Espécie de homenagem a um certo Cinema policial de estrutura coral, com núcleos dramáticos que se desenrolam em paralelo, mais conhecido por Heat (1995), de Michael Mann, Crime 101 é uma joia que encontrou o seu espaço — pequeno — em circuito, em plena temporada de prémios e sob o alarido da 76.ª Berlinale.
Apesar de um elenco de estrelas a granel, algumas já consolidadas (Chris Hemsworth, Halle Berry, Mark Ruffalo) e outras em consagração, como Barry Keoghan e Monica Barbaro, a produção de 90 milhões de dólares, escrita e filmada pelo inglês Bart Layton, de American Animals (2018), chegou discretamente aos ecrãs — talvez por já ter presença assegurada na Prime Video. No seu terreno, sem alarde, a adaptação do livro homónimo de Don Winslow devolve ao cinema comercial de estúdio (Amazon MGM) o apreço por estudos de personagem e a recuperação de uma estrutura dramatúrgica que ofereceu à cultura popular, via televisão, Law & Order (1990). O que se observa no trabalho de Layton é uma espécie de episódio dessa série tão aclamada, de inclinação épica e matriz sociológica, com duas horas e vinte minutos a debruçar-se sobre o desamparo, a desarticulação e as ligações possíveis.
Heat (1995), que está prestes a ganhar uma sequela do próprio Mann, era um tratado sobre esse território, tal como outros grandes filmes dos anos 1990 — White Sands (1992), One Good Cop (1991) — e dos anos 2000 — Narc (2002), Brooklyn’s Finest (2009) — que utilizaram o dispositivo coral para refletir sobre a Lei e as suas incongruências morais e até existenciais. Layton, a partir dos escritos de Don Winslow, inscreve-se nessa árvore genealógica. Conta com a direção de fotografia sagaz de Erik Wilson, em plena maturidade, para enquadrar Los Angeles sob uma luz morna que sintetiza o espírito das personagens e dos seus satélites. É na montagem dialética de Jacob Secher Schulsinger e Julian Hart que os diferentes vértices do seu poliedro equilibram-se numa geometria ofegante de derrotas quotidianas.
Sem procurar qualquer resquício do Poderoso Thor, um Hemsworth sisudo entra em cena no papel de um elegante ladrão de joias, Mike (cujo nome real é James), cujos golpes envolvem abordagens mirabolantes, mas sempre avessas ao derramamento de sangue. O seu último roubo foi um primor, mas o seu recetor, Money (um rejuvenescido Nick Nolte), prefere enganá-lo e aproveitar-se das suas novas investidas, com a ajuda de um ladrão motoqueiro de atitudes agressivas, Ormon (um Keoghan a destilar maldade). O próximo movimento de Mike/James a atrair a sanha de Ormon é a apropriação de diamantes de um milionário esnobe (Tate Donovan), ligado a uma corretora de seguros em declínio, Sharon (Halle Berry). O ódio pela chefia e pelo ricalhaço leva-a a ajudar o larápio vivido por Hemsworth, sem medir os riscos para a sua liberdade.
Este coletivo de almas danadas poderia seguir impune da Justiça, mas à mercê de balas, não fosse a intervenção de uma personagem detetive marcada por um divórcio e maltratada na esquadra, Lou, um herói outonal que Ruffalo compõe com grandiosidade mítica. Lou já viveu os seus dias de Prometeu, mas entregou o fogo da vigilância aos homens errados, corruptos. Tem um carro que se desfaz, foi abandonado pela companheira (Jennifer Jason Leigh) e é humilhado pelo seu superior enfarpelado em fatos caros. Ainda assim, possui uma aretê — termo da Grécia antiga para “virtude” — que o distingue dos tipos mundanos que ostentam distintivo: obstinação. A certeza de que há algo de podre no reino de Los Angeles e de que inocentes pagam por isso leva-o a procurar Sharon, a seguir o rasto de Mike/James e a enfrentar a fera Ormon sem medo.
É um herói no crepúsculo que só um ator em fase de apogeu como Ruffalo é capaz de criar, num filme que transcende o corriqueiro do seu género. Crime 101 inventaria a solidão desta personagem a partir dos veios que tem para sublimá-la: fazer o Bem.














