«Leste Oeste»: o paranaense Rodrigo Grota injeta o combustível da invenção no cinema brasileiro

(Fotos: Divulgação)

Embora tenha celebrado, na seara do desporto, vitórias de mitos da velocidade como Ayrton Senna, Nelson Piquet e Emerson Fittipaldi, o Brasil deu pouco espaço para o automobilismo no seu cinema, num gesto de indelicadeza histórica que dá passagem, neste fim-de-semana, a um filme seminal sobre o assunto: Leste Oeste.

Em cartaz a partir desta quinta-feira no seu país de origem, esta produção do estado do Paraná, que vem correndo mostras pelo mundo afora desde 2016, subiu pódios internacionais para comemorar láureas de respeito: conquistou o Van Gogh Awards, na categoria de Prémio Especial do Júri para Melhor Filme Dramático Internacional, na 8ª edição do Amsterdam Film Festival, na Holanda. Recebeu ainda o prémio de Melhor Longa-Metragem Narrativa no 3rd Erie International Film Festival (EUA).

Apesar de o protagonista do filme ser um piloto de corridas, um homem que constantemente se põe em perigo, suspeito que o filme não seja exatamente sobre a sensação extrema da velocidade física, e sim sobre uma possível imobilidade existencial, uma contínua incapacidade do ser humano de conseguir ausentar-se de si mesmo, de fugir plenamente do seu universo afetivo“, diz Rodrigo Grota, aclamado em festivais brasileiros pelas curtas da Trilogia do Esquecimento, formada por Satori Uso (2007), Booker Pitman (2008) e Haruo Ohara (2010), conectados à tradição do falso documentário, ou mockumentary. “Por mais que você tente escapar, fugir ou esquecer alguns aspetos da sua trajetória, as questões essenciais permanecem – o que eu quero, o que eu sou, eu quero mudar, o que devo fazer para mudar…“.

Os seus protagonistas são Felipe Kannenberg e Simone Iliescu. Ambos ganharam prémios (melhor atriz e melhor ator) no Cine PE, em Recife, há três anos. Com a banda sonora assinada por Rodrigo Guedes, líder do Grenade (uma das principais bandas do indie rock brasileiro), Leste Oeste foi filmado em meio a provas reais: as 100 Milhas de Kart e as 500 Milhas de Londrina. No enredo, o ex-piloto Ezequiel (Felipe) decide retornar a sua cidade natal, depois de um desaparecimento de 15 anos, para realizar uma última corrida. Lá, ele reencontra Stela (Simone), ex-mulher de seu irmão, Pedro, um jovem aspirante a piloto, e Angelo, o patriarca da família.

O que o processo de “Leste Oeste” revelou a um mestre do mockumentário como você sobre a arte da ficção? Qual é o fio de melodrama que corta o filme?

Eu não sou mestre de nada não. O que ocorre é que, desde pequeno, sempre consegui contar histórias um tanto fantásticas com um certo apelo realista que acabava fazendo as pessoas acreditarem naquilo que estava a contar. Mas realmente não sei dizer como isso acontece. No fundo, sobre a arte da ficção, gosto do conselho do Kiarostami (esse sim verdadeiro mestre): “as pessoas precisam acreditar em você, acreditar naquilo que está sendo narrado“. Sobre o melodrama, eu diria que a questão que condiciona todas as atitudes das personagens centrais de Leste Oeste se refere a um ponto de origem afetivo – no caso de Ezequiel, ou o Homem que Volta (como era descrito no argumento original), ele se pergunta: “é possível voltar para casa?“. No caso de Stela, ou a Mulher que Canta (como era descrita no argumento original), ela se questiona: “não estamos sempre em casa?”. E no caso do Pedro, personagem vivido pelo piloto Bruno Silva, tudo que ele quer é sair desse ponto de origem, dessa casa que o aprisiona.

O que existe de faroeste na composição do seu protagonista piloto?

O western é um dos meus géneros prediletos – ele nos oferece paisagens amplas, ambientes desérticos, personagens monossilábicos. André Bazin acreditava que o western era o cinema americano por excelência. De certa forma, principalmente no que se refere à construção visual de um filme, ele nos oferece uma paisagem mítica, o que cria uma identificação muito forte e emocional com a maior parte dos espectadores. Do ponto de vista da composição do personagem Ezequiel, o piloto que retorna à sua cidade natal, eu queria que ele fosse algo como Shane, do filme clássico do George Stevens, ou Ethan Edwards, em The Searchers, do John Ford. Queria que ele fosse alguém que viajou por muitos países, correu riscos, e após 15 anos sem entrar em contato volta para a sua cidade natal sem explicar por que está de volta. Nesse caso, usei um princípio do Heráclito, filósofo pré-socrático, para criar a lógica desta personagem: “A natureza ama se esconder”. No caso de Ezequiel, ele é o que ele oculta. E dessa personalidade misteriosa e monossilábica do Ezequiel acaba por surgir essa aproximação com o universo do western.

Qual é a moral que rege as lógicas de família das personagens de Leste Oeste?

Eu diria que é uma moral fantasmagórica, espectral, sombria: todos querem existir de certa forma, serem plenos em suas vidas e sentimentos. Como se estivéssemos diante de fantasmas em busca de um corpo, tentando se tornar visíveis. É uma moral diferente da judaico-cristã, na qual a salvação se dá na pós-vida, após a vida física. No caso do Leste Oeste, eles querem experimentar ao menos por uma vez essa sensação tão difusa e complexa que é a de estar vivo. Para um espectro estar vivo talvez seja um pecado – e toda moral acaba por ser condicional por suas impossibilidades.

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