Consagrado mundialmente com o sucesso de “A Negação do Brasil” (2000), um dos pilares da luta antirracista nas veredas documentais, Joel Zito Araújo impôs o seu nome como realizador também na ficção, ao rodar “Filhas do Vento”, que deu-lhe o Kikito de melhor direção no Festival de Gramado, em 2004. Desde então esboçou uma série de projetos numa linha afetiva de dramédia ou de melodrama, sempre preocupado com a afirmação cultural das populações negras, mas teve a chance de emplacar uma série de documentários na sua estrada. “Meu Amigo Fela”, lançado no Festival de Roterdão de 2019, é o mais badalado deles. Mas, agora, no apagar das luzes de 2021, o cineasta regressa com uma nova longa-metragem de narrativa ficcional, mas bem amparada na realidade: “O Pai da Rita”.
Esta noite no Brasil, a produção entra em competição pelo troféu Redentor no 23º Festival do Rio, em projeção no Cinépolis Lagoon, às 20h30 (23h30 em Lisboa), apoiado no carisma de um elenco formado por Ailton Graça, Wilson Rabelo e Jéssica Barbosa. Na trama, fotografada pelo “craque” da luz Lauro Escorel, Roque e Pudim, compositores da velha guarda da Vai-Vai, partilham uma quitinete (do inglês kitchenette – pequeno apartamento), décadas de amizade, o amor por uma escola de samba e uma dúvida do passado: o que aconteceu com a passista Rita, paixão de ambos. O surgimento de Ritinha, filha da dançarina, e as sombras do compositor Chico Buarque, ameaçam desmoronar essa grande amizade. Tem mais uma projeção da longa no evento neste domingo, às 16h30 (19h30 em Portugal), no Estação NET Botafogo. A seguir, Joel Zito amplia suas reflexões sobre família, sob a ótica de seus personagens.
Qual é a figura de “pai” que o seu filme tenta construir, em meio aos seus dois protagonistas?
Veja bem, a origem do argumento é um trauma nacional (e não só): a ausência paterna na vida de muita gente. E você verá que este tema ronda várias personagens do filme. Naturalmente, para quem acompanha a minha cinematografia, trata-se de uma série de personagens negros. Mas eu queria, assim como em “Filhas do Vento”, fazer um filme de redenção, uma comédia (acho que) romântica. Portanto, subverto o trauma com a história de dois homens negros superamigos, na meia-idade, boémios, que não constituíram família, e que, um dia, desconfiam que são pai de uma moça e começam a brigar por esta paternidade. Ou seja, não é uma história de recusa, mas de luta por ser pai. Eles são, portanto, amorosos, apaixonados por essa potencial cria.
Como foi a experiência de regressar à ficção depois de quase 15 anos no registo do documentário?
Eu, neste período, fiz alguns curtas ficcionais, mantendo o exercício com atores e atrizes. E trabalhei no roteiro de três ficções que, até hoje, não consegui dinheiro para rodar. Esta distância de uma ficção para a outra foi, portanto, alheia à minha vontade. Eu adoro o set com atrizes e atores, com um ambiente de criação ficcional, diferente do documentário. Aliás, adoro ambas as possibilidades de experimentar o mundo através do cinema. E o regresso à ficção foi tranquilo e prazeroso. Acho que amadureci muito desde então. Você e o público é que dirão se houve amadurecimento.
Que arquétipos masculinos o seu filme constrói apoiado no carisma de Ailton Graça e de Wilson Rabelo?
A maior inspiração dos dois personagens foram o Gordo e o Magro (Stan & Ollie). Um é atrapalhado e espalhafatoso. O outro é pretensamente um lorde, mas muito atrapalhado também. São dois homens de outra geração, meio malandros, românticos, amorosos, irresponsáveis e levemente machistas. Mas você verá que é um filme com personagens femininas muito interessantes e fundamentais na narrativa. Eu me inspirei no mundo do samba. É o mundo das escolas de samba, em que este tipo de estereótipo masculino é muito cultuado. Encontrei muitos assim na vida, nas periferias urbanas, e agora na Vai-Vai, a tradicional escola de samba paulista que é homenageada pelo filme, e que me deu o maior apoio.

