Não é certamente inocente a presença de “5 Hectares” no Festival de Locarno. Exibido fora de competição, ele é protagonizado por Lambert Wilson, o presidente desta edição do festival suíço, o qual é guiado na sua jornada por uma antiga concorrente do Leopardo de Ouro, Emilie Deleuze, que há cerca de 20 anos exibiu no certame “Mister V.”
Pegando nos habituais contrastes entre campesinos e citadinos, “Doutores e iletrados”, parisienses e tudo o resto, Deleuze coloca Lambert como um homem da ciência casado com uma comissário de bordo que decide explorar os prazeres da vida rural francesa, assumindo assim, na região de Limousin, 5 hectares de terra que procura explorar.
A sua chegada, vista por muitos como a de um parisiense a querer fazer um grande jardim, é mal vista especialmente pelo vizinho da quinta, um grande proprietário que faz da criação de gado a sua vida desde sempre e que agora assiste aos seus animais perderem o feno habitual.
Ainda recentemente, em “As Bestas”, do espanhol Rodrigo Sorogoyen, assistimos a intensos conflitos entre os que vivem nestes pequenos povoados e os da cidade que chegam, mas por aqui a realizadora francesa opta por um registo mais ligeiro, entre a comédia e o drama, que ameaça sempre expandir para o lado existencial (o que mudou neste homem para transformar a sua vida), político (a enxurrada de burocracias e avaliações de qualidade impostas pelo União Europeia, e o social (fala-se da população agrícola ter uma grande taxa de suicídios), mas vai sempre mantendo os pezinhos de lã nas situações e eventos, tudo num registo morno e pouco profundo.
O resultado é um filme curioso, de visionamento e consumo imediato, mas que não vai, nem quer, ir além de uma espécie de manual de perseverança e aceitação num ambiente que reage à chegada de alguém com hostilidade. E essa transformação, esse desejo de ser visto como um local e, consequentemente um sentimento de pertença, acaba por ter como símbolo da busca interior e de um outro lugar num trator.
Destaca-se sim, no meio de tudo isto, a personagem do vizinho, brilhantemente absorvida por Laurent Poitrenaux, e de um depressivo homem do campo, Lionel Dray, que juntamente com Wilson fazem um espetáculo em grande parte das cenas que partilham, com tanto de burlesco como ternura.




















