? O que fica? O que vai? Essa saída, essa reflexão sobre o que vai e o que fica, a correria já contam muito do Brasil da época. Com isso, dá para se fazer um paralelo com os dias de hoje. Uma das coisas que chamam a atenção é que, quando ele vai, leva consigo um grupo de escravizados. Essas personagens são importantes nessa travessia dele. Acho que revelam um pouco do que vivemos hoje, dessa história que não foi resolvida até hoje, de que a escravidão acabou. Algo que não é verdade. Tivemos, durante a pandemia, esse movimento antirracista no mundo. O filme não tem essa pretensão de dialogar com esse tema, mas o assunto está lá. Ele faz parte do nosso país, fazia e continua fazendo. Um dos temas é esse, também está lá. Você pode analisar o filme por vários prismas. Já mostrei o filme para algumas pessoas, ainda vou fechar ao corte final, mas está muito perto de estar pronto. As pessoas comentam exatamente sobre isso. Acho que nós estamos todos à flor da pele com essa temática, querendo entender, rever, fazer a autocrítica da nossa História, onde nós estamos, qual o Brasil queremos e como queremos. De certa forma, o filme mostra isso. Mas é difícil falar dele, durante o processo. A personagem do D. Pedro é interessante na hora que tiramos essa fantasia de imperador, para revelar que o “rei está nu”. O filme mostra um pouco isso, esse rei nu.

Que caminhos você vê o cinema brasileiro tomar neste atual contexto de pandemia e de outras vicissitudes que vivemos?

Estamos a viver a pandemia. É difícil falar exatamente para onde estamos caminhando. Estamos no olho do furacão e querendo sobreviver a tudo isso. Para o audiovisual brasileiro, está tudo muito complexo e muito difícil, pois ele já vinha de uma crise anterior. Recebemos essa pancada da pandemia num setor que recebe uma crise e um não reconhecimento da sua importância económica e simbólica por parte do governo federal. Esse não reconhecimento abalou e puxou o freio de mão de forma muito radical em uma indústria que vinha, e continua, muito forte. Como ela é forte, freá-la não é simples, pois ela não pára tão rápido. Mas veio a pandemia e obrigou-nos a parar, literalmente, uma vez que não poderíamos ligar uma câmara e ter um set de filmagens a funcionar. Agora já retomamos e começamos a entender como é que se liga a câmara outra vez e o impacto financeiro que vem com isso.Estamos num processo de descobrir a narrativa, a dramaturgia, a produção e de onde vem esses recursos. Vivemos um momento em que as plataformas de streaming estão sendo muito importantes para a manutenção mínima de produção em andamento para essa indústria não fechar. Isso é muito bom, mas é também delicado, pensando no ponto de vista da propriedade intelectual. Os produtos das plataformas de streaming, na sua maioria, pertencem à plataforma e um país não pode não ter propriedade intelectual dos seus produtos. Ficamos completamente vendidos e vazios, sem ativos. Isso é muito delicado e entra, sim, no âmbito na política pública, que é importante para defender um setor. Qualquer país é assim. Precisas defender o setor do próprio país, para que ele sobreviva e tenha o seu reconhecimento. Precisamos ter esse reconhecimento financeiro do ponto de vista da propriedade intelectual.

Depois de “Pedro”, quais são seus próximos movimentos na direção?

Ainda não tenho como te falar quais são os próximos passos depois do “Pedro”, porque ainda estou nele. Qualquer coisa que te falar, pode ser que amanhã seja outra coisa. Posso te dizer que não tenho nenhum projeto em andamento. Hoje, estou na Spcine e estou, com muita calma e delicadeza, com pressa zero, desenvolvendo e pensando um projeto de longa metragem. Penso nisso apenas nas horas vagas, que são poucas. Eu recebi esse reconhecimento e homenagem do Gramado com muita alegria, por entender que ele contempla tudo o que fiz até agora – tanto do ponto de vista da minha produção artística como da minha postura de atuação política cinematográfica.

Não se faz cinema sem fazer política cinematográfica. Uma coisa está grudada na outra. Sempre me senti atuante nesses dois caminhos. Receber essa homenagem é muito estimulante neste momento em que vivemos essa crise de reconhecimento da cultura por um país. Crise à qual a pandemia veio se somar. É um momento muito delicado. Há muita gente com a geladeira vazia. Só espero contribuir cada vez mais para o nosso cinema. Desde a faculdade, produzo e faço política cinematográfica. Recebi essa homenagem como um selo de qualidade. Sigo com mais força e alegria, mesmo na dificuldade. Carrego todo o setor comigo nessa homenagem.

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