Ben Stassen é realizador e líder de uma das empresas de animação independentes mais conhecidas na Europa, a nWave. Especialista neste campo, não só na produção de longas e curtas metragens para cinema (As Aventuras de Sammy; A Casa da Magia), mas igualmente de trabalhos IMAX para parques temáticos e museus, Stassen esteve em Portugal na Monstra – Festival de Animação de Lisboa para apresentar o seu mais recente trabalho: Cai na Real, Corgi.
O C7nema teve o privilégio de falar com este animador, que não só nos contou como nasceu o projeto como falou do futuro e dos tempos relativamente sensíveis que vivemos na construção de histórias e na utilização do humor.
Como nasceu este Cai na Real, Corgi?
Temos sido um dos estúdios de animação mais prolíficos do mundo, com exceção das grandes empresas norte-americanas. Fizemos 9 filmes de animação em 10 anos e estamos sempre à procura de histórias. Às vezes não encontramos um bom guião e desenvolvemos nós mesmo a história, mas confesso que prefiro encontrar os guiões já escritos, pois quando tens um guião, podes ter uma grande história, mesmo que o roteiro não seja bom. Normalmente, quando não tens uma boa história, não tens um bom guião.
Prefiro ter os guiões, mesmo que não os usemos ou que seja necessário reescrevê-los. Tenho uma boa relação com a Waterman Entertainment, que fizeram o Alvin e os Esquilos, e queriam que fizemos o Alvin 4. Nós somos uma empresa que faz os seus próprios filmes originais, por isso disse que não, mas acrescentei que se eles tivessem algum guião com qualidade, podíamos trabalhar nele. Por isso, o meu último filme foi graças a eles, o Bigfoot Júnior (2017).
Neste caso, do Corgi, eles mandaram-me o guião. Na verdade, esse guião era propriedade do Ivan Reitman, dos filmes Ghostbusters (Caça-Fantasmas). Eu comprei-o a ele. Li o guião, gostei da história e principalmente porque era um texto que se lia em dois níveis.
Quando tens uma história de animação tens de agradar os miúdos e não aborrecer os pais. No caso do Corgi pensei que ele podia ser agradável para os pais e para os miúdos, por isso podíamos ler o filme em dois campos.
Toda a gente conhece a rainha britânica. O mercado britânico era um dos grandes alvos desta produção?
Nem por isso. O nosso alvo era o mercado internacional, mas a realeza britânica, do ponto de vista do marketing, é conhecida globalmente. Mas é acima de tudo uma história sobre cães. As pessoas gostam de cães. Nós sabemos ver o poder de atração de uma história ou não. Fizemos muitos filmes com sucesso, não ao nível dos grandes estúdios americanos, mas dentro do mercado de um estúdio independente. Este filme, por exemplo, vai estar em 73 territórios.
O que acontece é que, quando temos 3 ou 4 minutos do filme, vamos ao American Film Market, que é em Los Angeles. Em novembro de 2017, não mostramos muito do filme nesse mercado, só uns minutos e o guião. Toda a gente ficou excitada com o projeto por causa da realeza e de todos os outros aspetos.
E depois disso tiveram o trailer que foi um enorme sucesso…
Foi inacreditável. Até para um grande estúdio seria um mega sucesso os números do trailer. 20 milhões de visualizações em duas semanas no Reino Unido. E depois dezenas de artigos sobre o trailer em revistas como a Vanity Fair, a Esquire. Recentemente estreamos na Holanda muito bem. Nunca tivemos um sucesso como este.
Na Holanda abrimos em número 3 e eu até estava um pouco deprimido. Era fevereiro, estavam 20 e tal graus, sol. Pensei que ninguém ia se meter nos cinemas para ver, mas na segunda semana chegamos ao número 1, onde continuamos na semana seguinte. Agora estamos atrás do Captain Marvel. O nosso maior sucesso até agora tinha sido o Sammy e já vamos 3 vezes melhor que ele.
Há pouco falou em balançar o filme para crianças e fazer algo que não aborreça os adultos. Li alguns comentários na Internet de pais preocupados com algumas piadas que estão no filme, como a da “cocaína”.
Sempre tive um problema com essas coisas. Eu faço filmes IMAX, já fiz uns 8. E esses filmes são educacionais e até são mostrados em museus. Muitas vezes lês comentários de pais que … nem sei. Pegue-se na piada da cocaína. Os miúdos não vão entender.
Sim, quem vai perceber são os pais…
Exato. Neste caso são as pessoas a projetar aquilo que pensam que não é bom. Os miúdos nem vão perceber. E mais. Nós não dizemos que isso é algo bom.
Aliás, aquilo é uma gag de 5 segundos…
Sim, só os pais vão entender. Outro exemplo. Não sei como se diz em português, mas há aquele momento em que o Trump diz à cadela, “go grab some puppy“. Se mostrares essa frase a 10 mil miúdos de 10 anos, nem um vai entender a referência. Os pais sim…
Sim, é como a referência no filme ao Clube de Combate….
Exato. Vou lhe contar sobre o primeiro filme em IMAX que fiz, o Wild Safari (2005). Eu filmei uma sequência de leopardos a acasalar. Recebi cartas de mães a criticarem.
Acha que vivemos numa era demasiado sensível a certos temas?
Sem dúvida. Outro exemplo que é completamente de loucos: o nosso filme Os Mosconautas no Mundo da Lua (2008). Nós fizemos uma versão mais curta do filme que durante 7 anos esteve em exibição num museu em Londres. O filme era apresentado numa zona do museu onde estava a cápsula espacial da missão Apollo 10. Ou seja, estava no ambiente perfeito. No ano passado, eles receberam cinco cartas. Podia jurar que eram da mesma pessoa, mas foram cinco cartas. Essas cartas diziam que o filme era misógino e sexista. A razão? Porque as mães desmaiavam quando os miúdos iam na missão espacial.
A pessoa ou pessoas que achavam a cena sexista era porque os avôs ficavam entusiasmados com a ida dos miúdos, mas as mães desmaiavam. Se tivessem sido umas 100 pessoas ou mais a protestarem na primeira semana dessa exposição, sim. Eu entendia e pensaria que fiz algo de mal para o público britânico. Mas passados sete anos? Não me lixem…
É mais ou menos o que sinto em relação a este tipo de coisas. Nós não somos parvos. Nós fazemos filmes para a família. Eu não quero ofender ninguém com as referências. Estamos a falar de um cão farejador que trabalhava num aeroporto e que ganhou o “gosto” ao trabalho.
Ainda ontem o Pedro Almodóvar falou que um dos grandes problemas hoje em dia é uma forma de autocensura. Os realizadores e argumentistas agora têm sempre de pensar no que podem ou não dizer e fazer.
Sim, é verdade…
Isso é especialmente um problema para si, que há anos atrás disse que queria se expandir mais para o mercado norte-americano. Com estas questões e problemas, cada vez é mais difícil entrar nesse mercado?
Acima de tudo é frustrante. Tem a ver como as pessoas pensam. Acho que elas deviam se colocar ao nível dos miúdos. As crianças não são estúpidas, não estou a dizer isso. Mas se não entendem a piada, essa piada não lhes fará mal.
Mas tem razão. Nós mostramos ao distribuidor norte-americano e essa cena específica era um problema. E sinceramente, se eles viam realmente um problema nisso, eu cortava a piada. É uma cena irrelevante, estúpida, para realmente eu me preocupar em lutar para a manter. É uma piada à parte da história principal.
Está a trabalhar na sequela do Bigfoot. Quando vai estrear mesmo?
No próximo verão.

Planeia regressar a outros projetos antigos como o Sammy?
Não. Uma das razões porque regresso ao Bigfoot é porque gostei mesmo das personagens e quis explorá-las um pouco mais. Gosto muito de trabalhar com os escritores da história, acho que são sensacionais. Por isso disse: “vamos fazer mais um”. Mas não, não tenciono voltar ao Samy.
E ao Corgi, tenciona voltar a este mundo?
Há uma pressão para fazermos a sequela. O filme pode tornar-se um grande êxito e a pressão será para fazermos mais um. Para nós não é fácil fazermos uma sequela. Os grandes estúdios – Pixar, Disney – têm 1200, 1300, 1400 animadores. E eles fazem mais sequelas que qualquer outro. Mas não são as mesmas pessoas a fazer o mesmo trabalho. Para nós, serão as mesmas 100 ou 200 pessoas a fazer isso.
Em como vê a entrada de empresas como a Netflix neste negócio? Vê-se a trabalhar neste novo sistema?
Se fizermos isso, perdemos a nossa independência. Não no sentido deles interferirem no que fazemos, mas seríamos apenas uma linha de produção. Até podia ser bom e não estou a dizer que não o faria, mas uma vez que entres nisso é um pensamento diferente. Para mim sempre foi um desafio fazer filmes de animação. Os EUA dominam esta indústria, mas dominam ainda mais no chamado entretenimento familiar. Porquê? Porque é o segmento mais lucrativo em termos de investimento. Eles reservam todos os espaços de lançamentos nas épocas festivas, como o natal ou o dia de ação de graças. A estes juntarmos o Carnaval, a Páscoa e o verão. São cinco janelas para estreias e eles controlam todas. Para nós isso é um problema, pois torna mais difícil vender os nossos filmes para os EUA.
Mas, curiosamente, essa mesma situação torna mais fácil vendermos para outros mercados. Os distribuidores independentes querem filmes familiares, mas não os vão ter porque os grandes estúdios controlam os filmes desse género.
Por isso, o mais difícil nos EUA, para além de teres de fazer filmes decentes, é seres confiável, mostrar que consegues ter o filme pronto na data que eles agendam com seis meses ou mais de antecedência. Nós temos cumprido e eles confiam em nós. Isso tem sido bom. O facto de termos o apoio de tantos distribuidores independentes mundiais torna menos necessário que façamos um acordo com a Netflix. Mas, idealmente, eu faria um negócio com a Netflix relativamente ao mercado norte-americano. E eles precisam, pois tinham acesso ao catálogo da Disney e com o negócio da Fox, também perdem esses títulos.
Uma das coisas que o Ben e a sua empresa também trabalham é na realidade virtual. Vocês estão a planear lançar uma plataforma de streaming para isso?
Está pronta a ser lançada. Vai estar www.nwave3Dchannel.com e é um novo conceito de sala de cinema, onde usas uns óculos especiais (headset). Mas não é interativo. É um objeto passivo, mas com alta qualidade de 3D. Se mexeres a cabeça a imagem vem contigo, não se expande. É imagem 3D, de alta qualidade, mas não realidade virtual. Vamos lançar provavelmente em maio.
Como sabes, somos uma empresa líder mundialmente a fornecer filmes IMAX. Nós fazemos para parques temáticos, museus. Estimo que mais de 250 mil pessoas assistem a um dos nossos filmes diariamente. Isso é gigantesco. (…) Nós queremos oferecer uma tecnologia que oferece de forma mais acessível uma grande experiência imersiva para filmes de 10 a 20 minutos usando um Headset especial. Mas numa forma completamente diferente da realidade virtual.


