Evaldo Mocarzel, o arquiteto do inesperado nas ‘good vibes’ das artes cênicas

(Fotos: Divulgação)

Seja pelo emprego recorrente da cedilha em seus vocativos carinhosos, tipo ‘Brodaço, e aí?’ ou ‘Rodrigaço, como está?’, seja por uma utilização quase zen do anglicismo “vibe” (vibração) para se referir a seu estado de imersão nos projetos, Evaldo Mocarzel virou um folclórico espécime da sua geração. Uma geração que inseriu-se na cultura e no jornalismo no Brasil da década de 1980, criando voz artística na percepão e na reverência às diferenças. O seu “À Margem da Imagem” (2003) é um tratado sobre a invisibilidade. Aos 60 anos, o realizador que explodiu aos olhos da crítica do seu país com “Do Luto à Luta” (melhor filme no CinePE 2005), construiu, de 1999 para cá, uma obra das mais prolíficas. Teve que criar um canal no Youtube para dar vazão à sua potência. Foram 38 filmes em 21 anos, além de séries para TV e peças como “RG” (2004) e “Fome de Notícia” (2010).

Esse terreno do teatro é o que mais e melhor acolheu as suas inquietações audiovisuais. Esta noite, na sua penúltima edição, o seminário online Na Real_Virtual vai-se debruçar sobre a sua trajetória, com foco no seu diálogo com os palcos, filmando trupes de prestígio. A conversa acontece às 19h (22h em Portugal), organizado sob a curadoria do crítico Carlos Alberto Mattos e do diretor Bebeto Abrantes, produzido por Marcio Blanco da Imaginário Digital. A conversa entre os curadores e ele será apresentada via web na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, que soma cerca de 250 ouvintes inscritos por noite.

Nesta quarta-feira, o simpósio vai debruçar-se sobre Evaldo, usando uma das suas longas, “A Última Palavra é a Penúltima”, de 2012, como abre-alas. Trata-se de um resgate da intervenção urbana que os grupos Teatro da Vertigem, Zikzira e LOT, do Peru, fizeram numa galeria subterrânea abandonada no centro de São Paulo, em 2008. Na entrevista a seguir, Eval… ou melhor, Evaldaço faz um balanço dos seus procedimentos de linguagem.

A sua trajetória documental tem muitos vértices, mas o teatro tornou-se o veio predominante no seu discurso documental. O que você garimpa nessa confluência do audiovisual com as artes cénicas?

Em 2006, acompanhei o Teatro da Vertigem na criação de “BR3”, uma peça encenada ao largo da extensão do Rio Tietê, em São Paulo, e fiquei louco. Ali entrei numa vibe de filmar a conceção de um espetáculo. Fiz uns 25 filmes sobre diferentes processos de construção coletiva de teatro. O que o documentário permite é um esgarçamento das pesquisas dessas trupes. Um gesto, no palco, por vezes, leva meses de experimentação. Quando eu debruço-me sobre o que está sendo experimentado, alinho-me ao que se chama um âmbito académico de “crítica genética”, ou seja, o estudo dos processos de criação em paralelo àquilo que resultam deles. O processo de criar plasmado à peça dele decorrente, faz irromper as potências do real.

Em que ponto esses seus documentários são sociologia e em que ponto fogem das ciências sociais?

Sempre tive um olhar dramatúrgico sobre mundos aos quais não tinha acesso, fosse o das parteiras da Amazónia, fosse o das Quebradeiras de Coco, fosse o de moradores de rua ou o de catadores de material reciclável. No teatro, ao falar dele, a vibe sociológica que você  deteta vem dos próprios grupos que escolhi documentar. Grupos atuantes em residências artísticas erigidas em áreas abandonadas pelo Poder Público. O meu desejo é extrair toda a poesia agónica que existe em territórios de abandono. Carlos Alberto Mattos, ao falar desses filmes, menciona ‘arquitetura do acaso’. Eu prefiro pensar que faço uma ‘arquitetura do inesperado’. O Acaso é uma entidade mais inatingível. O Inesperado é arquitetável.  

Qual é a importância da palavra numa estética documental que investiga a representação cénica?

O teatro é o templo da atriz, do ator e da palavra. Mas o meu desafio nessa imersão é fugir da palavra reiterativa e expositiva. Trabalhando com o diretor Antunes Filho, aprendi com ele que “A ação é o pensamento no teatro”. A ação deflagra o pensamento em gestos autoexplicativos que não dependem da palavra, mas a atravessam.

O quanto da experiência do jornalismo impregnou o seu cinema?

Trabalhei, quando jovem, em “O Fluminense”, onde escrevia uma seção de Cinema de segunda a domingo. E fui editor do Caderno 2 do “Estado de S. Paulo”, trabalhando com uma galera [malta] brilhante, como Ubiratan Brasil, Luiz Carlos Merten, Luiz Zanin Oricchio. Mas sinto que fui injusto com o Jornalismo, pois rejeitei-o um pouco, chegando a dizer que era um jornalista fake. Fiz o vestibular [Liceu] ainda durante a ditadura e cursei a Universidade Federal Fluminense (UFF) no meio ao processo de Anistia no Brasil, de 1979 a 1983. Durante muito tempo, não dei o valor devido ao que a prática do jornalismo trouxe para mim, como a atenção à diversidade e a rapidez. Tenho orgulho de ter aberto cadernos gigantes para falar de Fellini. Hoje, escrevendo uma ficção, um thriller, encontrei muita coisa bacana que fiz como jornalista, em trabalhos com lendas como Ricardo Boechat e Aluízio Maranhão.  

O que temos de novos horizontes a ampliar sua obra?

Estou trabalhando em um projeto de filme e série sobre o ator Sérgio Mamberti e num projeto sobre o Pedro Pimenta, um rapaz que foi tetra amputado e superou as diversidades. Fiz um filme sobre a atriz Vera Holtz e as suas irmãs, que vai ser lançado no cinema. Chama-se “As Quatro Irmãs”. E sigo trabalhando na minha ficção. 

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