Ao exibir Les Salauds (2013) na competição pelo Prix Un Certain Regard de Cannes, a francesa Claire Denis explicou-se de uma forma que nunca fizera antes e raramente repetiu depois: “A minha verdade, no confronto com as diferenças, talvez seja a cartografia do que os corpos expressam, do que um rosto revela sobre a intimidade de cada um”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo.

Foi essa bússola — o corpo, dimensionado por saliva, suor e sangue — que modulou Cri Des Gardes (2024), lançado mundialmente no TIFF, projetado na disputa pela Concha de Ouro de San Sebastián e já escalado para o Festival do Rio. No Brasil, terá o título A Cerca, e em inglês chama-se The Fence, numa referência a uma linha geométrica (e geopolítica) que separa colonizadores dos seus oprimidos na dinâmica do olhar da artista europeia, que desde menina correu o mundo, com vivências em países africanos e família em estados brasileiros.

No interior da “cerca”, um diálogo devastador impõe o filme mais recente da realizadora de Nénette e Boni (1996, Leopardo de Ouro em Locarno) como um must-see: “Está a sentir este cheiro? É o odor da Europa”, diz a jovem Leonie (Mia McKenna-Bruce) ao chegar a um canteiro de obras que funciona nesse cercado.

O local tem génese literária. Le Cri des Gardes é uma adaptação de um romance de Bernard-Marie Koltès, Combat de Nègre et de Chiens, cuja versão para o ecrã decorre nos barracões de uma obra num país da África Ocidental. Ali, um homem misterioso, de vestes finas, que se apresenta como Alboury (Isaach de Bankolé, num esplendor de composição), exige o corpo do seu irmão falecido, que teria morrido no local. Horn, o chefe da obra (vivido por um feroz Matt Dillon), e Cal, um engenheiro (Tom Blyth), dividem o alojamento atrás de uma porta dupla e fazem o que podem para afastar Alboury. A chegada de Leonie, namorada de Horn, altera o equilíbrio desse perímetro em que só havia homens e gnus — seres bovinos na sua submissão aos instintos. É deles que Claire fala, sem hesitar, muitas vezes atenta aos interditos da moral e a vetores de culpa.

A herança colonial é um elemento já abordado por Denis antes, no seminal White Material (2009), e volta agora a mobilizar o seu olhar, justificando a retomada da parceria com Isaach de Bankolé, divo da Costa do Marfim que já fora seu parceiro em Chocolat (1988). Bankolé fez ainda história no cinema independente norte-americano em colaborações com Jim Jarmusch.

Como um espectro na escuridão, o seu Alboury é um Exu, a entidade mensageira das religiões de matriz africana, como o Candomblé, que — conforme ditam os provérbios dessa fé — “não manda recados, pois leva e traz as mensagens”. Nos seus feitos, ele “mata um pássaro hoje com uma pedra que só vai atirar amanhã”. É o que acreditam os candomblecistas, mas Claire não professa nas telas outro credo senão o da imagem.

O devir-Exu de Alboury nasce da direção de fotografia de Eric Gautier, que aposta em quadros bruxuleantes, carregados de sombra, como meio de traduzir o tônus de trevas da colonização. A tenebrosa cerca onde Cri Des Gardes (2024) se passa reflete um passado de opressões cujos sintomas — e desmandos — ainda pairam no ar. Por isso, na sua obra “autogeográfica”, Claire Denis permite-se regressar a um continente onde filmou longas seminais, a fim de realizar um conto moral sobre ajuste de contas e retribuição histórica.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
cri-des-gardes-2024-o-ajuste-de-contas-colonialA herança colonial é um elemento já abordado por Denis antes, no seminal White Material (2009), e volta agora a mobilizar o seu olhar, justificando a retomada da parceria com Isaach de Bankolé