As paisagens bucólicas de uma Irlanda verdejante, sob a lente sombria e fria do diretor de fotografia Nick Cooke, são um campo de batalha prestes a ser marcado pelas cores do sangue de duas famílias nesta impressionante estreia de Christopher Andrews na realização. 

Com uma abordagem visceral ao trauma, legado e a uma masculinidade fragilizada, Andrews emula nas paisagens irlandesas muito do que vemos nos cinema de Jeremy Saulnier, Jeff Nichols e Taylor Sheridan, escusando-se a separar as águas entre bons e maus, mas revelando, cena a cena, o melhor e o pior que existe em cada uma das personagens, ora pressionadas pelas próprias famílias e expetativas que se têm delas, ora por uma sociedade capitalista que divide o mundo entre winners e loosers. São temas que, de uma forma ou outra, já tinham sido tocados de alguma forma nas curtas anteriores do cineasta (Stalker, 2019; Fire, 2015; e Together Again, 2009), mas que aqui ganham particular intensidade, num filme sempre marcado pelo pulsar da banda-sonora composta por Hannah Peel, e pela tensa montagem de George Cragg.  

No centro desta obra de atmosfera permanentemente plúmbea, em todos os seus 105 minutos, está Michael O’Shea (Christopher Abbott), um homem que carrega nele uma violência contida,  que tem uma relação difícil com o pai, Ray (Colm Meaney), que mal consegue andar. Ambos sobrevivem da pastorícia e, como tal, quando dois dos seus ovinos são dados como mortos, mas afinal foram roubados, despertam atritos com Gary (Paul Ready), um vizinho que agora tem uma relação com Caroline (Nora-Jane Noone), ex-namorada de Michael, e o filho de ambos, Jack (Barry Keoghan). Pelos entretantos, o estranho caso de ovelhas e carneiros a quem são cortadas as patas, adensa uma narrativa que, sempre em crescendo, vai desembocar numa explosão de violência, num mundo onde a sensibilidade é sempre vista como fraqueza. E um exemplo dessa visão sobre a fraqueza é a forma como o sensível, mas sobre a capa de durão Jack, tenta abordar a eminente separação dos pais, sendo rebaixado por um primo que, a pés juntos, jura que uma ação de extrema violência é um ritual de passagem à idade adulta de formação de um Homem.

Apoiado por interpretações seguras, Christopher Andrews constrói assim um filme de extrema intensidade, sempre imprevisível e que revela, ao seu jeito, também ele a uma “História de Violência” que não deixará ninguém incólume. 

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
bring-them-down-uma-historia-de-violenciaCom uma abordagem visceral ao trauma, legado e a uma masculinidade fragilizada, Andrews emula nas paisagens irlandesas muito do que vemos nos cinema de Jeremy Saulnier, Jeff Nichols e Taylor Sheridan, escusando-se a separar as águas entre bons e maus