Potente e plural no seu diálogo com a cartilha de género, sobretudo nas comédias (“Puan“, “Nada” e “Blondi“), a fornada de longas-metragens vindas da Argentina para San Sebastián pisa de modo gracioso no body horror com o thriller “Los Impactados“, estrelado por Mariana Di Girolamo. É a narrativa mais pop da realizadora Lucía Puenzo, que angariuou prestígio entre os seus hermanos de América Ibérica pelo seu trabalho como analista de dramaturgia em guiões e como guionista. O seu “XXY” foi um marco em Cannes em 2007 e ela seguiu numa linha de escrita autoral sobre corpos que não se adequam a normas da Biologia ou da Ciência Social (como “Wakolda“). Mas o seu percurso prévio seguia uma montagem morna, sem declives, de raras viragens. Era um cinema de acomodação às rotinas do mundo. Algo muda – e para melhor – no seu retorno ao circuito dos festivais, pelos Horizontes Latinos de Donostia.

Triagem de perversões, “Los Impactados” tem vários elementos em comum com o genial “Crash” (Prémio do Júri de 1996 em Cannes), de David Cronenberg, e com o irmão mais novo desse filme de culto, o igualmente brilhante “Titane” (Palma de Ouro de 2021). O seu objeto é a eletrofilia, o gozo sexual com choques e cargas elétricas. O prazer que a eletricidade pode gerar não é explicitamente discutido. É graficamente provado. Não é uma tese. É cinema, e Lucía sabe realizar com elegância, dando evidências de destreza no trato com a gramática do sci-fi sobrenatural. Não há misticismo na trama, há hipóteses relativas das leis da Física.

O mote da longa-metragem a é a hipótese que o impacto de um raio pode mudar a psique das suas vítimas e também o seu organismo. É o que vai ocorrer com a veterinária Ada (papel de Mariana, numa pujante atuação) depois de ser alvejada por uma forte descarga durante uma chuvada. A sua mente entra em crise e o corpo passa a sofrer sintomas de desconforto. Porém, a descoberta de um grupo (quase uma sociedade secreta) de pessoas que se acidentaram com os espasmos elétricos do céu vai empurrar Ada para uma subcultura cheia de mistérios, mas de alta voltagem erótica.

Apesar de perder (de leve) o ritmo no terço final, Lucía conduz esse enredo numa linha de excelência cresceste. O traço identitário da sua filmografia – desconexão familiar de pais e filhas – marca presença num detalhe essencial do passado de Ada. O clima enigmático da narrativa é beneficiado do hábil emprego de efeitos visuais, realçados na paleta de cores da fotografia de Nicolad Puenzo, irmão da cineasta.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
los-impactados-flirt-eletrizante-com-o-sobrenatural-da-fisicaTriagem de perversões, "Los Impactados" tem vários elementos em comum com o genial "Crash", de David Cronenberg, e com o irmão mais novo desse filme de culto, o igualmente brilhante "Titane"