De uma simplicidade franciscana, para libertar as reconstituições de época de clichês épicos, Hamnet (2025) preserva uma delicadeza quase analgésica, apesar de se centrar no calvário do luto. É bem-sucedido no empenho de esboçar um passado possível para William Shakespeare (já abordado sob esse prisma anteriormente — e de forma mais engenhosa — por Anonymous (2011)), mas é ainda mais assertivo na forma como expõe a solidão feminina e a falta de parceria dentro da engrenagem institucional da família. Jessie Buckley entrega aqui a sua interpretação mais madura, de maior relevo existencialista, compondo a mulher que amparou o bardo nos sonhos de se tornar um dos autores teatrais mais requisitados.

Embora exista um espelhamento entre a tragédia pessoal da sua personagem e o enredo de Hamlet, a abordagem de Chloé Zhao desprende-se de adereços e de metáforas fáceis. Outras duas longas regressam à memória perante aquilo que a cineasta propõe: O Quarto do Filho (2001), de Nanni Moretti, e Manchester by the Sea (2016), de Kenneth Lonergan. Nesta genealogia, Zhao está em excelente companhia e, como nos títulos referidos, finca a sua narrativa na inabilidade humana para lidar com a ausência daquilo que é essencial, vital e orgânico — aqui sob o prisma da maternidade.

Lonergan e Moretti falavam de pais. Entre esses filmes, John Cameron Mitchell colocou a lupa sobre uma alma enlutada no feminino em Rabbit Hole (2010), arrancando pulsões nunca antes vistas de Nicole Kidman. Hamnet (2025) segue essa pulsação, mas apoia-se formalmente numa linha romanesca de dramaturgia, palavrosa, embora ciosa dos hiatos da voz e do silêncio, dialogando com o livro homónimo da irlandesa Maggie O’Farrell.

Opta por iniciar o olhar sobre uma pessoa em agonia pela via prospectiva da esperança no afecto, embora, em toda a sua estrutura visual, nunca abandone os tons ocres e terrígenos — quer na luz da fotografia de Łukasz Żal, quer na direcção de arte de Fiona Crombie e Victoria Allwood. O mesmo se aplica ao notável trabalho da figurinista Małgosia Turzańska. Como se comentou durante o TIFF — Festival de Toronto, onde Zhao venceu o People’s Choice Award, qualificando-se para o Oscar — trata-se de um filme com cor de musgo, um cromatismo de pigmentos silvestres, por vezes tão escuro quanto as matas cerradas.

Agnes, a protagonista confiada a Buckley (e excelentemente cuidada por ela), passa tempo na floresta, onde existe uma gruta misteriosa. Um rapaz chamado William (Paul Mescal, menos caricato do que o habitual) visita-a e ela pede-lhe que lhe conte uma história. Ele reconta-lhe a lenda de Orfeu e Eurídice, para grande deleite de Agnes. Ela segura-lhe a mão e prediz-lhe um futuro grandioso; vê também a sua própria morte com dois filhos. Os dois têm relações sexuais e Agnes engravida. Os pais dela expulsam-na de casa; a família de William não aprecia o casamento que se aproxima, mas eles acabam por casar. Agnes dá à luz a primeira filha, Susanna, no bosque.

A prole cresce, mas, paralelamente ao que poderia ser um núcleo familiar feliz, William começa a transformar-se em Shakespeare — parte para a metrópole, deixando a companheira só, para firmar o seu nome como dramaturgo. Tudo se esfacela de vez quando o filho Hamnet morre. Daí em diante, uma união fadada ao fracasso desintegra-se. Essa desintegração não nasce apenas da morte, mas sobretudo da falta de escuta, da falta de atenção, do egoísmo.


A montagem que Chloé constrói em parceria com Affonso Gonçalves é sábia o suficiente para estudar o que sobra de Agnes, o que descola de William e o que resta desse Hamnet, que serve de centelha para a criação daquela peça famosa pelo “ser ou não ser” mais lendário da ficção. O que se diz de solidão nesta trama — uma solidão permanente e perpétua, que companhia provisória alguma aplaca — já se fazia notar (ainda que de forma mais sociológica) em Nomadland (2020), que valeu à cineasta o Óscar e o Leão de Ouro, e no seu injustiçado Eternos (2021). Engramas autorais de outrora regressam em Hamnet (2025), fortalecidos, a desenhar uma obra sólida num filme duro, mas de beleza inquestionável, cuja austeridade não sufoca a sua erupção sentimental.

O falcão que revoa os céus de Agnes é uma das poucas metáforas da trama. É o signo de um espírito que acreditou ser capaz de voar até ser agarrado ao chão por imposições sociais (e pelo machismo). As suas asas, outrora frondosas, perderam força. O seu voo é agora para dentro. E dentro ela permanece…

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
hamnet-o-que-se-perde-e-o-que-ficaO falcão que revoa os céus de Agnes é uma das poucas metáforas da trama. É o signo de um espírito que acreditou ser capaz de voar até ser agarrado ao chão por imposições sociais (e pelo machismo). As suas asas, outrora frondosas, perderam força. O seu voo é agora para dentro. E dentro ela permanece…