As separações conjugais com invariáveis cenas de grande intensidade dramática e muitas vezes repercussões judiciais, vindas das mais distantes paragens, como aquelas em Scenes from a Marriage (1973), que viria a inspirar Marriage Story (2019), além de filmes como Kramer vs. Kramer (1979), Jusqu’à la garde (2017), A Separation (2011) e The Squid and the Whale (2005), têm sido um dos focos do cinema contemporâneo (e até servem para assustar lobos*), a que agora se junta agora L’isola di Andrea (2025), de Antonio Capuano, que dá voz a uma criança de oito anos para refletir a sua dor perante a disputa dos pais pela sua guarda.
Misturando realidade e fantasia, inspirando-se no relato de uma separação real onde um filho único estava no centro de um turbilhão emocional do mundo dos adultos, o cineasta italiano imaginou uma história ficcional contada a partir de três perspectivas, onde um casal separado, Marta e Guido, luta pela guarda do filho Andrea, de oito anos. O tribunal é uma extensão do campo de batalha, com cada uma das figuras esgrimindo argumentos e explicando porque não é possível eles mesmo chegar a um consenso após uma relação turbulenta que atravessou negligências emocionais, traições, além de recorrentes atitudes reveladoras de uma enorme toxicidade.
Apostando por se deslocar por poucos cenários, recorrendo a luz natural e muitos close-ups dos rostos, olhos e mãos, rasgados por pequenos momentos de fuga surreal, Capuano cria um objeto de memórias fragmentadas que são contadas pelos intervenientes a uma juíza a partir de diferentes visões do que aconteceu até chegarem ali. Displicências e egoísmos vários fazem parte do cardápio, com a dupla a investir toda a energia numa disputa onde o cineasta busca autenticidade, mas nunca realismo. Por isso mesmo, e nos momentos de maior frustração emocional das suas figuras, Capuano entra frequentes vezes no terreno do delírio, como que mostrando que os diversos sismos internos e as suas réplicas criaram tsunamis emocionais de manifestação externa que atingem frequentemente o pequeno Andrea, que no meio de tudo isto tem a sua vida suspensa pela incapacidade dos adultos se entenderem.
Desde o início o espectador é confrontado com uma juíza que tentar filtrar os substantivos e adjetivos que farão pender a balança da justiça para o melhor interesse do miúdo, enquanto Capuano recria as cenas da vida do casal a partir das suas visões unilaterais.
A infância tem sido objeto do olhar de Capuano desde Vito e gli altri (1991), com La guerra di Mario (2005) a constituir o expoente máximo dessa observação, ao mostrar um jovem retirado da casa da mãe abusadora e entregue aos cuidados de um casal. Em L’isola di Andrea, o cineasta napolitano regressa a esse universo ao retratar o caos de um processo de separação judicial tortuoso e interminável, marcado por uma acumulação permanente de contradições que fazem crescer um ódio que rapidamente adultera a percepção e a interpretação dos factos. Nesse sentido, Capuano recorre frequentemente a imagens deturpadas que evocam um estado de transe, mas também sons ensurdecedores que parecem querer mostrar um ruído mental. Esses sentidos, adulterados e cegos pelo ódio e ciúme, desencadeiam manifestações físicas de iminente sensação de tragédia à beira da esquina.
Teresa Saponangelo e Vinicio Marchioni são os dois atores que dão vida e intensidade a este drama sombrio onde o nervosismo acompanha o espectador à medida que o debate se intensifica. É que, se o tribunal busca uma resolução, aquilo a que temos acesso deixa-nos sempre com a sensação de irresolução e que tudo só pode acabar muito mal. E assim, mais que a anatomia de uma separação temos a autópsia da mesma, onde as neuroses funcionam como afluentes caudaloso a caminho de um rio prestes a transbordar e a transformar os indivíduos em algo que nunca imaginaram vir a ser.



















