Lovers Rock”, segundo capítulo/filme da série antológica “Small Axe“, com assinatura do vencedor do Oscar, Steve McQueen, é uma curiosa incursão no mundo caribenho residente em Londres, e um verdadeiro tributo a um estilo de música reggae conhecido pelo seu conteúdo e sonoridade romântica.

Um filme sobre tudo e sobre nada, não seguisse apenas encontros e desencontros, paixões e namoricos numa noite algures nos 80, numa festa, “Lovers Rock” é também sobre aquilo que não mostra: sobre como as festas em casas particulares – com entrada paga – eram recorrentes nestas comunidades, pois os participantes não conseguiam, como gostariam, aceder às pistas de dança britânicas com a facilidade com que os brancos o faziam.

A segregação e racismo está assim aqui presente na sua forma mais comum: a sistémica de pequenas (grandes) coisas, sem haver a necessidade um “grande caso de injustiça” como os factos ligados aos famosos 9 de Mangrove, que alimentaram todo o primeiro capítulo.

Por isso, todo este filme carregado cinematicamente pelas cores alaranjadas e marrons – tão típicas no cinema de McQueen, despontam numa verdadeira celebração, que como qualquer festa tem os seus pequenos problemas, como atritos entre convidados, alguns excessos e problemas com a vizinhança. Há também situações mais duras, como a tentativa de agressão sexual a uma convidada, e os já referidos pequenos (grandes) atos de racismo, alegadamente coisas simples, “sem dramas de maior”, mas sintomáticos de uma sociedade construída com bases insustentáveis de convivência pela hierarquização de cidadãos de primeira e de segunda.

Eu só queria fazer um filme sobre a minha tia” , disse McQueen à Esquire sobre este pequeno filme/episódio, que é retirado da própria história da família do cineasta, inspirada em como a sua tia Molly costumava fugir de Shepherd’s Bush para Ladbroke Grove para comparecer em festas de blues.

Por isso, se esperam neste segundo capítulo um caso “sério” como o de “Mangrove”, talvez saiam desiludidos. Já nós, entramos na celebração, festejamos como se não houvesse amanhã e acordassemos no dia seguinte preparados para a missa, mas refletimos sobre os pequenos atos que para a maioria são impercetíveis ou inexistentes, mas que para os que os sofrem são de extrema relevância para a forma como são vistos pela sociedade que os acolheu, condicionamento em muito a imagem que têm sobre si mesmos.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
Guilherme F. Alcobia
lovers-rock-sobre-tudo-e-sobre-nadaFilme sobre tudo e sobre nada, "Lovers Rock" evoca a segregação e racismo na sua forma mais comum