Passados 27 anos da sua primeira incursão na realização de longas-metragens de ficção (“The Brave”), Johnny Depp regressa ao posto de cineasta, depois do calvário judicial enfrentado na sua separação da atriz Amber Heard, com uma narrativa vicejante, cheia de experiências formais, baseada numa peça teatral escrita por Dennis McIntyre sobre o pintor e escultor italiano Amedeo Modigliani (1884-1920). Assumiu o projeto por sugestão de Al Pacino, o seu parceiro de cena em “Donnie Brasco” (1997). O eterno Serpico faz parte do elenco de Depp com direito a sequências luminosas de embate com o protagonista, Riccardo Scamarcio (num desempenho maduro). A montagem frenética estruturada por Mark Davies é o principal trunfo do intérprete de Jack Sparrow na criação de um filme inquieto, movido por uma estratégica dramatúrgica de ticking clock, ou seja, de corrida contra um relógio que marca 72 horas na vida de um artista plástico eternizado pelas suas figuras femininas de anatomia longilínea e olhos tristes.
“Modi – Three days on the Wing of Madness” instaura-se na Europa da I Guerra, numa Paris temerosa das sequelas do conflito nas trincheiras, afogada em litros de vinho barato e nas cartas de intenção dos movimentos modernistas. Fala-se recorrentemente no argumento de Mary e Jerzy Kromolowski em “fim de uma era” e em “o mundo está a acabar”. São falas que cartografam um rodar da chave no motor da História, com o engatinhar do século XX e as suas formas de expressão mecanicistas. Não por acaso, Depp faz uma (sagaz) alusão ao alvorecer do audiovisual, emulando referências do chamado Primeiro Cinema, do Cinema Mudo, numa série de sequências cómicas de fuga que lembram Charlie Chaplin.
Numa fase ébria e paupérrima, Modigliani (Scamarcio) precisa fugir da polícia após se meter numa confusão numa taverna, num momento hilário, que testa limites da cor na fotografia de Dariusz Wolski e Nicola Pecorini. Na correria que assistimos, Modi (apelido da personagem central) fere a mão e carrega a sua marca como um estigma nada sacrossanto não da pobreza, mas do seu voto pela liberdade plena. A sua jornada – num enredo que apenas pincela dados biográficos da trajetória real desse ás das tintas – circunda a luta pela manutenção dessa sua autonomia em meio à peleja por dinheiro – e por visibilidade.
Pacino entra em cena como o colecionador Maurice Gangnat, burguês nato fiel a um lema: “Tudo tem um preço”. Modi responde-lhe: “Eu, não”. Os dois esgrimam com a espada da retórica num trecho feroz da produção no qual Depp parece exorcizar as suas próprias feridas e as escolhas que lhe deram fama nos anos 1990, antes de ser o pirata Sparrow. Naquela época, em vez de ceder à tentação dos blokbusters, ele recusou “Apollo 13” (1995), de Ron Howard, e preferiu manter-se fiel a cineastas de risco, como Emir Kusturica e Jim Jarmusch, além de ter se arriscado a filmar (com Marlon Brando) o tristíssimo “The Brave”. Aquela rebeldia dos seus tempos joviais, contrabalanceada pela sua seminal parceria com Tim Burton (a se destacar “Ed Wood”), pulsa com maturidade em “Modi”. É um filme elétrico, isento da naftalina habitual dos portraits de época, aberto a uma banda sonora contemporânea, com ecos de Tom Waits.
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